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Em defesa de Maquiavel


Temos sido obrigados a conviver, nos últimos meses, com uma permanente tensão na vida política do país. Essa é a consequência natural dos variados e controversos acontecimentos de que todos nos vamos apercebendo, com melhor ou pior compreensão, através da comunicação social. Por muito que nos custe, seria bom que, controlando excessivos dramatismos, soubéssemos interpretar esta realidade como um preço a pagar pelas vantagens e incómodos que derivam de vivermos em democracia.

Acontece que tal estado de coisas, obviamente, tem gerado a subida de tom do chamado discurso político. As circunstâncias são propícias para os protagonistas endurecerem a linguagem uns contra os outros, multiplicando-se na busca de dividendos em defesa, se não da verdade objectiva, pelo menos da confusão das aparências. A retórica, essa subtil arte de saber dizer o pensamento para cativar a adesão do outro (e que vale muito mais do que a habilidade oratória) não é, infelizmente, uma competência praticada pelas nossas classes dirigentes, cada vez mais reveladora não só de deficiente preparação intelectual como de obscuros paradigmas éticos. Assim se explicará, encurtando razões, que, em detrimento da boa argumentação, clara e fundamentada, a procura de nomes feios para arremessar à cara ou denegrir a fama do adversário, se tenha salientado, ultimamente, como método legitimado pela divergência de opiniões. E é assim que, subrepticiamente degenerando no uso e abuso das palavras, entre outros exemplos menos elegantes lá se torna a ouvir falar de Maquiavel como o mestre maldito e a usar-se o adjectivo “maquiavélico” como o melhor dos piores insultos autorizados.
A tentação é fácil porque o preconceito já vem de longe e permanece instalado na incultura geral (não foi por acaso que, até 1929, o “Príncipe” esteve incluído no Índex das obras proibidas pelo Vaticano). Reduzir todo o pensamento de Maquiavel (aliás extraordinariamente diversificado e evolutivo, desde a inicial redacção do “Príncipe” às suas “Histórias Florentinas” oferecidas ao Papa Clemente VII) à mísera expressão”não olhar a meios para atingir os fins” será, no mínimo, um pecado de indigência crítica. Mas já o nosso controverso Agostinho da Silva anotara que “sempre que um português escreveu sobre Maquiavel, escreveu contra. E ainda hoje, no sentido do povo, um político maquiavélico é um sujeito que não presta”. Desse mesmo povo, contudo, acrescenta que “quer ao mesmo tempo, a política seja limpa e suja – as tais contradições com que convive à vontade, por até hoje não ter havido feito de conduzir a política, a paixão de poder, com integridade absoluta. Então tem de se dar um jeito”.
Em que ficamos, pois?
Primeiro, não comparecendo Maquiavel para se defender, é fácil citá-lo para, escamoteando a factualidade das relações de poder com a subjectividade moralista (precisamente o inverso das propostas maquiavelianas) transforma em agressão ao carácter do outro a crítica relativa aos seus actos políticos; segundo, não sendo a leitura do “Príncipe” (quanto mais a dos “Discursos sobre a primeira Década de Tito Lívio”, a das “Histórias Florentinas” ou a da “Arte da Guerra”) prática comprovada do nosso povo nem, pelos vistos, dos seus políticos, seria por certo estimulante e proveitoso aprofundar as causas de tal preconceito tão historicamente arreigado.
Por muitas e sérias razões, a contemporaneidade da obra de Maquiavel no seu todo está a ser motivo de novos estudos e comentários. Justamente com Hobbes, Rousseau e Montesquieu   ele está na génese do conceito moderno de política. Na verdade, o riquíssimo contexto histórico em que decorreu a sua existência (Maquiavel morreu em 1527, com 58 anos de idade) foi marcado simultaneamente pelo brilho esplendoroso da Renascença e pelas lutas permanentes entre as cidades do norte italiano, pela releitura da filosofia dos clássicos e pelo poder temporal do Papado. Para ele, não apenas observador mas actor directo no seu tempo, o homem não era apenas o animal político descrito por Aristóteles mas um ser concreto movimentando-se dialecticamente entre a ambição pelo poder que deseja e a sujeição ao poder que o reprime. Daí a sua atitude amoral, que não imoral, para procurar obter respostas tanto quanto possível científicas, para os problemas da cidade e dos cidadãos. Essa a sua originalidade maior.
Retomando os estreitos limites do que é português, e sem ironia fácil: o mais próximo que tivemos do modelo maquiaveliano foi o rei D. João II, exactamente chamado o Príncipe Perfeito. O resto, nunca passou, nem passará, de más cópias ou perversões. Lastimavelmente.
Dr.Victor Cepeda Mangerão
(Advogado)