18 de março de 2017

Estado social versus o estado mínimo

Argumentos a favor do estado social

«Rawls imagina indivíduos racionais, mutuamente desinteressados, encontrando-se (…) numa situação hipotética de escolha, a que Rawls chama “posição original”, os indivíduos escolhem os primeiros princípios de uma concepção de justiça que deve regular toda a crítica e reforma subsequentes das suas instituições. Ao fazer esta escolha, ninguém conhece o seu lugar na sociedade, a sua posição de classe ou estatuto social, os seus dotes naturais ou aptidões, a sua força, inteligência, etc.
“Os princípios da justiça são escolhidos por trás de um véu de ignorância. Isto garante que ninguém é beneficiado ou prejudicado na escolha dos princípios pelo resultado do acaso natural ou da contingência das circunstâncias sociais (…).”
O que concordariam em fazer as pessoas na posição original?
“As pessoas na situação inicial escolheriam dois […] princípios: o primeiro exige a igualdade na atribuição dos direitos e deveres básicos, enquanto o segundo sustenta que as desigualdades sociais e económicas, por exemplo, as desigualdades de riqueza e autoridade, só são justas se resultam em benefícios compensatórios para todos e em particular para os membros menos favorecidos da sociedade. Estes princípios excluem a justificação das instituições com o argumento de que as dificuldades de uns são compensadas por um maior bem no conjunto. Pode ser apropriado mas não se trata simplesmente de que uns devam ter menos para que outros possam prosperar. Mas não há injustiça nos maiores benefícios conseguidos por alguns desde que a situação das pessoas que não têm tanta sorte seja por esse meio melhorada. A ideia intuitiva é que como o bem estar de todos depende de um esquema de cooperação sem o qual ninguém poderia ter uma vida satisfatória, a repartição de vantagens devia ser tal que impulsionasse a cooperação voluntária de todos os que nela participam, incluindo os que estão menos bem situados. No entanto, isto só se pode esperar propondo-se termos razoáveis. Os dois princípios mencionados parecem um acordo justo com base no qual os mais bem dotados, ou mais afortunados na sua posição social, não se podendo afirmar que merecemos uma ou outra, podem esperar cooperação voluntária dos outros quando um esquema funcional é uma condição necessária do bem-estar de todos.”

Argumentos contra o estado social, a defesa do estado mínimo

«Os indivíduos têm direitos e há coisas que nenhuma pessoa ou grupo lhes pode fazer (sem violar os seus direitos). Estes direitos são de tal maneira fortes e de grande alcance que levantam a questão do que o estado e os seus mandatários podem fazer, se é que podem fazer alguma coisa. Que espaço deixam os direitos individuais ao estado?
As principais conclusões que retiramos acerca do estado são as de que um estado mínimo, limitado às funções estritas de protecção contra a violência, roubo, fraude, execução de contratos, e por aí em diante, justifica-se; que qualquer estado mais abrangente violará o direito que as pessoas têm de não serem forçadas a fazer certas coisas e não se justifica; e que o estado mínimo, além de correcto, é inspirador. Duas implicações dignas de nota são a de que o estado não pode usar os seus instrumentos coercivos com o objectivo de obrigar alguns cidadãos a ajudar outros, ou de proibir determinadas actividades às pessoas para o próprio bem ou protecção delas.
(…) muitas pessoas rejeitaram de imediato as nossas conclusões, sabendo que não querem acreditar em algo aparentemente tão insensível perante as necessidades e o sofrimento.
(…) o estado mínimo trata-nos como indivíduos invioláveis, que não podem ser usados de certas maneiras por outros como meios ou utensílios ou instrumentos ou recursos; trata-nos como pessoas que têm direitos individuais, com a dignidade que isto constitui. Tratando-nos com respeito respeitando os nossos direitos, permite-nos individualmente ou com quem escolhermos, escolher a nossa vida e realizar os nossos fins.
Robert Nozick, Anarquia, Estado e Utopia in duvida-metodica.blogspot.pt

15 de março de 2017

O paradigma em T. Kuhn

Um paradigma é um modelo que dá nascimento a tradições particulares e coerentes de pesquisa científica, quer esboçando as teorias aceitáveis quer os dispositivos experimentais que suscitam, isto é, é um modelo interpretativo e seleccionador dos factos presente na mente dos cientistas e que inclina a dirigir a investigação segundo as teorias dele derivadas. É uma estrutura de conhecimento aceite epocalmente pela maioria dos cientistas, a partir do qual analisam e interpretam os factos e desenvolvem teorias e regras que, descobrindo novos factos ou novas relações entre factos, comprovam a justeza dos princípios por que o paradigma se afirma. Deste modo, um paradigma científico assenta socialmente num grupo relativamente coeso de investigadores que o aceitam como melhor interpretação dos factos e despoleta neles um modo epistemológico comum de conceber a natureza. É com base nesta perspectiva epistemológica comum que os cientistas elaboram teorias e procedimentos técnicos particulares racionalmente explicadores das suas observações. Não há, portanto, factos brutos, mas factos construídos: por detrás do sujeito científico e dos factos existe sempre um paradigma mental no qual o sujeito foi educado escolarmente e pelo qual observa e interpreta a natureza. Diferentemente de August Comte, Th. Kuhn considera que a observação reiterada dos factos, bem como a sua experimentação laboratorial ou a sua matematização por via de relações universais (leis quantitativas) não são suficientes para que se construa uma teoria científica, isto é, o observador científico não é neutro, não analisa os factos segundo uma transparência mental totalmente despreconceituada ou sem prévios esquemas de conhecimento que o orientam na análise dos factos. O cientista observa os factos partindo de teorias ou pressupostos teóricos. Caso fosse neutro, o conhecimento científico tornar-se-ia uma acumulação contínua e crescente de novas descobertas, sempre cada vez mais profundas ou cada vez mais extensas, não negando as teorias anteriores, apenas as ultrapassando em profundidade ou em relação extensiva com outros factos. Portanto, Kuhn defende que as novas descobertas sobre os factos científicos forçam a uma revolução das teorias interpretativas anteriores sobre esses mesmos factos, levantando deste modo uma ruptura racional entre a teoria anterior e a nova.
in prof2000.pt

13 de março de 2017

As soluções de Bachelard

A investigação científica passa pela 'ultrapassagem de limites'. Isto significa que não há investigação sem interferência de obstáculos - obstáculos epistemológicos. Estes não são propriamente as dificuldades próprias da complexidade do objecto que se está a investigar; também não são propriamente os limites conceptuais e técnicos dos investigadores; eles são fundamentalmente elementos internos, isto é inerentes ao cientista, que atrasam, dificultam, travam, impedem, desvirtuam a investigação científica. O racionalismo bachelardiano mostra que o próprio acto de conhecer está eivado de impurezas, de imensos segredos que escapam ao controlo do cientista, provocando riscos, cujos se devem fundamentalmente a que, no acto de conhecer, o cientista coloca mais de si próprio do que vulgarmente ele pensa. Daí a necessidade de uma psicanálise do inconsciente do cientista, isto é, a necessidade de mostrar a existência de uma filosofia nocturna (filosofia espontânea dos cientistas, em linguagem de Louis Althousser), encontrar a acção dos valores inconscientes, das íntimas representações filosóficas, que de um modo mais ou menos disfarçado e inconsciente incorrem na própria base do conhecimento científico. Um obstáculo epistemológico designa os efeitos, na prática do cientista, da relação imaginária que o cientista mantém com ela mesma.
Segundo Bachelard, há descontinuidade epistemológica ou ruptura com o conhecimento vulgar - senso comum , com a filosofia que anteriormente tratava desses problemas, com as categorias, evidências, explicações anteriormente concebidas e que se demonstram serem de ordem puramente ideológica. Bachelard insurge-se contra as pretensas continuidades do conhecimento vulgar e do conhecimento científico, defendendo que este se desenvolve sempre contra aquele, contra os dados do senso comum e do conhecimento sensível e que a passagem de um ao outro exige, para poder ser pensada, os conceitos de obstáculo e ruptura epistemológicas. A opinião constitui um entrave ao desenvolvimento da ciência. Recorde-se o exemplo de Galileu e o conjunto das objecções de senso comum que lhe foram despejadas para negar a possibilidade científica do heliocentrismo: a terra não se move, porque eu a vejo parada; o sol não está parado, porque eu vejo-o mover-se; se a terra estivesse em movimento nós seríamos lançados no espaço, as aves nunca encontrariam os seus ninhos, nenhum objecto cairia verticalmente junto de nós, as nuvens ficariam para trás, etc. o que náo acontece. Etc. O espírito conhece sempre contra o seu passado, contra os seus preconceitos, contra o seu conservadorismo incorrigível (no plano do conhecimento e da educação). O senso comum conhece passivamente, sem crítica, não constrói o real, pois as coisas são-lhe dadas. A experiência inicial é alheia à crítica, pois inspira-se pelo sensualismo e pelo entusiasmo natural. A observação, que precede a experiência científica, não pode ser a simples recolha passiva de dados: ela implica um conjunto de precauções que levam a reflectir antes de olhar, que modificam a primeira visão: a observação é toda ela polémica, transcendendo o dado imediato, implicando reflexão, demonstração, reconstrução. O facto científico constrói-se: nenhum facto se deixa apreender tal como nos aparece espontaneamente.
Exemplos: quando se dizia que a terra era uma espécie de pedra redonda, era porque a vemos chata e o horizonte se apresenta circular. Do mesmo modo se inferia um pretenso movimento circular do sol a partir da observação ingénua que se pode diariamente fazer da sua marcha.
Ruptura epistemológica (corte epistemológico) é o efeito de ruptura pelo qual se inicia um novo campo científico ultrapassando o campo ideológico anterior. É o início do processo de aparecimento de uma nova disciplina científica. Sendo assim, cada uma das disciplinas científicas surgiu historicamente contra o senso comum ou contra a filosofia que a subsume, como são os casos da filosofia aristotélica, no que diz respeito à física, e da alquimia, no que diz respeito à química, por exemplo.
in prof2000.pt

8 de março de 2017

K. Popper e a investigação

" (...) Popper, em substituição dos tradicionais princípios epistemológicos básicos da indução e da verificabilidade, propôs a testabilidade e a falsificabilidade. Defendeu que embora as teorias universais não sejam dedutíveis a partir de afirmações singulares poderão ser refutadas por afirmações singulares já que podem colidir com descrições de factos observáveis. Ou seja: a partir de a) afirmações universais (leis ou hipóteses) e b) afirmações individuais que descrevem condições iniciais, deduzimos c) uma afirmação ou previsão individual específica. As condições iniciais são as denominadas causas de um acontecimento, e a previsão o denominado efeito. Dependendo do nosso problema, o modelo hipotético - dedutivo (H-D) poderá ser utilizado tanto para explicar, como para prever ou para efectuar testes.
Popper concebe que uma teoria se testa em termos de quatro parâmetros principais: 1) em 1º lugar, há a comparação lógica das conclusões entre si, por meio da qual se testa a consistência interna do sistema. Ou seja devem apenas ser levantados problemas para investigar que sejam únicos, isto é, que ainda não tenham sido concluídos em conhecimento anterior. 2) seguidamente é a investigação da forma lógica da teoria, com o objectivo de determinar se possui o carácter de uma teoria cientifica. É a aplicação correcta do método que garante, à partida, a cientificidade duma investigação. Trata-se, portanto, da aplicação correcta do curso de acção referido atrás, cujo núcleo duro se baseia no princípio popperiano de que a ciência é uma sequência de conjecturas, pelo que as teorias científicas são propostas como hipóteses que serão substituídas por novas hipóteses quando falsificadas. Pode-se, talvez, dizer que esta relação testabilidade - falsificabilidade terá sido uma inspiração de Popper no modelo darwiniano da evolução10, aplicado às teorias científicas. 3) em terceiro lugar, temos a comparação com outras teorias, principalmente com o propósito de determinar se a teoria poderá constituir um avanço científico depois de ter sobrevivido aos vários testes. Ou seja, se a teoria não passar os testes significa que não foi corroborada pela experiência, é por isso falsa, se passar os testes deverá, para além disso, ser confrontada pela análise e discussão com as teorias já existentes para aferir da verdadeira dimensão da sua contribuição científica. 4) e, finalmente, temos o teste da teoria por via da aplicação empírica das conclusões que podem ser obtidas a partir dela. Estando feito o confronto científico com outras teorias existentes, realçam-se os contributos e as implicações práticas que das novas conclusões poderão emergir e, também, a abertura que se dá a novos investigadores de procurarem a corroboração ou falsificabilidade posterior, com novos factos, ao novo conhecimento. Assim, testar uma teoria consiste em grande parte numa tarefa teórica na qual a lógica é o principal instrumento de análise, tendo a falsificabilidade como critério de decidibilidade acerca das teorias científicas e como critério de demarcação e o confronto bilateral entre a teoria e experiência como o ponto decisivo do trabalho científico, isto é, o confronto entre a componente empírica da investigação e a revisão teórica efectuada. Mas, apesar de tudo, e por contraste com o indutivismo, a metodologia popperiana é um dedutivismo. Para Popper, neste jogo da ciência, qualquer jogada é possível, desde que o cientista não recorra a hipóteses ad hoc nem tente refutar o núcleo duro, porque para além de servirem para demarcar a ciência da pseudo - ciência, a falsificabilidade e a falsificação integravam o objectivo cientifico da produção de explicações causais completas. Apresentar uma explicação causal de um acontecimento significa deduzir uma aferição que o descreve, utilizando como premissas da dedução uma ou mais leis universais, juntamente com determinadas afirmações individuais, as condições iniciais. Portanto, este método hipotético - dedutivo consiste, igualmente, em oferecer explicações causais dedutivas e em testá-las através de previsões, com base numa relação lógica entre proposições, sendo que o conhecimento resulta das proposições que refutam as hipóteses e teorias iniciais."
Pedro Picaluga Nevado in repository.utl.pt