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Teatro Clássico em Aveiro – Rei Édipo

1, 2 e 3 de julho – 21.30h. – Museu de Aveiro

Vai a Oficina de Teatro “ Capitão Grancho” apresentar, nos dias 1, 2 e 3 de Julho, no Museu de Aveiro, a peça Rei Édipo de Sófocles. A Comissão Diocesana de Cultura felicita a direcção artística, a encenadora, os actores, os técnicos (de som e luz), pelo magnífico serviço que prestam aos aveirenses, já que escasseiam as ocasiões em que é possível assistir em Aveiro à representação de peças de teatro clássico. Que um grupo de teatro amador ouse levar à cena um dos textos mais emblemáticos do drama europeu não só merece nota como reclama a presença de numeroso público. A actualidade do teatro antigo dispensa demonstração, tão frequentes têm sido ao longo do último século as suas reelaborações na literatura, na música, na dança ou no cinema, tantas têm sido as encenações modernas de tragédias clássicas, em espectáculos singulares ou em festivais.
Num livro que fez época, Jean Marie Domenach proclamou o retorno do trágico, partindo de um pressuposto que será no mínimo discutível, da ideia de incompatibilidade entre o homem trágico e a mundividência cristã. Que o trágico corresponde mais a épocas de incerteza, de transição, de crise moral parece uma obviedade, mas à noção de trágico não são estranhas as perguntas e as dúvidas que a fé coloca, nem a procura de sentido que marca a esperança cristã. De uma maneira geral a tragédia grega trata assuntos elevados colhidos no mito, nas histórias do ciclo troiano ou do ciclo tebano. Ao contrário da comédia prefere temas universais e atemporais: a eusebeia ou a hybris, quer dizer, a piedade ou a insolência nas relações do homem com a divindade; a dike, isto é, a justiça sempre em causa na relação do homem com os seus semelhantes. A situação trágica acontece, pois, quando o homem, criatura frágil e efémera, se confronta com forças transcendentes, com os deuses, o acaso ou o destino. Para os antigos gregos o valor de um homem mede-se pelo que diz e pelo que faz. Não há outra forma de heroísmo senão a que se manifesta na palavra e na acção. O herói trágico, portanto, por via de regra é um sujeito em conflito consigo mesmo, dividido entre o querer e o fazer. A palavra liga a vontade à acção, diminui a distância, dá sentido ao agir, mas raramente alcança a harmonia, a coerência entre o que se quer, o que se faz e o que se diz. É um facto, que pertence à experiência comum, o que diz São Paulo: «não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio é que faço» (Rm 7, 15).
A necessidade compele o herói trágico à acção, leva-o a agir, a escolher, a sofrer. É livre quando escolhe, mas do exercício da liberdade nasce o sofrimento. O trágico resulta da junção da fragilidade humana, expressa nas catástrofes provocadas por forças transcendentes, cujos desígnios não são inteligíveis para o homem, com a grandeza do indivíduo destruído, agónica expressão da liberdade humana. Do confronto entre a liberdade humana e o poder do destino nasce uma relação de causa efeito entre acção e sofrimento. Quando a vontade individual entra em conflito com a ordem do universo acontece o trágico, na passagem da felicidade à desgraça que resulta de um erro grave do herói, hamartia, erro provocado pela falta de lucidez. Assim, não raro desempenha a culpa, culpa pessoal ou hereditária, papel de primeiro plano na tragédia. Muito se tem discutido a culpa de Édipo, mas não parece que seja na peça de Sófocles esse o motivo principal. O que move a acção em Rei Édipo é a procura de sentido, a busca da luz, a pedagogia do sofrimento. Tragédia de destino, Rei Édipo representa a condição humana. Às escuras o herói conduz a investigação de um crime; quando descobre a verdade, quando se (re) conhece fica cego, é destruído pela luz. O pathos, sofrimento físico e sofrimento moral, revela-se, portanto, essencial à emoção trágica. Será esta afirmação simultânea da grandeza e da miséria da condição humana que faz Rei Édipo actual, que torna actuante a tragédia grega.
P’la Comissão Diocesana da Cultura
Prof. Belmiro Fernandes Pereira