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O que é investigar? E ensinar? E aprender?

Existem muitas perspectivas sobre o que é investigar. Tal como acontece com muitas outras palavras, "investigar" pode assumir múltiplos significados. Na sociedade moderna, constituíram-se poderosas comunidades académicas em muitas áreas do saber, que reivindicam para si um estatuto especial e de algum modo se apropriaram deste termo.
Geraram-se então diversos mitos:
  • Investigar é uma actividade transcendente, que envolve o uso de metodologias sofisticadas, requerendo recursos especiais e uma longa preparação prévia.
  • Investigar é uma actividade reservada a um grupo especial de pessoas, os "investigadores profissionais".
  • Ensinar e investigar são duas actividades contraditórias, que não se conseguem fazer em simultâneo sem comprometer a qualidade de uma ou outra.
Existe aquilo que podemos chamar a "grande investigação", que se realiza nas universidades, empresas e laboratórios do Estado e que tem uma certa função social. No entanto, parece-me altamente redutor afirmar que, pelo simples facto dessa investigação existir, ser legítima e ser mais ou menos útil, mais nenhuma investigação pode existir. Na minha perspectiva, "investigar" não é mais do que procurar conhecer, procurar compreender, procurar encontrar soluções para os problemas com nos deparamos. Trata-se de uma capacidade de primeira importância para todos os cidadãos e que deveria permear todo o trabalho da escola, tanto dos professores como dos alunos.  
Não vejo como necessariamente contraditórias as actividades de investigar e ensinar. Eu próprio tenho retirado muitos benefícios para a minha actividade de investigação do contacto com os meus alunos, pelo desafio que eles colocam à organização das ideias e pelas perguntas pertinentes que obrigam muitas vezes a repensar os problemas. De modo semelhante, penso que a minha actividade como docente tem beneficiado fortemente do que tenho aprendido como investigador. Aliás, existem exemplos clássicos na história da ciência de influências mútuas entre os papéis de professor e investigador. Um deles, por exemplo, diz respeito a Lobachevisky. Foi o seu trabalho como professor de Geometria que o levou a olhar de modo mais atento para o V Postulado de Euclides e a procurar formas sugestivas de o explicar aos seus alunos. Esse postulado desde há muito incomodava os matemáticos, por diversas razões, e muitos deles interrogavam-se se não seria possível deduzi-lo dos restantes. Foi também isso que tentou fazer Lobachevisky e, quando se convenceu da impossibilidade dessa dedução, resolveu experimentar as consequências de assumir um postulado alternativo, concluindo pela possibilidade da existência de Geometrias não euclideanas. Algo de semelhante aconteceu com o químico Mendeliev, que teve a ideia da construir uma tabela para melhor explicar as propriedades dos elementos então conhecidos aos seus alunos. A tabela periódica viria a ser um dos pilares fundamentais da Química moderna, levando à descoberta de novos elementos e novas propriedades e sugerindo muitas pistas para a compreensão da estrutura da matéria.  
Do mesmo modo, existem muitos significados para o termo "aprender" e muitas visões sobre como se aprende. Na visão dos saudosistas da escola do passado, aprender é sobretudo adquirir conhecimentos, quer factuais – sobre os rios, as linhas de caminho de ferro, os reis e as batalhas, as regras gramaticais, etc., – quer processuais – por exemplo, respeitantes ao cálculo numérico e algébrico. Para outros, a aprendizagem é um fenómeno natural, que acontece constantemente no nosso dia-a-dia, uma vez que todos aprendemos a falar, todos aprendemos as regras básicas do comportamento social, etc. E por aí fora, não faltam as visões redutoras, que salientam um ou outro aspecto desse processo multifacetado e complexo que é aprender, apresentando uma perspectiva parcial e limitada. Para mim, o que está em causa na aprendizagem escolar da Matemática, é o desenvolvimento integrado e harmonioso de um conjunto de competências e capacidades, que envolvem conhecimento de factos específicos, domínio de processos, mas também capacidade de raciocínio e de usar esses conhecimentos e processos em situações concretas, resolvendo problemas, empregando ideias e conceitos matemáticos para lidar com situações das mais diversas, de modo crítico e reflexivo.  
E, finalmente, existem muitas acepções do que é ensinar e do que é ser professor. Para muitos, será sobretudo o "debitar" da matéria, em frente do quadro ou, de modo mais sofisticado, com retroprojector ou Powerpoint. Nesta perspectiva, ensinar e aprender são independentes – o professor pode ensinar sem que os alunos aprendam. Mas também se pode assumir a perspectiva oposta – se os alunos não aprenderam, é porque o professor não ensinou. Falou, gesticulou, escreveu no quadro, esforçou-se, mas falhou. Se partirmos do princípio que o professor existe para que os alunos aprendam e se estes não aprenderam, então ele não ensinou. Nesta perspectiva, ensinar é algo bastante mais complexo do que apenas transmitir conhecimentos e a função fundamental do professor, por onde é preciso avaliar os resultados do seu trabalho, é a promoção da aprendizagem dos seus alunos.

João Pedro Mendes da Ponte in educ.fc.ul.pt