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As opiniões dos filósofos valem todas o mesmo? (Entrevista a Desidério Murcho)

Os filósofos têm opiniões diferentes entre si. Pensa que valem todas o mesmo ou há umas melhores do que outras?

Compete a cada um julgar. Do meu ponto de vista há filósofos particularmente pobres, cujas ideias são pouco sofisticadas, revelando muitas vezes uma grande ingenuidade. Mas, independentemente desta ideia polémica, é absurdo pensar que todas as opiniões dos filósofos valem o mesmo. Afinal, há músicos melhores do que outros, tal como matemáticos e historiadores. Por que razão só no caso dos filósofos seriam todos iguais?
A razão compreende-se quando se vê o estado a que chegou o ensino da filosofia no nosso país. Os licenciados não contactaram com os grandes filósofos clássicos de um ponto de vista filosófico; apenas leram vagamente alguns "textos" desadequados, sem terem a necessária preparação filosófica, e sem que lhes fosse permitido avaliar criticamente esses "textos". É como se alguém me desse "textos" clássicos de medicina para eu ler. Como nada sei de medicina, iria desenvolver tiques perfeitamente previsíveis: iria pensar que todos os "textos" estão a par, porque não tenho a formação médica para os avaliar e distinguir; se eu fizesse alguma distinção seria meramente pessoal e emocional, e baseada em aspectos literários laterais desse "textos" e não nas ideias que eles exprimem; e tudo o que eu poderia fazer para imitar a discussão das ideias desses "textos" seria uma vaga associação de ideias e jogos de palavras com base neles; os pontos fundamentais iriam escapar-me, precisamente porque não tenho formação em medicina. E iria então desenvolver a ideia da incomensurabilidade e de que é tudo igual a tudo. Parece-me claro que isto é um escândalo. Que seja o habitual nas nossas escolas apenas sublinha o quanto há a fazer para dignificar o ensino da filosofia entre nós.

Como podemos saber que a opinião de um filósofo é melhor do que a opinião de outro filósofo?

Pensando. Curiosamente, pensar, essa actividade central em filosofia, é a actividade menos praticada nas nossas escolas. Pensar é comparar, discutir, argumentar; levantar objecções e contra-exemplos, saber responder a dificuldades. Assim, o ensino de qualidade da filosofia prepara o estudante para comparar as ideias de Kant com as de Mill sobre a ética, por exemplo, e decidir por si qual é melhor. Para isso precisa de instrumentos; precisa de conhecimento histórico e conceptual; e precisa de saber discutir ideias, de estar aberto à discussão, de saber reagir a objecções. Quando abrimos o nosso ensino à discussão de ideias formamos cidadãos desdogmatizados, que sabem pensar por si, dispostos a mudar de ideias se forem incapazes de defender as ideias que têm, com capacidade para avaliar ideias alheias com imparcialidade, vendo os seus pontos fracos e os seus pontos fortes. Mas o que temos hoje é o inverso disto; as opiniões dos filósofos são sagradas, como se a filosofia fosse religião e os filósofos Papas infalíveis. É preciso sair desta menoridade cultural e ter a coragem de começar a ensinar nos nossos estudantes a discutir as ideias dos grandes filósofos clássicos, tanto antigos como contemporâneos.
Desidério Murcho in http://filosofia.esmtg.pt