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Ciência e Poder- por Desidério Murcho

A divisão do trabalho intelectual levanta um problema político e social muito espinhoso: é que temos de confiar nos especialistas das diferentes áreas. Eu não tenho competência para saber se o meu médico tem razão ou não; posso usar alguns sinais vagos, mas só se eu fosse médico poderia saber melhor. Do mesmo modo, não posso saber se o que me diz um físico, historiador ou matemático é verdadeiro. Quando nenhuma destas coisas tem peso nem importância política nem legislativa, trata-se de um problema menor. Mas quando precisamos de legislar porque precisamos de fazer algo, torna-se um problema político muito difícil.
A dificuldade é esta: numa democracia saudável, são cruciais os controlos democráticos. Isto significa que as pessoas precisam de saber avaliar se uma proposta legislativa responde ou não aos seus interesses. Acontece que quando a ciência está envolvida, não podemos exercer esses controlos; só os próprios cientistas o podem fazer. Isto é politicamente muito perigoso. Que podemos fazer quanto a isto? Três coisas podem ser feitas; não resolvem o problema, mas ajudam a limitar os estragos.
Em primeiro lugar, podemos divulgar a ciência, aos adultos e aos jovens, e deve haver muita diversidade neste trabalho. A divulgação da ciência é muito importante porque quem tem informação científica básica, tem uma ideia sólida de como se procede cientificamente para refutar ou confirmar uma ideia. Isto é uma defesa contra ideias que são apresentadas como científicas, mas que ao mesmo tempo querem poupar-se à crítica, ao controlo, ao teste rigoroso, sistemático, cuidadoso. Infelizmente, grande parte das ideias que circulam entre as pessoas menos informadas são ideias tolas disfarçadas de ciência. Isto só é possível precisamente porque a ciência tem hoje grande autoridade epistémica. Vende-se todas as banhas-da-cobra fazendo-as passar por científicas. A melhor precaução contra isto é uma divulgação bem feita e rigorosa da ciência e o ensino de excelência. Mas este trabalho de divulgação e ensino tem de ter também outro objectivo: dar às pessoas instrumentos para limitar o poder político dos cientistas, para avaliar criticamente as suas afirmações e para aprenderem a dizer “não”. Uma falácia recorrente nos cientistas é semelhante à falácia das pseudociências: usar a autoridade da ciência para afirmar ideias que nada têm a ver com a ciência: ideias políticas, sociais, legislativas e até filosóficas. Uma maneira de limitar o poder perigoso dos cientistas é dar mais informação e formação científica às pessoas.
Em segundo lugar, os cientistas devem compreender que, como no caso dos juízes, não basta que sejam imparciais e justos: é também preciso que o pareçam. Se as pessoas virem os cientistas apenas como mais um grupo de pressão política e social que defende os seus interesses à custa dos interesses dos outros grupos, não aceitarão o que dizem os cientistas, mesmo que estes tenham realmente razão. Quando os cientistas italianos foram correctamente condenados porque mentiram à população dizendo-lhes o que cientificamente sabiam que era falso, pois sabiam perfeitamente que não se pode prever terramotos com precisão, quase todos os cientistas reagiram em defesa da classe e não em defesa da verdade. A verdade é que eles usaram o poder social da ciência para aconselhar as pessoas e em resultado disso morreram muitas pessoas. Se isto não é um caso claro de irresponsabilidade pública, não sei o que o será. O primeiro dever de um cientista é esquecer-se que é cientista e pronunciar-se imparcialmente sobre este caso, e não em defesa dos colegas e da classe profissional a que pertence.
Em terceiro lugar, precisamos de menos, muito menos estado. O estatismo é a fonte de quase todos os nossos problemas políticos. O estatismo é dar ao estado, que é uma entidade abstracta, demasiado poder e demasiada interferência na vida das pessoas. Precisamente porque é uma entidade abstracta, é sempre uma falácia pensar que o estado nos resolve os problemas por nós. O estado é, na verdade, um poder exercido por pessoas em que não votámos, que escapam completamente aos controlos democráticos e que nada podemos fazer para despedir. Essas pessoas são os funcionários permanentes do estado: os burocratas. Muitas pessoas estão completamente desiludidas com o ministro da educação Nuno Crato, porque a legislação que emana hoje do Ministério da Educação não só nada tem a ver com o pensamento que lhe conhecemos dos seus livros, como é exactamente igual à legislação anterior — até na linguagem. É este o poder dos burocratas: quem realmente legisla sobre a educação não são os governantes, eleitos por todos nós por processos democráticos, mas antes os burocratas. Precisamos, urgentemente, de menos estado, também por esta razão. Mas também porque quanto menos poder tiver o estado, menos o poder da ciência, por via do estado, pode prejudicar-nos. Menos estado é mais autonomia; é dar às pessoas informações e deixá-las decidir o rumo das suas vidas. E isso significa que elas vão errar e prejudicar-se. Mas impedir as pessoas de aprender com os erros é como impedir uma criança de aprender a andar porque, nesta aprendizagem, a criança inevitavelmente cai e magoa-se.
Desidério Murcho in dererummundi.blogspot.pt