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Rito e morte

Frente à impossibilidade – e ao horror até– de pensar a morte, o eu transcendental cede lugar a um eu situado. O pensamento religioso deriva precisamente de um sujeito que reconhece uma passividade originária, anterior a qualquer objetivação. Pensar a morte desde a religião equivale, portanto, a perceber que o paradoxo da morte é vital e fecundo: da morte nasce a vida; à luz da morte, a vida tem sentido e vale a pena ser vivida. O mecanismo que permite uma transmutação constante da morte em vida é o rito, estratégia única de relativização do eu transcendental, obrigando-o a reconhecer-se situado numa tradição,  uma língua, numa cadeia de memória, e devedor de uma graça que nunca poderá saldar completamente, a não ser com a própria vida.
Também a vida social e cultural assenta numa morte ritual. A vida de todos depende da morte de um só, que se torna assim o horizonte de sentido da civilização a que dá origem, o “rei morto” que “dá vida” a todos os factos sociais. As intuições de Hocart neste sentido, devidamente desenvolvidas, poderão contribuir para a constituição de um fundo antropológico comum de compreensão do religioso, que permita ler factos tão distantes e tão próximos entre si, como o enterro dos senhores das lanças, a morte de Jesus na cruz e os novos ritos seculares. A transmutação simbólica da ética, nos ritos seculares, e a permuta entre a morte de um e a vida de todos, nos sacrifícios, são equivalentes dinâmicos em termos sócio-culturais amplos, que confirmam a centralidade religiosa da morte, anunciando, ao mesmo tempo, a vitória da vida.
Cardita, Ângelo
 Pensando a morte desde a religião – Rev. da Fac. de Letras da U. do Porto, Vol. XXII, 2011, pág. 52-53