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Há algo a acrescentar às opiniões dos filósofos? (Entrevista a Desidério Murcho)

Há quem considere que as opiniões dos filósofos já são todas antigas e que agora pouco há a acrescentar. Concorda?

Essa ideia só pode derivar de um profundo desconhecimento da filosofia contemporânea. Seria como dizer que a música morreu, ou a pintura, ou a matemática. Pelo contrário, nunca se fez tanta filosofia e com tanta qualidade como hoje. Tal como nunca se fez tanta música, pintura e matemática como hoje.
É evidente que as ideias dos filósofos contemporâneos devem muito aos filósofos do passado; tal como as ideias dos físicos devem muito às ideias dos físicos do passado. Se não nos apoiássemos no legado que os nossos antecessores nos deixaram teríamos de partir do zero a cada nova geração, e portanto não poderia haver progresso. Ora, é deste facto que surge um mal-entendido: uma pessoa sem formação adequada em filosofia lê um filósofo contemporâneo e fica com a ideia falsa de que afinal são as mesmas ideias do que as de Kant ou Platão ou Tomás de Aquino. Mas isto é só uma distorção, só porque os filósofos contemporâneos, pelo menos os filósofos tradicionais, discutem muitos dos mesmos problemas discutidos pelos filósofos clássicos.

Pensando nos alunos do secundário, estarão eles condenados a repetir as opiniões dos filósofos ou ainda há espaço para terem as suas próprias opiniões?

Não há falta de espaço. Mas falta formação adequada, por parte dos professores, para saberem dar esse espaço e fazer da disciplina aquilo que deve ser: o lugar crítico da razão, como costuma ser enganadoramente apregoado. Pela sua própria natureza, a filosofia morre se não se permitir o debate de ideias; se as opiniões dos estudantes forem silenciadas na disciplina de filosofia, e se a disciplina não cumprir o seu papel de ensinar a ter opiniões informadas e fundamentadas, onde se vai aprender tal coisa? Nos reality-shows da tonta televisão para o povo? Nos jornais? Mas onde aprenderam essas pessoas a discutir opiniões? E onde aprenderam elas a ter opiniões? Ironicamente, em países onde não há filosofia no ensino secundário os estudantes contactam mais com a disciplina do que em Portugal - porque nas outras disciplinas os professores não fogem à discussão dos aspectos filosóficos relevantes com os seus alunos. Mas isso só pode acontecer porque há departamentos de filosofia fortes, cujos professores são filósofos de renome internacional, que publicam livros todos os anos, quer tratados avançados quer livros introdutórios, o que eleva o nível geral da proficiência pública com respeito à discussão de ideias em qualquer área.
Há até uma razão pedagógica ou psicológica para encorajar as opiniões dos estudantes. Quando se pede a um estudante um mero relatório impessoal sobre a teoria kantiana da moral, por exemplo, ou a teoria cartesiana do cogito, estamos a dificultar-lhe o trabalho. Precisamente porque a cognição e a aprendizagem está profundamente ligada a aspectos emocionais, é muito mais fácil começar por perguntar ao estudante o que pensa ele de um determinado problema, que pode ser colocado em termos perfeitamente a-históricos. Ao ser pressionado para ter uma opinião, o estudante é obrigado a sair do domínio impessoal e frio do relatório escolar - tem de dar a sua opinião. E ao tentar fazer isso verifica que a sua opinião será tanto mais rica quanto mais informação ele tiver do que disseram os grandes filósofos sobre esse problema, e quanto mais souber fundamentar a sua opinião com argumentos sólidos. Assim, o estudante fica motivado para estudar filosofia; a sua motivação é ter melhores bases para ter uma opinião mais rica - em suma, estamos a estimular-lhe a curiosidade, que é o elemento sem o qual não pode haver vida escolar ou intelectual de qualidade. Não se pode fazer trabalho intelectual ou escolar de qualidade com o mesmo espírito com que se varre o chão ou se limpa o pó. É necessário ter uma genuína curiosidade ardente pelo que se está a estudar. E compete ao professor estimular essa curiosidade.


O que é que fazemos com as nossas opiniões filosóficas?


Partilhamo-las. Avaliamo-las criticamente. Comparamo-las com as opiniões dos grandes filósofos clássicos, de ontem e de hoje. Abrimos pontes de diálogo. Respondemos a objecções. Isto é o contrário do que nos ensinaram a fazer: a enclausurarmo-nos na ideia tonta de que as nossas opiniões filosóficas são pessoais e incomensuráveis, como gostos que não se discutem. Mas os gostos e as opiniões são a única coisa que se discute; com certeza não vale a pena discutir factos. A falácia é pensar que ou é tudo completamente objectivo e insusceptível de discussão, ou então é tudo completamente subjectivo e como tal também insusceptível de discussão. O mundo é mais complexo do que isto. A verdade está no meio. Não é tudo objectivo nem é tudo subjectivo; a maior parte das nossas opiniões são uma mistura das duas coisas. E só nos aproximamos da objectividade e de uma subjectividade mais rica e humana através da discussão desempenada com os outros.

Desidério Murcho in http://filosofia.esmtg.pt