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Filosofia e paixão

Não há filosofia sem paixão, sem criatividade, sem irreverência sob o risco de se transformar em saber doutoral e estéril. No entanto não há verdadeira paixão sem filosofia, isto é, sem organização e profundidade sob o risco de se converter em sentimento fútil e espúrio.
A filosofia é e será sempre racional mas a reinvindicação plena da racionalidade não pode confundir-se com um qualquer reducionismo que oblitere e empobreça a real complexidade humana. O homem não se reduz à dimensão racional como não se reduz a qualquer outra dimensão porque o característico do homem é a superação e a construção. Se a filosofia é vida e reflexão sobre a vida não pode o filósofo confinar-se ao domínio da racionalidade nem estabelecer leituras únicas do real. A imaginação, o sonho, a afeição e o sentir na sua multiplicidade são instrumentos que o filósofo não pode escamotear a não ser que desvalorize o próprio homem. Um filósofo sem estilo próprio não é um filósofo mas uma máquina pensante ou um imitador de paradigmas teóricos. Um filósofo acomodado e sereno pode ser um excelente animal político e social mas não passa de um produtor de ideias inócuas, um tecnocrata do saber.
Ao contrário do que propunha Pitágoras, o filósofo não pode ser um simples espectador mas alguém que está comprometido e que toma posição. O filósofo não pode mais ser o que se coloca à margem das coisas e só reflecte retrospectivamente ou projectivamente evitando cuidadosamente qualquer comprometimento. As torres de marfim mesmo que convertidas em paredes de cristal não deixam de ser prisões.
A filosofia não tem que ser forçosamente séria, tumular e o próprio Sócrates ilustrou a importância da ironia como arma corrosiva e propedêutica. Também o humor pode ser um importante instrumento para denunciar o senso comum disfarçado de bom senso e uma eficaz alavanca para abalar a seriedade mórbida dos que confundem a vida com um funeral.
Quando o filósofo adquire demasiadas certezas morre nele a criança curiosa e indiscreta, talvez mesmo inconveniente, que faz da procura e não da posse a razão de ser da sua existência. Quando o filósofo substitui a incomodidade pela segurança auto-suficiente é chegado o momento de a filosofia se transformar em escola, repetição e sebenta.
Se não se pode, pois, dissociar a filosofia da paixão é necessário deixar bem claro que a paixão filosófica não é sinónimo de indisciplina, de falta de rigor ou pura imediaticidade.
O rigor e a humildade não podem constituir episódicas referências do filósofo mas são ou devem ser esteios fundamentais que balizam o percurso. A ousadia do filósofo deve ser uma ousadia fundamentada, alicerçada em raízes de autenticidade e não a loucura dos inconsequentes, o discorrer sem nexo dos que confundem a filosofia com um pensar sem disciplina e sem regras.
O filósofo não é aquele que se tornou perito em ler e escrever nas entrelinhas mas o que procura ser claro sem que a clareza signifique a obediência a canones rígidos e esquemas conceptuais mais ou menos fossilizados.
O filósofo é concerteza aquele que está apaixonado mas não aquele que se aliena ou o que perde a capacidade da crítica. Sem renegar a sua condição de homem para reclamar qualquer sobrehumanidade, o filósofo tem que saber manter, quando necessário, um distanciamento crítico que lhe permita construir uma reflexão profunda e consistente.
Penso que não há nenhuma verdadeira filosofia que não comece no eu, o que há de mais íntimo em cada um de nós, mas também não há nenhuma que se confine aos limites da individualidade. Por isso, quer o egoísmo ou o autismo de qualquer espécie, quer a diluição no colectivo, a ponto de suprimir a diferença e a irrepetibilidade, me parecem posições alheias à filosofia.
Deste modo,a paixão filosófica não significa imersão no senso comum ou glorificação da espontaneidade pura sem método e sem projecto, mas atenção à vida e, mais do que isso, um mergulhar em profundidade na vida.
Sob o signo do rigor, a filosofia é paixão e se-lo-á sempre a não ser que a rotina se instale e o real se confunda com o racional e se subordine a ele.

José Santos Torres