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Porque é dia do pai e pretexto para reflexão sobre a família...

A FAMÍLIA: UMA ABORDAGEM FILOSÓFICA
 
A filosofia e a família têm andado desencontradas ao longo da história da Filosofia e da Humanidade. O centro do pensar filosófico, nos seus primórdios, era o cosmos: a totalidade do mundo físico, a grande máquina do universo, desde o céu estrelado até às profundezas do oceano e das entranhas da Terra.
Chegam os socráticos e esse centro se desloca em direção à polis (esse cosmos ou ordem promovida pelo homem social), e em direção da alma (esse microcosmos ou miniestado, cuja complexidade era regida pela ética, como a ‘polis’ era regida por sua constituição).
Vem o cristianismo, e o homem, feito à imagem e semelhança de Deus, tem uma vocação pessoal e intransferível para unir-se ao seu Criador, salvar a sua alma, cultivar as virtudes e conquistar o reino dos céus. Seu ‘plural’ ou sua comunidade é a igreja, a universalidade dos que têm a mesma fé, onde todos são irmãos e Deus é o Pai.
Chega a época moderna, e o individualismo domina tudo: a subjetividade, a autonomia, a fundamentação dos costumes e da vida pessoal e social sobre a única base da razão do indivíduo, não deixam sequer espaço para considerar a família como um ‘locus philosophicus’.
Parecia que, no século 19, ‘a idade do social’, a importância que os aspectos propriamente sociais da vida humana ganharam depois da revolução industrial e da urbanização acelerada, que ainda se acentuaram mais em nosso século 20, o clima fosse tornar-se mais propício à reflexão sobre a família, mas aconteceu o oposto: o social que atrai os homens é a sociedade total, as forças estruturantes da história, as solidariedades de classe, de nação, de raça. E, ao mesmo tempo, aprofunda-se, com a dominância do capitalismo, sua ética individualista, seu hedonismo radical.
Por que os filósofos passaram ao lado da família e dirigiram suas poderosas inteligências para outras direções? Talvez não seja alheia a isso a tradição celibatária dos grandes filósofos, tanto assim que o primeiro a romper essa tradição, Hegel, foi também o primeiro que deu um razoável espaço filosófico à família. Mas é claro que os fatores culturais, ou a estrutura social de modo geral, foram determinantes para isso: o papel atribuído à mulher e à vida doméstica entre os gregos fazia ver na família o lugar em que se formava o homem como ser biológico: a educação, a cultura, a vida propriamente humana da polis se situava além e fora da família.
Junto com esses fatores culturais, parece-me que o filosofar sobre a família ficou inibido ou prejudicado por um jogo tão óbvio quanto deformante de oposições: o biológico e o social; o público e o privado: a liberdade e conquista de sua identidade pelo indivíduo, e os quadros tradicionais que modelaram seu crescimento. Padeceria, nesse último caso, essa atitude um certo adolescentismo, que leva a negar em bloco os valores recebidos na infância, sem reparar que até a força para negá-los foi recebida através de uma educação que lhe transmitiu o espírito crítico: e que toda a negação só pode ser determinada, e justamente determinada por aquilo que se nega, como num claro-escuro que destaca e dá sentido às figuras.
Aplicada à família, a dicotomia biológico-social serve para atribuir à família a formação do corpo, ou o desenvolvimento biológico da criança; e transferir para outras instâncias a conformação do homem, do cidadão, membro de uma sociedade, participante da cultura e construtor da história. Com isso não se atende à função importantíssima da família na socialização, na endoculturação dos indivíduos. De fato, a família é determinante do tipo de socialização que recebem as crianças; é ela que ensina a falar em uma certa língua e, junto com o idioma, incute-lhe todo um elenco de hábitos e valores, de atitudes e orientações tão profundamente arraigadas que se apresentam depois como evidências espontâneas, como a forma normal de levar uma vida propriamente humana.
O mesmo se diga da dicotomia público/privado. Sem dúvida, a família está mais para o lado privado que para o lado público da vida. Mas as relações entre público e privado são mais sutis e coniventes do que deixa supor essa dicotomia demasiado clara. O fenômeno do poder é central em todas as relações humanas e é, na família, que a pessoa primeiro o descobre e vivencia. E a descoberta de que os outros também existem e, por sua presença, impõem limites a seus desejos, exigem seu espaço, impõem seus direitos a cada passo, não deixa de ser uma descoberta da cidadania, uma introdução à coexistência política e mesmo ao exercício da cidadania.
Quanto à oposição entre a afirmação de si mesmo e o enquadramento em uma estrutura preexistente, já aludimos acima. Absolutiza-se uma oposição que só tem sentido enquanto dialética, ou seja, enquanto cada termo é condição para levar o outro a superar-se e, na sua polarização, fazer que irrompa a criatividade humana: que não cria a partir do nada, e sim, do tesouro de venerável tradições.
Esses jogos de oposição – em que a família sempre ocupa o pólo de menor valor, em contraste com o qual se afirma o que se quer realmente desenvolver – mostram que a família não é visada em si e por si, mas antes como um fundo escuro contra o qual se destaca o que merece análise e atenção. Onde não há análise teórica expressa, quando um tema já se pressupõe óbvio, e é liquidado em rápidas pinceladas ou jogos de contrastes, quer dizer que está sendo recebido, tal e qual, dos preconceitos sociais, da ideologia imperante, que passa por tão evidente que nem sequer é criticada.
Claro que a filosofia, desde o começo, teve por tarefa filosofar sobre a totalidade do real. Porém, cada parcela ou ângulo do real só se destaca propriamente à reflexão quando se apresenta como objeto de curiosidade, ou de admiração; quer dizer, de estranhamento. E a família tem essa marca de parecer tão ‘familiar’ que nem suscita questionamento espontâneo: as pessoas se sentem de tal modo ‘familiarizadas’ que não vêem nela um problema filosófico, um desafio como a Esfinge que dizia “Decifra-me ou te devoro”. A problemática do homem e da ética surgiu com a crise da cidade grega: antes a pessoa e seus costumes estavam imersos naquela “eticidade compacta”, que era a polis (Hegel). A Filosofia Social, a Filosofia da História vieram a surgir no século passado, depois do choque da urbanização e da revolução industrial.
Claro que desde S. Agostinho havia uma Teologia da História, mas o pensamento filosófico só se tornou historiocêntrico com Hegel.
O que poderia deslocar a atenção dos filósofos para a família? Sua profunda crise e as conseqüências que tem sobre a pessoa humana e sua sociedade? Mutações culturais, novas formas de convivência alternativa, cansaço com massificação do indivíduo, com os descaminhos da modernidade que, em busca da razão, foi, muitas vezes, tão pouco razoável? A busca de formas mais humanas de vida, de conviabilidade, de fraternidade? Quem sabe se o clima ‘pós-moderno’ depois da valorização exclusiva do sujeito, ou das macro-estruturas, não seria favorável para um retorno às realidades de convívio, de convivialidade e de afeto que caracteriza a família?