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Porque necessitamos nós de dar? - por Ana Miguel Borba Souto Dias

O mundo não é justo, aliás, se o fosse não teríamos a noção do que a justiça é. Descrevemos algo como justo uma vez que já sentimos a injustiça na pele, sendo nos ápices cruciais que estes dois termos se confrontam. Podemos também, a partir disto, exemplificar e tornar mais credível o facto de que dois vocábulos, com essências radicalmente adversas, podem obrar mediante um pacto. 
O altruísmo pactua com o egoísmo, e o egoísmo pactua com o altruísmo. Deste modo, por mais que manifestem a conceção de batalha, neste contexto, ela não existe. 
Porque necessitamos nós de dar? Já vimos que o Ser Humano por si só necessita algo. E necessitar de algo para possibilitar a sobrevivência não basta necessitar o que é fundamental ao nosso metabolismo. Por muito satisfeitos que possamos estar a nível fisiológico, essa satisfação não compensa, de longe, a falta da outra metade, das necessidades adquiridas. Sem elas sentimo-nos vazios, pobres – pobreza, como já visto, no sentido da manifestação de defeito, não no sentido extremo. O ato de dar, inversamente, proporciona riqueza. Não em questões monetárias, mas a nível espiritual. Concede-nos vivências incríveis, oferecendo-nos a possibilidade de avistar o mundo de uma perspetiva muito mais racional e realística. Posto isto, necessitamos uma vez que nos interessamos por nós mesmos e, ao requerer o nosso bem estamos, de certa forma, a solicitar o bem dos que nos rodeiam. A dádiva intervém, assim, como um meio de atingir este propósito altruísta: o bem ao próximo. 
Necessitamos, pois, de dar não só para nos sentirmos mais absolutos, como também para cuidarmos do nosso jardim, das nossas flores que só brotam se bem regadas e na presença de sol. A água, neste caso, é indispensável à sua sobrevivência, e a luz também o é, como é óbvio. Como a planta consegue realizar autonomamente parte do ciclo fotossintético, a luz, porém, transmite-nos uma ideia de opção – ainda que não o seja. Contudo, numa tendência analógica, esta assemelha-se às nossas necessidades adquiridas, incluindo a dádiva nelas, visto que por mais que consigamos perdurar com a ausência, sem elas nada fará sentido. E não somos nós que procuramos sistematicamente o sentido das nossas vidas? Imaginemos se ele não existisse. 
(...) Não esqueçamos que, como anotado no quinto capítulo, “oferecer um sorriso, é considerar o outro como um ser humano, um interlocutor válido.” (1) – Comece, então, por considerar o outro um interlocutor válido, de forma que, passo a passo, nos seja possibilitada a construção de um mundo melhor, um mundo, enfim, remendado.
(1) Singer, Peter (2011), A vida que podemos salvar. Lisboa: Gradiva. Pág. 65.

Ana Miguel Borba Souto Dias, Porque necessitamos nós de dar?, pg.27-28, 11ºB, AEAAV, 2013