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Mensagens

A mostrar mensagens de 2015

Feliz ano novo!

Que diálogo entre culturas? -

"O mundo sem regras", de Amin Maalouf Hans Küng há muito que vem dizendo que não há diálogo entre culturas se não houver capacidade para conhecer e para pôr em contacto as diferentes religiões. Maalouf, numa perspectiva complementar, diz-nos que «a influência dos povos sobre as religiões é maior do que a influência das religiões sobre os povos». Temos, por isso, de entender na sua complexidade os fenómenos sociais, assumindo que há uma dimensão universal da dignidade humana que deve ser mais forte do que todos os particularismos. E se temos de compreender que a sociedade humana deve encontrar o equilíbrio entre o universalismo e as diferenças, não podemos deixar de ouvir o nosso autor proclamar que “o Ocidente precisa de sair do excesso de confiança em si mesmo, enquanto o mundo árabe precisa de sair do poço histórico em que caiu”. Afinal, o desregramento tem a ver com as ilusões sobre as imagens que cada um faz de si mesmo, deixando na penumbra o lugar do outro, como a met…

"Balance"

Valores

A incapacidade de enfrentar uma crise de valores

"Tem sido dito que o discurso sobre a crise dos valores se repete ciclicamente e que todas as gerações tendem a ver nas gerações seguintes um abaixamento dos padrões. Tem sido dito que o discurso sobre a insegurança e a criminalidade é um recurso fácil de políticos para angariar votos através da exploração dos sentimentos de insegurança. Tem sido dito que a sensação de deriva é apenas produto das profundas transformações económicas produzidas pela globalização da economia, e que a verdadeira fonte de insegurança é económica e social, não intelectual e moral. Não posso entrar aqui numa discussão detalhada destes argumentos. Não concordo com eles, mas penso que devem ser tomados em conta, especialmente como freios e contrapesos contra o argumento que eu próprio vou aqui defender: o de que há uma crise de valores. Todos os argumentos, incluindo obviamente os meus, podem tornar-se enganadores, e as suas consequências práticas podem tornar-se indesejáveis, se forem exagerados. É bom, …

Valores em crise?

"No início da década de 1920 Paul Valéry, consagrado intelectual francês, já nos dava conta da descrença nos valores morais tradicionais, que coincidiu com o fim da hegemonia política e económica da Europa no mundo, ao dizer: “(…) a nossa geração (…) assistiu também à negação brutal das nossas ideias mais evidentes. (…) Já não podemos então confiar no Saber e no Dever ? (…)”. Desde a conjuntura histórica entre as duas grandes guerras (1914-1945) que os valores tradicionais das elites sociais ( do trabalho, do esforço, da família, da pátria, da autoridade, etc ) começaram a ser questionados sob o trauma da 1ª Guerra Mundial. Em Portugal, a crise de valores começou a manifestar-se com a 1ª República e só reemergiu, após a interrupção autoritária do Estado Novo, com o regime do pós-25 de Abril de 1974.  As duas Guerras Mundiais (1914-1918 e 1939-1945) provocaram uma carnificina sem precedentes que desmoralizaram os países Europeus. O Existencialismo apareceu como resposta de libert…

Feliz dia de Natal!

Canal História: documentário "O Natal"

Café Filosófico - Ética

Teorias Éticas - uma introdução

Todos nós agimos de determinadas maneiras. Nossos atos e as razões finais por trás deles são o que constitui nossa moral. Nós agimos de acordo com metas que desejamos atingir, tal como aumentar a felicidade (nossa e a dos outros), reduzir os danos sofridos pelos seres sencientes, e beneficiar os menos favorecidos. Algumas pessoas também agem de acordo com certas normas, como manter promessas ou dizer a verdade. Em diferentes sociedades e grupos sociais há normalmente diferentes suposições de como os humanos devem viver. Consequentemente, as moralidades variam de acordo com o lugar e tempo. Podemos simplesmente aceitar a maneira em que fomos ensinados a viver desde o nascimento; contudo, muitas pessoas questionam essas pressuposições ao longo do tempo, e refletem sobre a moral que lhes foi ensinada. Mesmo aqueles que não têm tal atitude crítica podem, eventualmente, ver suas diferentes pressuposições morais entrarem em conflito, e ter de encarar, em algum ponto de suas vidas, situaçõe…

Introdução à epistemologia: o que é o conhecimento?

A Epistemologia constitui um campo da Filosofia dificilmente delimitável devido às inúmeras fronteiras ténues e apenas esboçadas com muitas outras áreas, elas próprias vastas e de carácter eminentemente interdisciplinar - como a Filosofia do Conhecimento, a Filosofia das Ciências, a História das Ciências, a Metodologia das Ciências, e actualmente também com a Fenomenologia, a Filosofia da Linguagem, a Filosofia Analítica, a Filosofia da Mente, a Filosofia da Psicologia. Elaborar um curso de Epistemologia exige, por isso, optar por um ponto de partida e traçar um itinerário preciso, o que significa necessariamente estabelecer contornos bem nítidos e renunciar a outras vias possíveis, que se apresentam no vasto horizonte epistemológico e filosófico. Estas outras vias possíveis não podem deixar de surgir, no entanto, na paisagem do itinerário traçado e entrecruzam-se constantemente com o fio condutor pelo qual se optou. Inevitavelmente, ao formular e tratar um problema encontram-se outr…

O que é o conhecimento?

O conhecimento é um estado muitíssimo valorizado no qual uma pessoa está em contacto cognitivo com a realidade. Trata-se, portanto, de uma relação. De um lado da relação encontra-se um sujeito consciente, e do outro lado encontra-se uma porção da realidade com a qual o conhecedor está direta ou indirectamente relacionado. Enquanto a relação direta é uma questão de grau, é conveniente pensar no conhecimento de coisas como uma forma direta de conhecimento relativamente ao qual o conhecimento acerca de coisas é indireto. Ao primeiro chama-se habitualmente conhecimento por contato uma vez que o sujeito está em contato, através da experiência, com a porção de realidade conhecida, ao passo que ao segundo tipo de conhecimento se chama conhecimento proposicional uma vez que aquilo que o sujeito conhece é uma proposição verdadeira acerca do mundo. Conhecer o Rodrigo é um exemplo de conhecimento por contacto, ao passo que saber que o Rodrigo é um filósofo é um exemplo de conhecimento proposici…

Quem sou?

Exame de Filosofia 2016

Já está na página do IAVE a Informação para o exame de Filosofia de 2016 (clicar AQUI). É aparentemente idêntico ao do ano passado no que diz respeito à lista de conteúdos a avaliar.

Discurso de José Estêvão (8/1/1852)

O discurso foi proferido para defender a lei das incompatibilidades que tinha sido aprovada em 1851, e que tinha tido a sua entrada em vigor na Legislatura vigente, a 8.ª desde 1834, devido a terem-se realizado, em 16 de Novembro de 1851, as primeiras eleições após a aprovação da lei.  O problema da incompatibilidade apareceu a propósito do deputado Francisco José da Costa Lobo, que era caixa claviculário do contrato do tabaco do Porto, caixa-geral do tabaco e director da Companhia das Vinhas do Alto Douro, e que a lei impedia de ser deputado, quando determinava expressamente que os caixas-gerais do contrato do tabaco, os gestores de rendimentos do Estado assim como arrematadores de concursos de obras públicas estavam impedidos de serem deputados.  Mas para José Estêvão o problema não era só legal, era também um problema de princípio; é que com a lei das incompatibilidades não é «o direito eleitoral que se restringe, é a independência do Parlamento que se quer sustentar.» O mandato do …

O paradoxo da Liberdade

É porque eu sou a minha voz, é porque ela existe minha no instante em que a estou erguendo, que me escapa a sua intelecção. E todo o equívoco do problema da liberdade está aí. Porque a liberdade experimenta-se e nada a pode demonstrar. Demonstrá-la exigiria que estivéssemos fora de nós, porque na própria demonstração estamos sendo o homem livre cuja liberdade desejávamos provar. Assim essa tentativa, como disse, é tão absurda como pretender a intelecção de uma língua fora de uma qualquer língua. Porque enquanto entendo uma língua, estou sendo aquela língua dentro da qual estou entendendo a outra. Quanto estou tentando entender a minha liberdade estou sendo quem sou na intelecção disso que sou. Eis-nos pois remetidos para o limiar de nós próprios, para o absoluto da escolha antes da escolha, para a identidade incompreensível entre o ser que é o nosso e a escolha desse ser.  Que tem que fazer aqui a razão? Somos livres, como sabemos na consciente vivência do acto de ser consciente. Somo…

A ilha desconhecida

O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. Disse o homem, Deixemos as filosofias para o filósofo do rei, que para isso é que lhe pagam, agora vamos nós comer, mas a mulher não esteve de acordo, Primeiro, tens de ver o teu barco, só o conheces por fora, Que tal o encontraste, Há algumas bainhas das velas que estão a precisar de reforço, Desceste ao porão, encontraste água aberta, No fundo vê-se alguma, de mistura com o lastro, mas isso…

A história é sempre surpresa

A história do passado pode obedecer a critérios científicos, pode fornecer uma interpretação analítica consistente do que se passou e explicar por que razão se passou, mas não permite fazer uma “história” do futuro, não sustenta qualquer futurologia, nem qualquer das muitas variantes neomalthusianas que por aí circulam e que se destinam a justificar políticas do presente com pseudotendências a verificar no futuro. Nem a história, nem a sociologia, nem a economia permitem previsões de futurologia e o rastro de visões falhadas do futuro está um pouco por todo o lado. Mesmo as melhores utopias, quase sempre distopias, são tanto mais interessantes quanto são feitas a partir do presente e são, na sua melhor expressão, uma metáfora sobre o presente, como é o caso do 1984 de George Orwell. Vem isto a propósito de uma variante do “não há alternativa” que aí circula assente num discurso neomalthusiano sobre o futuro, baseado em má economia e numa política que nada tem que ver com a democracia.…

Sorriso

Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir é rir sem fazer ruído e executando contracção muscular da boca e dos olhos. O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no acto de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida. Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem. Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exatamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem. Não há dois sorrisos iguais. Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso. O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de long…

Liberdade aparente

Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro sempre me persegui. Eu tornei-mee intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim. Eu queria uma liberdade olímpica. Mas essa liberdade só é concedida aos seres imateriais. Enquanto eu tiver corpo ele me submeterá às suas exigências. Vejo a liberdade como uma forma de beleza e essa beleza falta-me. 
Clarice Lispector, in 'Um Sopro de Vida'

Não entender... benção estranha

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
Clarice Lispector in “A Descoberta do Mundo”

Jornalismo, ética e guerra

Qual deve ser a função do jornalista num quadro de mútua manipulação mediática? Como devem posicionar-se os que fabricam a informação num universo de desinformação? Como deve ser o relacionamento com as fontes em tempo de guerra? Um documentário que a RTP2 exibe hoje à noite no programa Sinais do Tempo fornece alguns dados para essa reflexão. "Kosovo, jornalistas na guerra" é um documentário produzido este ano pelo canal Arte e a Riff International Production, que aborda um tema escaldante do ponto de vista mediático, e que assumiu particular actualidade no rescaldo da chamada "guerra do Kosovo": a função do repórter de guerra, a sua relação com as "fontes", as questões de ética profissional em tempo de conflito. O esquema adoptado é eficaz: têm a palavra jornalistas europeus, incluindo uma jornalista grega, um fotógrafo grego e uma jornalista turca, que permaneceram no Kosovo no início ou durante os 79 dias de ataques da NATO contra a Jugoslávia, na Pri…

Prós e Contras: "Deus tem Futuro?"

Entre os muros da Escola

Como estrelas na Terra

Debates de "Meia tigela"

Razões para pensar

SITUAÇÃO COMPLEXA,
PERGUNTAS SIMPLES  Eu penso, realmente, que as perguntas que nós hoje precisamos são perguntas simples e esta é uma delas. Congratulo-me, portanto, com o fato de poder tentar dar-lhe a resposta. Naturalmente que não tenho a felicidade de ter a lucidez de Rousseau e poder responder com um redondo sim, ou não, ou com uma razão qualquer, que seja evidente e inequívoca para todos. Tenho que ir por aproximações sucessivas, ou seja, por respostas diferentes à mesma questão. A primeira coisa que me intriga nessa pergunta é que ela parece estranha. Por que pensar? Afinal os cientistas sociais dos últimos dez anos têm vindo a dizer que nós estamos num período de auto-reflexividade, em que indivíduos autônomos refletem sobre os processos de transformação em que participam e usam essa reflexão para intervir nesses processos. O indivíduo auto-reflexivo é um indivíduo que não se mobiliza sem razões, a sua própria vida é um objeto de meditação, de reflexão, de auto-análise, de r…

Discursos para analisar (estrutura e falácias)

A ética não é uma questão de “marketing”

Neste mundo global, acentuam-se os sinais exteriores de uma crescente erosão de valores e de princípios. Por vezes, a tão apregoada ética não passa de uma espécie de uma porosa “pedra-pomes”. Isso nota-se na deficiente conjugação entre direitos e deveres, no enfraquecimento do sentido de responsabilidade, na rarefacção da decência, autenticidade e exactidão, na desvalorização do valor da verdade, na volatilização da respeitabilidade pelo esforço, mérito e experiência, substituída pelo prémio da esperteza, amiguismo, oportunismo e até da vacuidade travestida de tecnocracia. Esta diluição ética tende a igualizar, moralmente, fins e meios, a amolecer as consciências, a fazer germinar e propagar a indiferença, a promover a estatística à categoria de mãe de todas as análises frias e mecânicas. A ética não é uma questão de “marketing” ou de moda, nem se aligeira por uma qualquer preposição adversativa. Se, na política (e não só) às vezes basta parecer, na ética é imperativo ser. Mas nunca s…

Ética ambiental: uma ruptura com o antropocentrismo

Aldo Leopold e a Ética da Terra: para uma nova relação entre o homem e a natureza. À ideia de domínio e controle humanos sobre os recursos naturais, que alimentou o paradigma tecnocientífico da Modernidade Clássica, corresponde uma visão antropocêntrica da relação que o homem estabeleceu com a natureza. A natureza é um simples instrumento subordinado aos fins humanos. Vimos já que Beck considera que este factor contribuiu para a desmistificação da incontestabilidade da racionalidade tecnológica na Modernidade Clássica e é uma das características que marcam a passagem à Modernidade Reflexiva. A ética ambiental, uma área da filosofia relativamente recente, pretende colocar um fim a esta ideia que a Modernidade nos legou e pensar a possibilidade de uma nova ética que atribua valor moral ao meio natural e à relação que mantemos com ele. Curiosamente este apelo não proveio do meio filosófico, mas sim de um engenheiro florestal americano, de seu nome Aldo Leopold. O seu breve ensaio, “The …

Ecologia Profunda

Ecologia Profunda: 8 princípios para mudar o Mundo O bem-estar e a prosperidade da vida humana e não humana na Terra têm um valor próprio (valor intrínseco ou inerente). O valor das formas de vida não humanas é independente da utilidade que o mundo não humano possa ter para fins humanos;A riqueza e a diversidade de formas de vida contribuem para a concretização destes valores e são valores em si mesmos;Os seres humanos não têm o direito de reduzir esta riqueza e diversidade, a não ser para a satisfação das suas necessidades vitais;A prosperidade da vida humana e das suas culturas é compatível com um decréscimo substancial da população humana. A prosperidade da vida não humana requer esse decréscimo;A atual interferência humana com o mundo não humano é excessiva e está a piorar aceleradamente;Em vista dos princípios anteriores, as políticas têm que ser alteradas. As mudanças políticas afetam as estruturas básicas da economia, da tecnologia e da ideologia. A situação que resultará desta…

Espinosa - O Apóstolo da Razão

Jean-Paul Sartre: O Caminho Para a Liberdade

Martin Heidegger: Projeto Para Viver

Nietzsche: Além do Bem e do Mal

Workshop de Serigrafia

Nada nos faz acreditar mais do que o medo!

Nada nos faz acreditar mais do que o medo, a certeza de estarmos ameaçados. Quando nos sentimos vítimas, todas as nossas acções e crenças são legitimadas, por mais questionáveis que sejam. Os nossos opositores, ou simplesmente os nossos vizinhos, deixam de estar ao nosso nível e transformam-se em inimigos. Deixamos de ser agressores para nos convertermos em defensores. A inveja, a cobiça ou o ressentimento que nos movem ficam santificados, porque pensamos que agimos em defesa própria. O mal, a ameaça, está sempre no outro. O primeiro passo para acreditar apaixonadamente é o medo. O medo de perdermos a nossa identidade, a nossa vida, a nossa condição ou as nossas crenças. O medo é a pólvora e o ódio o rastilho. O dogma, em última instância, é apenas um fósforo aceso.  Carlos Ruiz Zafón, in 'O Jogo do Anjo'

O Homem não deseja a Paz

Que estranho bicho o homem. O que ele mais deseja no convívio inter-humano não é afinal a paz, a concórdia, o sossego colectivo. O que ele deseja realmente é a guerra, o risco ao menos disso, e no fundo o desastre, o infortúnio. Ele não foi feito para a conquista de seja o que for, mas só para o conquistar seja o que for. Poucos homens afirmaram que a guerra é um bem (Hegel, por exemplo), mas é isso que no fundo desejam. A guerra é o perigo, o desafio ao destino, a possibilidade de triunfo, mas sobretudo a inquietação em acção. Da paz se diz que é «podre», porque é o estarmos recaídos sobre nós, a inactividade, a derrota que sobrevém não apenas ao que ficou derrotado, mas ainda ou sobretudo ao que venceu. O que ficou derrotado é o mais feliz pela necessidade iniludível de tentar de novo a sorte. Mas o que venceu não tem paz senão por algum tempo no seu coração alvoroçado. A guerra é o estado natural do bicho humano, ele não pode suportar a felicidade a que aspirou. Como o grupo de fu…

Liberdade e desigualdade

Admitir as desigualdades não significa admitir só a pobreza, a carência extrema e o sofrimento gratuito lado a lado com a opulência e o desperdício. Significa admitir uma modulação da liberdade, de acordo com a riqueza de cada um. Significa admitir um "mercado" onde a liberdade é uma mercadoria e não um valor universal. Arvorar em valor a liberdade mas defendê-la sobre o pano de fundo de uma inevitável desigualdade é, na realidade, o oposto da liberdade. É a liberdade dos fortes e a submissão dos fracos. Como dizia no século XIX o dominicano Henri Lacordaire, "entre o forte e o fraco, entre o rico e o pobre, entre o senhor e o servo, é a liberdade que oprime e a lei que liberta". in rtp.pt

Crise de valores? Que crise?

A sociedade está sempre em declínio. A moral está sempre em decadência. As novas gerações nunca sabem apreciar o que veio antes, querem sempre mudar o que está bem e não sabem ver o que está mal. A mudança é sempre para pior, as tradições nunca são o que já foram e o futuro nunca é risonho por causa da terrível crise valores que vivemos mas que não vivíamos antes. Ao mesmo tempo, a sociedade está sempre em ascendente. A moral está sempre a mudar para melhor. As novas gerações revolucionam o mundo com cada nova descoberta e moda, encontram soluções para problemas antigos e fazem críticas penetrantes ao «status quo». A mudança é para melhor, ainda bem que as tradições já não são o que eram e o futuro é risonho por causa de todas as mudanças. Pessoalmente, vejo uma sociedade aberta como estando em crise de valores permanente. É uma consequência dela ser aberta, de haver liberdade de pensamento, de expressão e de associação. Essa crise de valores permanente é o resultado de haver um conf…