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Mensagens

Do modelo para o melhoramento da Democracia (É preciso polemizar)

Muito se tem escrito sobre os defeitos das democracias contemporâneas, e como estas aparentemente não conseguem cativar muito do eleitorado que se manifesta descontente com o regime político. Claramente, tendo em consideração os registos histórico-políticos, pode-se afirmar que o descontentamento da população perante a classe dirigente está sempre relacionado com questões de natureza económica que geram pobreza e desemprego, podendo ser acentuadas com aspetos adicionais de natureza relevante mas todavia com menor impacto, como migrações de povos culturalmente diferentes. Havendo bem-estar, pleno emprego e alto nível de vida, por norma os povos demonstram pouco descontentamento perante a classe política dirigente, independentemente dos regimes políticos em vigor. Os regimes democráticos tendem naturalmente a atenuar tais descontentamentos populares pois o sufrágio permite ao eleitorado fazer escolhas, mas muitas das escolhas que parte do eleitorado de facto prefere ver instaladas em mo…
Mensagens recentes

Cultura do consumo

“A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.” “Esta ditadura da uniformização obrigatória impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.” Eduardo Galeano A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar. O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consu…

Filhos de ninguém

As pulgas sonham com comprar um cão,
e os ninguéns com deixar a pobreza,
que em algum dia mágico a sorte chova de repente,
que chova a boa sorte a cântaros;
mas a boa sorte não chove ontem,
nem hoje, nem amanhã,
nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte,
por mais que os ninguéns a chamem
e mesmo que a mão esquerda coce,
ou se levantem com o pé direito,
ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns:
os filhos de ninguém,
os donos de nada.
Os ninguéns:
os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal,
aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

Eduardo Galeano, …

Direito a sonhar

Torna-te o que és

“Neste ponto já não há como eludir a resposta à questão de como alguém se torna o que é. E com isso toco na obra máxima da arte da preservação de si mesmo – do amor de si… Pois admitido que a tarefa, a destinação, o destino da tarefa ultrapasse em muito a medida ordinária, nenhum perigo haveria maior do que perceber-se com essa tarefa. Que alguém se torna o que é pressupõe que não suspeite sequer remotamente o que é”  Nietzsche, Ecce Homo,

A ausência do Corpo na Comunicação Online - Resumo

"Num mundo onde pudéssemos satisfazer os nossos desejos, jogar, namorar, assistir a concertos e visitar exposições, entre muitas outras opções, que vida escolheríamos ter? E se pudéssemos ser mais altos, mais morenos, mais musculados, mais magros, de cabelo ruivo encaracolado e de olhos verdes, quem é que escolheríamos ser? Mas por trás dos avatares, quase tão perfeitos como o mundo em que habitam, estão os seus eus, que conseguem saber os desejos que pretendem satisfazer e que possuem gostos, interesses, que se inserem em grupos e até podem pertencer a uma família, tal como na vida real. Aqui, no mundo virtual do Second Life, mundo simultaneamente dos arquétipos platónicos e das ilusões consentidas do Matrix, os avatares alienam-se dos seus eus, vivem intensamente experiências que não dispõem na vida real, como acontece nos jogos em que têm de assumir o papel de determinada personagem e o vivem como se fosse o seu. Há também quem considere este mundo como um complemento da vida…

A apologia da ciência e a inutilidade das artes e das humanidades - por João Paiva

1. Tenho mais de 30 anos dedicados à ciência, principalmente ao seu ensino e divulgação. Não me canso de sublinhar o fascínio pela forma científica de questionar, conjeturar, observar, experimentar, teorizar e até prever o que se passa no mundo natural. São, resumidamente, duas as pérolas desta empresa científica: a) o sabor, o gozo, o prazer e o deleite de tatear a natureza; b) a potencialidade benfazeja que os conhecimentos científicos encerram, uma vez que, quando aplicados por meio do que chamamos tecnologia, podem beneficiar a humanidade. O aumento médio da esperança e da qualidade de vida, à escala global, é um bom exemplo que sentimos (infelizmente não todos...). 2. O poder que a ciência adquiriu é impressionante. E adivinha-se que assim continue a ser. As nações mais poderosas confundem-se com os países de maior arsenal científico e tecnológico. Este poder tem de ser questionado, para que não seja mal usado. A ciência atual, tenha ou não aplicações imediatas, está condenada a…

Variações com janela para a Filosofia - Levi António Malho

No limiar do inútil, olhada de lado, a Filosofia é uma arte difícil num tempo marcado pela pressa, pela economia da comunicação, vamos ao que interessa, deixemo-nos de conversas moles que não adiantam nem atrasam! Só por engano a Filosofia é paixão, actividade que emagrece, tira o sono, não deixa fazer mais nada. Pelo contrário, é uma longa paciência, regressar aos locais de sempre, procurando aquilo que se não vê quando corremos o mundo com horas marcadas, fotografar à pressa, depois por entre balbúrdias mil, mostrar as “imagens” da viagem a parentes e colaterais. Na correria dos “programas”, professores e alunos visitam 2500 anos de História, entrando e saindo dos velhos gregos, desarvorando em direcção à época Moderna, acumulando teorias, argumentos, demonstrações, Gnosiologias, Lógicas, Metafísicas, Ontologias, Éticas, tudo terminando em “pontos”, classificações, apelos lancinantes à criatividade e “espírito crítico”. O filosofar é, sobretudo, um elogio da lentidão, arte da espera…

Escolhas

«De facto, acredito que, se não compreendermos as escolhas racionais que estão na base de muitos dos nossos comportamentos, não conseguiremos compreender o mundo em que vivemos.»   Tim Harford

Razão e emoção

Segundo o senso comum, a razão é o contrário da emoção. Expressões como “tem juízo”, “pensa com a razão e menos com o coração” são-nos ditas constantemente ao longo da nossa vida, por quem nos ama, quem nos ensina e quem nos aconselha, mas também por quem menos gosta de nós. Por amor ou por ódio, muitos são os que insistem em chamar-nos à razão. A ciência económica tradicional compactua com esta dualidade, considerando que o processo de decisão é composto por dois mecanismos díspares e em constante conflito: o mecanismo racional e intelectual que nos faz tomar decisões certas e o mecanismo emocional e impulsivo, muitas vezes culpado das escolhas erradas e ineficientes. Deixa no entanto para a psicologia o estudo das emoções e foca-se nas escolhas que fazemos se fôssemos seres isentos de qualquer emoção. Isto é, se fôssemos o tal homo economicus que é exclusivamente racional, que sabe o que é importante para si, que faz escolhas calculando perfeitamente os riscos, os custos, os benefí…

O emprego

Repensar o trabalho é uma reflexão que se impõe para enfrentar os desafios presentes e os do futuro. Foi através do trabalho que o ser humano, ao longo dos tempos, se organizou e se socializou, definindo o trabalho/emprego como um direito inalienável e indispensável. As mudanças que se estão desde já a sentir e que têm sido atribuídas à conjugação do aprofundamento da globalização com o avanço tecnológico, bem como as que se perspectivam para o futuro, estão a provocar alterações na produção e, consequentemente, no trabalho. Tais alterações questionam os modelos tradicionais e colocam questões a que é preciso responder, designadamente no que respeita à coesão social. É com estas palavras que começa o texto de reflexão que Eduarda Ribeiro e João Lourenço escreveram no âmbito da iniciativa Economia e Sociedade – Pensar o futuro. Por múltiplas e complexas razões o trabalho e o emprego constituem uma questão-chave a equacionar no desenho de um modelo de desenvolvimento futuro: a origem p…

Esforço inútil

Dita da forma certa, a maior banalidade torna-se axioma. Nos tempos que correm, a lógica perde para a retórica a força do argumento. Nenhuma capacidade de persuasão supera a sedução de um auditório embasbacado com lugares-comuns. Ninguém chega à verdade pelo raciocínio, mas podemos conjugar essa arte com a ligeireza do dizer. Ligeiro, sedutor, banal, o discurso logra certa aceitabilidade e a adesão do público. A entrevista, o debate, os cronómetros dos media balizam a extensão do pensamento. Dantes, discutia-se até altas horas um mesmo tema, aprofundava-se o tema, andava-se às voltas do tema sem que o tempo fosse preocupação. Os livros eram extensos e pesados. Hoje chamam-se ensaios, são como ir ao cinema e comer pipocas. A razão de tudo isto ser assim está na presunção do saber. Poucas pessoas estão dispostas a aceitar a sua ignorância, mas ninguém se dá por vencido quando toca a afirmar uma ideia de inteligência e conhecimento. Problema de auto-estima (vaidade?). Daí a necessidade …