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Um futuro sem pessoas? . por Pedro Xavier Mendonça

Não é possível negar que o desenvolvimento tecnológico tem apresentado como tendência a substituição do trabalho humano pelo de máquinas. Também não é possível negar que este fenómeno não tem sido questionado com a dignidade que merece. Na prática, este sentido parece tão irreversível e ao mesmo tempo tão maravilhoso que provoca uma sonolência encantada nos viventes.
Os exemplos são inúmeros e históricos. A Revolução Industrial criou um novo tipo de trabalho que empregou muita gente, ainda que revoltando alguns contra as máquinas industriais, como os chamados "ludistas", ou criando as condições laborais lastimosas que impressionaram o socialismo. Contudo, o que se lhe seguiu ao longo do século XX, enquanto "terceira vaga", "sociedade do conhecimento", "pós-industrial" e em "rede" ou "economia digital", como lhe queiram chamar, trouxe outros problemas a este respeito. Apesar de ter criado novos trabalhos com especificidades únicas, muito por via da informática, esta realidade provocou uma troca da força braçal pela maquinal numa proporção maior à da criação de empregos. São lojas online ou interativas, supermercados sem trabalhadores das caixas, automóveis que andam sozinhos, drones no lugar de soldados, robôs na grande indústria ou mesmo na medicina, a bimby na cozinha e até máquinas falantes a ocuparem o lugar de gente nas portagens das autoestradas, obrigando-nos a escolher entre o robô e a pessoa, opção quase cívica e sindical.
Este processo não é algo que se faça unicamente em função de uma persuasão ao consumo, isto é, centrando-se nos benefícios de quem usa. As esferas de decisão ganham com esta substituição em massa precisamente porque poupam na mão-de-obra, escolhendo entidades sem salário e sem vontade de protesto. Portanto, podemos questionar em nome de quê se dá esta transformação.
Por outro lado, devemos ter em atenção uma equação preocupante. Esta dinâmica de automatização do trabalho tende a ocorrer sobretudo em países desenvolvidos, onde as estruturas económicas são mais tecnológicas. Mas é também nestes países que a taxa de natalidade tem vindo a sofrer quebras ferozes. Estas duas curvas coincidem na descoincidência: a das máquinas, sobe; a dos humanos, desce. Não havendo uma relação de causa-efeito, há uma de combinação decadente para a vivência humana e ascendente para a presença técnica. E assim o futuro terá menos pessoas?
Pedro Xavier Mendonça in expresso.sapo.pt