4 de março de 2010

A tese descontinuísta da ciência - Gaston Bachelard e Thomas Kuhn

Em relação à questão do desenvolvimento da ciência, Gaston Bachelard defende a tese descontinuista. Este autor defende que há uma verdadeira ruptura entre a ciência e outros saberes, como o senso comum. Estes não diferem apenas no grau de aprofundamento, a própria natureza do conhecimento é diferente.
Bachelard introduz o conceito de "corte epistemológico", ou obstáculo epistemológico, que designa um impedimento ao desenvolvimento científico; são perturbações e deturpações que impedem que a ciência evolua em termos de conhecimento. Para ele, o senso comum não é apenas diferente da ciência, é um obstáculo ao bom desenvolvimento desta.
Segundo Bachelard, “a opinião pensa mal, não pensa, traduz necessidades em conhecimentos”. Para este autor é necessário haver uma ruptura com o senso comum, que é o domínio das opiniões, afirmando que “o que se crê saber ofusca o que se deve saber”. Devemos cortar com as crenças, preconceitos e falsas imagens, devemos cortar com a experiência primeira que provoca lentidões e perturbações no decorrer das investigações científicas. Isto porque os conhecimentos do senso comum traduzem-se em opiniões que escondem os problemas. Bachelard afirma: "Nada se pode fundar sobre a opinião: é preciso primeiro destruí-la". E acrescenta: (na ciência) "Nada é dado. Tudo é construído". Por exemplo, o facto de vermos, com os nossos olhos, todos os dias, o Sol a circular em torno do nosso planeta levou à crença de que a Terra era o centro do Universo, já que o Sol se movimenta em torno dela. Isto impediu a descoberta e aceitação da teoria heliocêntrica, que afirma que é o Sol o centro do sistema solar em que se insere a Terra.
O descontinuismo epistemológico de Bachelard afirma que no progresso científico há sempre uma ruptura com o senso comum. Bachelard também defende um descontinuismo histórico. Para ele o futuro de uma ciência não depende do seu passado. Um momento histórico na ciência não é continuamente seguido por outro, há cortes, rupturas. Os conhecimentos científicos anteriores também funcionam como obstáculos epistemológicos, pois o cientista têm a tendência a se “agarrar” a eles como sendo absolutamente certos, deixando de ter espírito aberto para colocar hipóteses que contrariem esses conhecimentos anteriores. Retomando o exemplo, estando em vigor a teoria científica do geocentrismo (afirma que a Terra-geo é o centro do Universo), foi extremamente difícil aceitar o heliocentrismo.
Também Thomas Kuhn é claramente descontinuista. Kuhn debruçou-se sobre o desenvolvimento da ciência em geral ao longo da História. Em "A Estrutura das Revoluções Científicas", Kuhn apresenta-nos um ciclo em que se processa o desenvolvimento da ciência. A ciência normal decorre sempre no âmbito de um paradigma, conjunto de regras, procedimentos metodológicos, teorias, que orientam a ciência naquele momento, funcionando como matriz disciplinar de uma comunidade científica, que é o grupo de cientistas que trabalham no contexto desse paradigma. No período de ciência normal, o trabalho desenvolve-se como um resolver de enigmas, os problemas são os esperados e as soluções o mais ou menos previsto. Há uma grande resistência à mudança por parte destes cientistas que partilham ideologias e referências. Aqui a concepção de Kuhn aproxima-se da de Popper, ao rejeitar o conceito de neutralidade que o Positivismo atribuía à ciência. Segundo ambos, é um facto que os cientistas não se separam das suas ideologias, crenças, expectativas pessoais, quando iniciam o trabalho científico.
Kuhn explica a dificuldade de crise, de um paradigma, pela resistência dos cientistas, que não são nada neutros nesta matéria. No entanto, e apesar da resistência, quando surgem demasiados problemas, que já não se podem ignorar, a que o autor chama anomalias, o paradigma entra em crise, há uma revolução, que significa a separação da comunidade, o experimentar coisas novas e estar aberto à mudança, e dá-se a emergência de um novo paradigma num contexto de ciência extraordinária, que acaba por se transformar em ciência normal, quando o novo paradigma se instala. Aqui reside o descontinuismo de Kuhn, nestes momentos de ruptura que se apresentam como verdadeiras revoluções.
Recolhido a partir de: www.edusurfa.pt - Porto Editora