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Divagações de um médico nas fronteiras entre a filosofia e a ciência

No início era a pretensão de escrever um ensaio sobre a epistemologia da medicina. Sonhava este vosso criado evocar António Damásio e "Ao encontro de Descartes" (quiçá a seu livro de mais fácil leitura) para recordar que o autor nega ser filósofo, de forma peremptória, reportando-se ao papel de homem de ciência. Ora, parece por demais evidente que a obra científica deste nosso compatriota tem implicações filosóficas de grande magnitude. Depois, tencionava dissertar sobre o carácter filosófico da obra de outros grandes cientistas. Diria mesmo que há cientistas cuja actividade intelectual é de tal modo prenhe de consequências filosóficas que têm lugar em ambas comunidades; filosófica e científica. Algo como Viriato, que é herói nacional dos dois lados do Guadiana. Aludiria, por exemplo, a Heisenberg, o físico quântico e ao seu princípio da incerteza
Seguidamente, citaria Comte, que predisse o fim da Filosofia - que se exauriria à medida que dela emergissem as diversas ciências (estranho filósofo este, que de corporativismo não o poderemos acusar!). E lembraria que, mais tarde, os positivistas de Círculo de Viena, fascinados com os avanços da Física no início do século passado, acreditaram que a Filosofia deveria evoluir no esteiro da Ciência. Mas, helàs, afinal à Filosofia pura e dura regressam sempre todos os que na Ciência buscam resposta firme e irredutível para todas as dúvidas. Procuramos no rigor científico o fim de todas as incertezas e … zás: só descobrimos como ela é insuficiente e frágil. É verdade que as consequências filosóficas das grandes descobertas científicas são evidentes. Mas hoje é incontestável que a Filosofia não se limita a beber na Ciência os ingredientes a partir dos quais vicejará e florirá. A Filosofia também ilumina a Ciência. A fronteira entre elas parece, afinal, muito esbatida.
Chegado a esta fase da prosa, o garimpeiro de ideias apercebe-se a tempo que lhe falta estaleca para continuar a desenvolver o tema. Corre, daqui em diante, o risco de cair no puro bacoquismo, ou/e de ver remetido o texto para a categoria dos hipnóticos, ainda que sem perigo de dependência. Nem por sombras continuar por tais veredas, que este jornal bem merece o brio dos colaboradores. Desistir? Depois do esforço neuronal já efectuado? Nã … Nem pensar! Então, que fazer? Resta uma solução: aproveitar o que está escrito e contorcer o rumo da prelecção, de forma a enveredar por trilhos menos arriscados para o autor e de maior proveito para o leitor. Mas como fazê-lo sem dar a impressão de presentear os pacientes leitores com uma espécie de Frankenstein literário? Sem cair num vago déjà vu, para quem já tenha lido "O Mistério da Estrada de Sintra", onde os capítulos se sucedem sem traço de união que proporcione uma sequência lógica à narrativa? Lançar ao prelo um mau livro é chalaça a que se podiam entregar Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, que o escreveram a meias e sem preocupações de encadear as partes ou de cuidar do conteúdo. Mas andanças dessas não são para um simples artesão de frases!
Assim sendo, o que começou por ser um emproado ensaio, e perante a manifesta incapacidade do autor para lidar com o tema, transmuta-o, sorrateiramente, numa divagação sobre Médicos e Filosofia, matéria mais acessível à modéstia das suas aptidões.
Posto isto e deixando antever a assunto das próximas crónica aqui vai, a modo de introdução e ponte, um esboço taxionómico. Há médicos Filósofos e médicos filósofos (tal como no budismo, que se divide em Grande e Pequeno Veículo). Os primeiros, mais raros, brilham na negrura dos céus como estrelas de primeira grandeza e os segundos, mais bastos e modestos, são nuvens baças de luminosidade menos exuberante.
Acácio Gouveia