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Progresso científico e Bioética

O inquestionável progresso das ciências biológicas e biomédicas que altera os processos da medicina tradicional e que apresenta novidades insuspeitas. Quem acreditaria vinte anos atrás, que um ser humano pudesse ser concebido fora do corpo de uma mulher? Ou que duas senhoras reclamassem o direito à maternidade sobre o mesmo bebé, por terem participado, uma e outra, da fecundação e gestação do mesmo? Ou que um ser humano pudesse ser mantido em um estado vegetativo irreversível por vários anos? Ou que um casal gerasse um filho com a finalidade precípua de ser doador de tecido medular para filha afetada de leucemia? Com razão, Robert M. Veatch, diretor do Kennedy Institute of Ethics, afirma que "os problemas da Medicina e das ciências biológicas têm explodido nos últimos anos, de modo exponencial, na consciência pública". Certamente o aperfeiçoamento das biociências implica na renovação das formas costumeiras de agir e decidir dos envolvidos no mundo da medicina.(...)
R. M. Hare, figura destacada da Ética filosófica contemporânea, faz a seguinte assertiva que confirma a nossa posição: "Os problemas da ética médica são problemas tão característicos da moralidade que a filosofia moral, ao que se presume, será capaz de ajudar a sua solução. Um fracasso nesse campo seria, não apenas um sinal da inutilidade da disciplina, mas também da incompetência de quem a utiliza".
Esse entrecruzamento da ética com o progresso continuado da tecnologia e da medicina produz uma mudança na interpretação tradicional que estava sendo conferida a determinados símbolos ou imagens. C. Viafora enumera como tendo marcado caráter antropológico-religioso os seguintes: a fecundidade como bênção, a doença como prova, a morte como passagem, a vida como dom (11). Desde a nova ética podem ser questionados alguns desses valores e as interpretações que lhes são dadas. Isto, porém, não implica na queda dos princípios da ética, quer filosófica quer religiosa. Trata-se de um sinal da perenidade e atualização da ética que enfrenta novos posicionamentos através da história.
Joaquim Clotet in revistabioetica.cfm.org.br