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Acção Humana e liberdade

"(...) Movo o meu braço. Movo-o voluntariamente, quer dizer que não o agito em sonhos nem mesmo o levanto para me proteger a cara num gesto reflexo ao ver vir uma pedra contra mim. Pelo contrário, digo-o a quem me quiser ouvir: «Vou levantar o braço dentro de cinco segundos.» E cinco segun­dos depois levanto de facto, o braço. Mas que fiz para o levantar? Pois limitei-me a querer levantá-lo e, como vês, levantei-o. Suponhamos que então você me disse: «Ouvi-lhe dizer que ia levantar o braço e depois vi efectivamente o braço ao alto, mas isso só demonstra que você é capaz de acertar quando se vai levantar o braço, não que o haja levantado volun­tariamente.» Eu insistirei que sei muito bem que quis levantá-lo e que por isso o braço foi levantado. Mas a verdade é que, pensando melhor, não sei o que fiz para mexer o meu braço: movi-o simplesmente e já está. Digo que «quis» movê-lo e logo se mexeu, de modo que parece que fiz duas coisas: uma, querer mexer o braço; duas, movê-lo. Mas em que se diferencia «querer» mover o braço de «movê-lo»? Se eu não estou atado nem sou paralítico é imaginável que quisesse mexer o meu braço e o braço não se mexesse? Faria sentido dizer «desejo com todas as minhas forças mover o braço, de maneira que espero que dentro em pouco o meu braço acabe por se mexer»? Em suma, visto que nada me impede externa ou fisiologicamente de movimentar o braço, não será o mesmo que que­rer mexer o braço e mexê-lo efectivamente? São duas coisas diferentes ou uma só? Wittgenstein refere-se a algo deste género nas sua "Investigaciones filosóficas" quando se pergunta a si próprio: «Este é o problema: O que ficará se subtrair o facto de que o meu braço se levanta do facto de que eu levanto o braço?» Onde está o meu «querer-levantar-o braço» a não ser nesse mesmo braço levantado? Existe algo mais?
Volto a pensar no assunto, um pouco mais cautelosamente desta vez, e concluo que sim, que existe algo mais: quando afirmo que o meu braço se move voluntariamente, porque eu quero, o que manifesto é que poderia também não o ter mexido. Não sei como movo o braço quando quero, não sei se existe diferença entre querer mover um braço e movê-lo efectivamente, mas em contrapartida, sei que se não tivesse querido mexê-lo ele não se teria mexido. Os especialistas nas relações entre o sistema nervoso e o sistema muscular podem explicar como acontece que eu mova o braço quando decido mexê-lo, mas o que conta realmente para mim — o que transforma esse gesto trivial numa verdadeira «acção» — é que sou tão capaz de o mover como de não o mover. Sendo assim, «fiz voluntariamente determinada coisa» significa: que sem a minha autorização, essa coisa não teria acontecido. É acção minha o que não teria acontecido se eu não tivesse querido que acon­tecesse. A essa possibilidade de fazer ou não fazer, de dar o «sim» ou o «não» a certos actos que dependem de mim, é que podemos chamar liberdade. E, por certo, chegando à liberdade não resolvemos todos os nossos problemas mas tropeçamos com questões ainda mais difíceis."
Fernando Savater; As perguntas da Vida, cap. A liberdade em acção, Págs 141/143