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Procurando o Sentido - por João Sobral (11ºB)

Somos seres humanos. Somos Homens activos que pensamos. Somos homens activos que comunicamos.
Revelamos a nossa actividade em todas as tarefas do dia-a-dia. Revelamo-la desde a mais difícil e árdua das tarefas, como por exemplo correr uma maratona, como também no dormir. O nosso coração, os nossos pulmões, as nossas veias e o nosso metabolismo não cessam. Somos então activos no pensar e no comunicar e nesta difícil tarefa que é viver, ou melhor, sobreviver.
E, no pensamento e em muitos dos actos reflexos que envolvem o nosso sistema nervoso também somos activos: sinais eléctricos não param, dos campos positivos aos negativos, dos campos negativos aos positivos, estão os nossos neurónios e nervos em acção. E desta simples associação de células, da simples enormidade de sinapses advém algo que chamamos pensamento: tão grandioso e tão completo, reduzido a uma tão pequena e elementar palavra.     
O pensamento que nos possibilita reflexões, que nos faz questionar e arranjar soluções, já pascal dizia: “o pensamento faz a grandiosidade do Homem”. Quanto melhor sabemos tirar partido do pensamento, mais completos nos tornamos, pois ele é o que nos torna especiais e distingue dos outros animais que agem segundo os seus instintos, essencialmente actos reflexos - actos que também revelamos, mas que não são exclusivos – o pensamento é o que nos faz ser apelidados de seres racionais..
Mas independente ao pensamento apresenta-se o comunicar. Independentemente da raça e da localização geográfica, todos os animais sentem a necessidade de comunicar, e fazem-no efectivamente de uma forma inconsciente. Nós, homens, na comunicação, juntamos duas vertentes e à inconsciente acresce a consciente.
Por um lado comunicamos com a nossa língua, com o idioma do nosso país, a riqueza, a imensidão de adjectivos preposições, determinantes, substantivos, advérbios, expressões idiomáticas que constituem um idioma, como que desvendando a história de um povo e a maneira como ele se adaptou de forma a que conseguisse comunicar da maneira mais eficaz: simples e facilmente.
No entanto, a partir de um certo ponto torna-se inconsciente para nós a linguagem e fazemo-lo sem qualquer esforço, sem implicar pensamento. Mas a vertente menos activa do acto de comunicar não á apenas revelada na fala, parque nós somos o que dizemos, mas também aquilo que calamos: mostramo-nos no olhar, dizemos nas entrelinhas dos nossos discursos e com expressões faciais revelamos o que nos vai na alma.
Torna-se para nós inconsciente comunicar.
Aliás, toda a inconsciência revela-nos e também escalas de valores. Atentemos, por exemplo, o involuntário da linguagem associado ao profundo no nosso ser: o conjugar e utilizar o verbo “ter”. Verbo “ter” que é tão utilizado, tão vulgarizado, invulgar é passar um dia sem o pronunciar, mas que é intimamente revelador. É frequente dizermos ou ouvirmos dizer, na imagem de uma sociedade materialista, “Tenho uma camisola nova”, mas raro, muito raro mesmo, é dizermos ou ouvirmos dizer “Tenho vida” no seu sentido real e em toda a complexidade e valor que ela implica. E ainda bem que assim é, porque o verbo “ter” materializa.
Em nós, seres humanos, neste mecânico acto de comunicar divulgamos uma certa tábua de valores, uma determinada escala puramente intrínseca e prova que valores fundamentais, como o da vida, infelizmente apenas no inconsciente, não é banalizado: ainda temos alguns princípios, mesmo que seja no mais íntimo do que consideramos involuntário.
Desta forma, conjugar o verbo “ter” é no fundo fazer esta escala de valores, interior, numa distinção entre contravalor e valor. Considero que o sentido das nossas vidas passa muito por esta distinção entre o essencial e supérfluo, entre o correcto e errado: no fundo, a nossa distinção entre bem e mal.
Distinguimos o bem e o mal com base em todos os princípios éticos e universais, mas nesta diferenciação que refiro, a diferença entre bem e mal é mais dependente da herança genética e da sociedade onde crescemos e fomos influenciados: trata-se de uma questão moral.
Se para uma pessoa é supérfluo ter uma casa de férias, para outra apenas pode ser um carro para ir para o emprego. Se para uma pessoa é errado uma falta colectiva, para outra apenas pode ser o gesto de difamar.
Estas distinções e exemplos, vistos de uma maneira objectiva e universal são de fácil análise e a diferença entre o bem e o mal é, de uma forma mais ou menos geral, facilmente distinguida: claro que é mais supérfluo a casa de férias e, na minha opinião, mias errado a falta colectiva, pois revela uma maior falta de respeito, que é conjunta para com uma autoridade.        
É no nosso dia-a-dia, na nossa subjectividade e naquilo que nos é mais genuíno que fazemos esta distinção, na nossa individualidade, maioritariamente influenciados por princípios morais (ou pela falta deles), sendo o carácter ético um pouco esquecido. E, sendo esta distinção carente de objectividade e generalidade, torna-se fácil concluir acerca da sua relativização e mobilidade - o que para uma pessoa é bem, para outra pode ser mal.
Bebendo de todas estas inconsciências vamos nós construindo o sentido das nossas vidas. Sentido que, magnificamente, é subjectivo na sua objectividade. Ou seja, os Homens revelam e sentem a necessidade de uma busca individual pelo sentido, em função de determinados princípios e valores, do que tem valor e é meritório. Mas toda esta busca encontra-se na objectividade, em acontecimentos de carácter factual e na universalidade, na medida em que todos nós temos essa necessidade.
Falando de sentido, podemos dizer que o sentido de uma determinada coisa é ela em si mesma, é encontra-la, descobrir o seu valor. Por exemplo, poderíamos dizer que o sentido da mão direita é escrever, para alguns, é agarrar, é coçar, acariciar, empurrar ou até magoar… Mas se o disséssemos estávamos a ser incorrectos, segundo a minha perspectiva, visto que, no fundo, o sentido da mão direita é ser útil ao ser humano - ser-lhe útil nesta tarefa de viver, ou melhor, sobreviver – e todas as funções que ela desempenha não passam de meios que ela usa para desempenhar o seu propósito maior, o seu sentido. Isto porque, algumas destas funções poderiam não ser desempenhadas que a mão direita continuaria a ter sentido.
Todas estas funções da mão direita podem ser comparadas aos objectivos que vão surgindo com o decorrer da nossa vida. Os objectivos não são o sentido em si, apesar poderem parecer em algumas situações, os objectivos até podem parecer contraditórios, mas são no final consequências obrigatoriamente necessárias do sentido das nossas vidas.
O sentido da nossa vida é, por isso, uma base onde assentam todos os nossos actos, todos os nossos desejos e todos os nossos objectivos. Uma base escolhida por nos próprios.
O sentido da vida é como se fosse a folha com o verbo “ter” conjugado. Desta forma, não há dois conjuntos folha+verbo conjugados, iguais, pois também não há dois sentidos de vida exactamente iguais: as folhas podem ser de linhas, quadriculadas ou lisas em todas as interferências sociais a nos impostas; as canetas não são todas da mesma cor, dependendo das condições históricas; e às vezes são escritas com a mão direita, outras com a mão esquerda, não variando sempre o tipo de letra, na marca da nossa herança genética. E, quianda nesta perspectiva de paralelismo, é curioso constatar que em folhas de papel se muda o rumo de uma nação, se altera o destino da humanidade – sendo grandes feitos criados, ficando pessoas na história – mas, também simples cartas são escritas e rascunhos – menores obras realizadas, menos vistosas e um tanto ao quanto mais platónicas e abstractas (na medida em que possuem uma menor visibilidade para as outras pessoas) A base é a mesma, tudo relacionado com um determinado sentido de vida: sentido que por vezes é descoberto, mas nem sempre encontrado.
Numa enormidade e em mais ou menos complexas reflexões procuramos o destino para as nossas vidas, tentamos descobri-la, porque descobrir implica procura e a incerteza se algo é realmente encontrado. E, assim, em certos casos um determinado sentido é encontrado, mas noutros simplesmente se descobre que não há sentido e este não foi encontrado. Mas depois também há situações em que o sentido é encontrado sem que seja descoberto.
Por vezes, damos por nos já orientados por princípios e valores, já com determinados objectivos que surgiram naturalmente e, desta forma, descobrimos que já encontrámos o sentido das nossas vidas, é como se fosse algo tão inconsciente para nós, na ausência daquela procura e incerteza referida, que quando nos tornamos conscientes já a nossa vida adquiriu sentido, já a nossa vida é vida.
Desta questão do sentido da vida, e relacionado com os instintos humanos, Pascal referiu que “todas as acções do Homem tendem invariavelmente para a sua felicidade” (citado de memoria) É uma realidade inegável que todas as nossas acções tendem para a nossa felicidade individual, para o nosso bem-estar e realização pessoal. É, no entanto, estranho pensar em todos os casos de suicídios e situações em que o Homem, deliberadamente, opta pelo seu próprio sofrimento. Concordando que é uma situação estranha e algo incompreensível, resta-me apenas compreender e aceitar que essas escolhas surgem em função de determinado sentido de vida (ou falta dele) e, apenas por me achar incapaz de fazer algo do género, não os torna menos meritórios.
Esta tendência para a felicidade, o próprio bem-estar e realização pessoal, são muito individuais e, por isso, apesar de estarem relacionados com o sentido, não o são de todo, porque não possuem o caracter de eternidade: o que é bem-estar e felicidade para nos hoje pode não o ser amanhã ou daqui a uns anos, e também porque nós não somos nos próprios apenas, a nossa felicidade e o nosso sentido não dependem só de nós.
Nós somos nós, mas também somos os outros e aos outros também damos parte de nós. Desta forma, o sentido das nossas vidas é algo muito mais geral, universal e abrangente, dentro da nossa própria individualidade.
Dizia Sartre: “Ser Homem é tender a ser Deus”
Tendemos a ser deuses de nós próprios.
Procuramos e revelamos a omnipotência, omnipresença e omnisciência. Sabemos tudo das nossas vidas, e não só dela. Procuramos também saber outras coisas que nos enriqueçam e tornem mais grandiosa, que lhe acrescentem valor. E presentes também estamos nós, em todos os momentos da nossa vida, fisicamente e mentalmente (à excepção de quando estamos, por exemplo, em estado de coma). Potencia, a omnipotência também não falta, porque fazemos o que quisermos das nossas vidas, temos a nossa própria liberdade e damos-lhe o valor que quisermos.
Assim, encontrar ou descobrir o sentido da vida é o encontrar o deus que há dentro de nos, tendo consciência do nosso poder, sabedoria e presença.
Desta forma, conjugando o nosso próprio verbo “ter” e em todas as nossa tendências sub e sobre-humanas, encontramos a nossa vida com sentido quando nos encontramos a nós próprios e descobrimos o valor que ela tem para nós: quando descobrimos a vida em si, tornando-nos os deuses de nós próprios. Então, quando nos acharmos deuses em nós, deixamos de sobreviver, com planos futuros e determinados objectivos, e passamos a viver com carácter eterno e um projecto de vida.

João Sobral 11ºB - AEAAV