28 de Fevereiro de 2012

Como evolui a Ciência? - por Karl Popper

O objectivo da ciência
Sugiro que o objectivo da ciência é encontrar explicações satisfatórias para aquilo que consideramos precisar de uma explicação. Por explicação (ou explicação causal) entendo um conjunto de enunciados em que uns descrevem o estado de coisas a ser explicado (o explicandum) enquanto que os outros, os enunciados explicativos, formam a "explicação" no sentido estrito da palavra (o explicans do explicandum).
A questão "Que tipo de explicação pode ser satisfatória?" conduz à seguinte resposta: uma explicação em termos de leis universais falsificáveis e testáveis e de condições iniciais. E uma explicação deste tipo será mais satisfatória quanto mais testáveis forem essas leis e quanto melhor tiverem sido testadas. (Isto também se aplica às condições iniciais.)
Desta maneira, a conjectura de que o objectivo da ciência é encontrar explicações satisfatórias conduz-nos à ideia de melhorar o grau com que as as explicações são satisfatórias melhorando o seu grau de testabilidade; isto significa avançar para teorias com um conteúdo cada vez mais rico e com graus de universalidade e de precisão cada vez mais elevados. Isto está, sem dúvida, inteiramente de acordo com a prática efectiva das ciências teóricas.
Podemos chegar fundamentalmente ao mesmo resultado também de outra maneira. Se o objectivo da ciência é explicar, então é também seu objectivo explicar o que até aqui foi aceite como explicans; por exemplo, uma lei da natureza. Deste modo, o objectivo da ciência renova-se constantemente a si próprio. Podemos prosseguir para sempre, avançando para explicações com um nível de universalidade cada vez mais elevado.
Profundidade
Sugiro que as nossas leis ou as nossas teorias devem ser universais, isto é, devem fazer asserções sobre o mundo — sobre todas as regiões espácio-temporais do mundo. Sugiro, para além disso, que as nossas teorias fazem asserções sobre propriedades estruturais ou relacionais do mundo, e que as propriedades descritas numa teoria explicativa devem ser, em algum sentido, mais profundas do que aquelas a explicar. Acredito que esta expressão, "mais profundas", resiste a qualquer tentativa de análise lógica exaustiva, mas ainda assim é um guia para as nossas intuições.
No entanto, parece haver uma espécie de condição suficiente para a profundidade, ou para graus de profundidade, que pode ser logicamente analisada. Vou tentar explicar isto com a ajuda de um exemplo da história da ciência.
É do conhecimento geral que a dinâmica de Newton realizou uma unificação da física terrestre de Galileu e da física celeste de Kepler. Diz-se frequentemente que a dinâmica de Newton pode ser induzida a partir das leis de Galileu e de Kepler, e chegou-se mesmo a dizer que pode ser estritamente deduzida a partir delas. Mas isto não é verdade; de um ponto de vista lógico, a teoria de Newton em rigor contradiz tanto a teoria de Galileu como a de Kepler (embora, obviamente, estas últimas teorias possam ser obtidas como aproximações logo que tenhamos à nossa disposição a teoria de Newton). Por esta razão, é impossível derivar a teoria de Newton a partir da de Galileu, da de Kepler ou de ambas, seja por dedução ou por indução, pois nem uma inferência dedutiva, nem uma inferência indutiva, pode avançar de premissas consistentes para uma conclusão que contradiz formalmente as premissas de que partimos.
É importante notar que das teorias de Galileu ou de Kepler não obtemos o menor indício sobre como estas teriam que ser ajustadas — que falsas premissas teriam que ser abandonadas ou que condições teriam que ser estipuladas — se tentássemos avançar a partir delas para outras teorias com uma validade mais geral, como a de Newton. Só depois de estarmos na posse da teoria de Newton podemos descobrir se, e em que sentido, as teorias anteriores podem ser suas aproximações. Podemos exprimir este facto resumidamente dizendo que, embora do ponto de vista da teoria de Newton as de Galileu e de Kepler sejam aproximações excelentes a certos resultados newtonianos específicos, não podemos dizer que a teoria de Newton seja, do ponto de vista das outras duas teorias, uma aproximação aos seus resultados. Tudo isto mostra que a lógica, seja ela dedutiva ou indutiva, nunca pode realizar o passo que vai destas teorias à dinâmica de Newton. Só a imaginação pode realizar esse passo. Logo que ele tenha sido realizado, podemos dizer que os resultados de Galileu e de Kepler corroboram a nova teoria.
Aqui, no entanto, não estou tão interessado na impossibilidade da indução como no problema da profundidade e, no que diz respeito a este problema, podemos de facto aprender algo a partir do nosso exemplo. A teoria de Newton unifica a de Galileu e a de Kepler mas, longe de ser uma mera conjunção dessas duas teorias, que desempenham o papel de explicanda em relação à de Newton, corrige-as ao mesmo tempo que as explica. A tarefa explicativa original era a dedução dos resultados anteriores, mas esta tarefa é abandonada, porque não se deduzem os resultados anteriores, deduzindo-se algo melhor no seu lugar: novos resultados que, sob as condições específicas dos velhos resultados, aproximam-se muito deles numericamente ao mesmo tempo que os corrigem.
Sugiro que, sempre que nas ciências empíricas uma nova teoria com um nível de universalidade mais elevado explica com sucesso uma teoria anterior corrigindo-a, temos um indício seguro de que a nova teoria penetrou mais fundo do que as teorias anteriores.
Karl Popper in aartedepensar.com - Objective Knowledge - Tradução de Pedro Galvão

LEITURAS (LIVROS QUASE AO ACASO)

  • ALTHUSSER,Louis - FILOSOFIA E FILOSOFIA ESPONTÂNEA DOS CIENTISTAS - Editorial Presença (excelente como introdução à matéria do 2º e 3º períodos do 11º ano)
  • ATTALI, Jacques - BREVE HISTÓRIA DO FUTURO - Dom Quixote (Um dos intelectuais europeus mais respeitados fala sobre a "incrível história dos próximos 50 anos")
  • BEER, Gunter - WEB DESIGN INDEX 7 - Agile Rabbit Editions (Uma compilação fabulosa do melhor do webdesign mundial em 2007/2008 - vem com CD-ROM ;) )
  • BLOOM, Allan - A CULTURA INCULTA - Publicações Europa-América (Uma excelente reflexão sobre o declínio da cultura geral - Livro algo conservador exigindo alguma abertura de espírito)
  • BOCHENSKI,I.M. - HISTÓRIA DE LA LÓGICA FORMAL - Biblioteca Hispanica de Filosofia (Só para "apanhados" rsrsrs)
  • CANTON, James - SABE O QUE VEM AÍ? - Ed, Bizâncio ( Um excelente livro sobre as tendências que moldarão o futuro).
  • CARDOSO, Miguel Esteves - AS MINHAS AVENTURAS NA REPÚBLICA PORTUGUESA - Assírio e Alvim (crónicas com quase 20 anos de idade mas muito actuais, livro irónico, crítico, cínico e muito bem disposto... a não perder MESMO)
  • CATHCART, Thomas e Daniel Klein - HEIDEGGER E UM HIPOPÓTAMO CHEGAM ÀS PORTAS DO PARAÍSO - D.QUIXOTE ( Excelente e bem disposto livro para férias; uma reflexão sobre a morte, páginas recheadas de saber e boa disposição.)
  • CHILD,Lincoln - ABISMO - Ulisseia (um "thriller" no fundo do mar)
  • CRICHTON,Michael - ESTADO DE PÂNICO - Dom Quixote (Romance provocador em torno do eco terrorismo)
  • DIAS, Joana Amaral - MANÍACOS DE QUALIDADE - A esfera dos livros (um livro acessível, cheio de história com histórias das relações entre a sociedade, a loucura e as classificações psiquiátricas.)
  • FAGUET, Emile - O Culto da Incompetência - Padrões Culturais editores (O retrato é claramente actual: o culto da incompetência e a escassez de valores de excelência que o autor identificou há cem anos atrás mantêm-se e grassam como uma epidemia.)
  • FOLLET, René - A NOITE DA ARANHA - Meriberica/liber editores (Uma banda desenhada com qualidade gráfica e com um enredo de terror)
  • GALLEGO, Juan María Laboa - HISTÓRIA DOS PAPAS - Esfera dos Livros (É a história e o retrato de 267 Papas, a religiosidade, os problemas, as intrigas e a autoridade sobre a Igreja Católica).
  • HAWKING, Stephen W. - A TEORIA DE TUDO - Gradiva (linguagem acessível numa obra que levanta questões da física contemporânea que continuam sem resposta, a procura de combinar teorias parciais numa teoria de unificação de tudo. Um génio!)
  • ILIFFE, Glyn - ULISSES, REI DE ÍTACA - Bertrand editora ( Um romance criado a partir da Mitologia Grega, cheio de aventura, paixão e batalhas)
  • KAKU, Michio - MUNDOS PARALELOS - Bizâncio (relações entre a relatividade de Einstein, a mecânica quântica, a cosmologia e a teoria das cordas. Uma aproximação à teoria de "quase tudo". Excelente!)
  • LARSEN, Rein - As obras primas de T.S. Spivet - Editorial Presença, (Um romance de um estreante, características invulgares, bem escrito e bem ilustrado.)
  • LEVINAS, Emmanuel - ÉTICA E INFINITO - Edições 70 (Um autor a conhecer com uma Filosofia muito interessante e actual. "Alguma exigência para uma leitura proveitosa)
  • LOURENÇO, Eduardo - NÓS COMO FUTURO - Assírio e Alvim (Um livro muito pequeno, com uma reflexão profunda mas descomplicada)
  • LOVECRAFT, Howard Phillips - OS MELHORES CONTOS DE LOVECRAFT - Ed. saída de emergência - ( Provavelmente o mais influente escritor de terror do séc.XX, marcou outros tão diferentes como Umerto Eco, Robert Bloch, John Carpenter ou Stephen King... a não perder!)
  • LOVELOCK, James - A VINGANÇA DE GAIA - Gradiva (Uma reflexão cheia de informação justificando a "retaliação" da Terra... como podemos salvar a Humanidade?)
  • NEVES, João César das - O QUE É A ECONOMIA? - Principia Editora ( Um livro pequeno e "simpático", apresentando o essencial da ciência económica de forma sistematizada e muito clara.)
  • PRADEAU, Jean-François - HISTÓRIA DA FILOSOFIA - D. Quixote ( dois mil anos de debates e revoluções na história do pensamento humano condensados num único volume. Muito claro e rigoroso. Fundamental em qualquer biblioteca.
  • PRESTON, Douglas e Lincoln Child - O GABINETE DE CURIOSIDADES - Ulisseia (Romance policial inteligente, alucinante... no género estará entre os melhores que li.)
  • SANTOS, José Rogrigues dos - O SÉTIMO SELO - Gradiva (Não será talvez o melhor livro do autor mas a actualidade do tema e a correcção da escrita exigem a leitura)
  • SCHATZING, Frank - O QUINTO DIA - D. Quixote (mais um excelente eco-romance; a natureza em revolta contra a acção humana. Imperdível!)
  • SELZNICK, Brian - A INVENÇÃO DE HUGO CABRET - Ed. Gailivro (Excelente e muito premiada combinação de desenho a carvão e texto, proporciona uma desconstrução de leitura numa experiência realmente inovadora. Indispensável!)
  • SHTEYNGART, Gary - ABSURDISTÃO - Editorial Estampa (Um romance bem disposto e crítico, retrata de forma muito verdadeira o mundo em que vivemos)
  • TAVARES, Miguel Sousa - RIO DAS FLORES - (Romance com excelente pesquisa histórica, de leitura fácil e muito agradável)
  • VÁRIOS, 53 autores - CURTAS LETRAGENS - Plátano Editora (autores portugueses... um bom livro de cabeceira)
  • ZAFÓN, Carlos Ruiz - A SOMBRA DO VENTO - Dom Quixote (... a meu ver, das melhores obras literárias dos últimos anos!)
  • ZIMLER, Richard - A SÉTIMA PORTA - Oceanos ed. (no estilo único do autor, um regresso com um romance no seguimento de "O último cabalista de Lisboa". Profecias cabalísticas, intriga e vidas duplas... A ler sem falta.)