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Cultura viva, cultura-mundo - por Manuel Maria Carrilho

Para agir é necessário compreender o sentido, ou os vários sentidos, do que acontece. Esta compreensão está hoje, contudo, muito refém da atualidade, que tanto condena os cidadãos ao atordoamento ( isto é, à inflação de notícias sem a correspondente capacidade para as organizar, hierarquizar ou metabolizar), como condena a democracia à desvitalização (isto é, ao cumprimento cada vez mais indolente das suas formalidades democráticas mínimas).
Gilles Lipovetsky é um dos pensadores do nosso tempo que mais persistente e talentosamente têm contribuído para que se ultrapasse este estado de coisas. Todos os seus livros, todos os seus artigos, todas as suas intervenções são chaves preciosas para uma efetiva compreensão do nosso tempo e dos seus tão múltiplos como inéditos problemas. (...)
A desagregação da sociedade, a alteração dos costumes, a afirmação do indivíduo, o consumo de massa, todos estes fenómenos decorriam de um novo processo que, segundo Gilles Lipovetsky, se situava no cerne de todas as lógicas da contemporaneidade: a personalização. Com ele, tudo se reformula, nos seus traços mais gerais como nos seus mais ínfimos pormenores: as opções, as normas, os comportamentos, as tradições, as instituições. (...)
Toda a obra de G. Lipovetsky, desde A Era do Vazio até ao recente L"esthétisation du Monde, é a história da sua obsessiva atenção ao contemporâneo e às suas mais paradoxais metamorfoses. Essa atenção focou-se entretanto, dando origem a outros tantos livros, no significado civilizacional da moda, nas metamorfoses do feminino, no labirinto do dever e do seu crepúsculo, nas diversas facetas do luxo, na busca da felicidade, na emergência da hipermodernidade ou, ainda, na transformação da cultura, na estetização do mundo e no capitalismo artista. Foi justamente todo este percurso que a Universidade de Aveiro decidiu consagrar ontem, atribuindo a Gilles Lipovetsky o doutoramento honoris causa, honrando-me com o convite para ser o padrinho dessa consagração, que foi também para mim a de uma já antiga amizade.
(...)  O que Lipovetsky propõe é que se olhe para o modo como a cultura - em estreita articulação com as principais alterações económicas, sociais e civilizacionais da globalização - se transformou nas últimas décadas. É um livro que deixa no horizonte vários desafios, nomeadamente o da urgente necessidade de se repensarem as políticas culturais, bem como a sua relação com a educação.
A tese de Gilles Lipovetsky é que, ao globalizar-se, a cultura-mudou tanto de forma como de estatuto, sob o efeito simultâneo e convergente de cinco fatores: o capitalismo planetário, as indústrias culturais, o consumismo, o impacto da mediatização e a generalização das redes digitais. O processo que G. Lipovetsky põe em destaque tem duas dimensões sempre intimamente ligadas: enquanto, por um lado, se desenvolve a mercantilização da cultura, por outro, alarga-se a "culturalização" das mercadorias.
Com a cultura-mundo, o mercado impõe um imaginário de competição e de consumo a todas as atividades, levando a cultura a industrializar-se sob múltiplas formas, os media e as redes digitais a tornarem-se operadores incontornáveis da perceção - e da criação - do mundo, ao mesmo tempo que a dinâmica individualista dá a este conjunto de fatores uma configuração inédita.
Tudo isto tem efeitos extremamente controversos, que convergem numa grande desorientação e que colocam grandes desafios à cultura. E, aqui, Lipovetsky destaca três: o primeiro tem que ver com as novas articulações que se desenvolvem entre a cultura e a economia, onde na verdade se tem aberto um novo continente. O segundo decorre dos efeitos da mercantilização da cultura, com particular incidência em fenómenos como o da infantilização dos consumidores, o do empobrecimento intelectual dos conteúdos culturais ou o dos riscos que corre a criação. O terceiro aponta para o modo como, sob a pressão da globalização, acaba por ser no âmbito da cultura que explodem os grandes antagonismos do nosso tempo: das guerras da memória até à reivindicação das identidades, das fricções da laicidade até à multiforme irrupção do religioso, da defesa das línguas até aos conflitos de valores.
Emerge assim um novo imperativo: o de, diz G. Lipovetsky, civilizar a cultura mundo. O que exige várias coisas: uma verdadeira aposta na inteligência e na criatividade, concebidas sobretudo em termos de qualidade. Uma outra familiaridade com a história e com as suas lições. Um novo paradigma de abordagem da escola e das suas missões. Um novo conceito e uma nova exigência em relação à cultura em geral.
(...)
Manuel Maria Carrilho in dn.pt