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"Guerra religiosa" na Europa: só uma hipótese académica?

A oposição entre países "virtuosos" do Norte da Europa e países "prodígios" do Sul transformou-se numa divisão entre protestantes austeros e rigorosos e católicos dispostos a redimir-se dos seus pecados económicos, observa um editorialista italiano especialista em questões relacionadas com o Vaticano.
Talvez não saibam que na Europa do Norte muita gente pensa que o spread, o diferencial entre a taxa de empréstimo dos países “virtuosos” e dos que estão em maus lençóis, é o resultado de um pecado católico. Na Alemanha, o termo Schuld significa “dívida”, mas também “falta”. Esta nuance semântica deixa transparecer profundas diferenças culturais e deixa que se compreenda melhor a desconfiança – ou preconceito – de certas nações da Europa do Norte em relação aos países considerados membros de um indolente “Club Med”.
O spread com os títulos da dívida espanhola e italiana de um lado e alemã do outro acaba também por se revestir de subtilezas éticas, mais discriminatórias que os orçamentos dos Estados em questão, remetendo, por acaso, para valores que intercalam cultura e religião e injetam velhos venenos nas veias fatigadas da Europa.
De facto, acaba de ser transgredido um tabu que traz à boca de cena os fantasmas da Reforma e da Contra-Reforma, das guerras travadas à sombra de um Deus europeu. Este aspeto das polémicas destes últimos meses nem sequer foi evocado e, no entanto, reaparece intermitentemente, ao passo que o euro começa a evocar o desemprego, a pobreza e o declínio, deixando para trás a riqueza e a estabilidade.
A retórica anti-italianos e anti-mediterrânicos e, no extremo oposto, a retórica anti-alemães alimenta-se inconscientemente de estereótipos culturais e religiosos. Antigas “verdades”, enterradas na memória do Velho Continente e que seria preferível não desenterrar sob pena de se quebrar o difícil compromisso entre as nações que, durante décadas, garantiram a paz social e política. Mas a incerteza fá-las aflorar ao espírito dos que propõem novos isolacionismos, na ilusão de que mais depressa nos conseguiremos salvar sozinhos do que todos juntos.