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O que têm de especial as opiniões dos filósofos? (Entrevista a Desidério Murcho)

«Quando se começa a ler a imensa bibliografia filosófica contemporânea repara-se que afinal a Filosofia não morreu»

Num certo sentido, nada têm de especial; como todas as opiniões de especialistas, sejam eles músicos ou físicos, são opiniões particularmente importantes, a que devemos dar atenção. Mas há dois aspectos em que o tema das opiniões é particularmente importante no ensino da filosofia.
O primeiro é que acontece com o bom ensino da filosofia o que não acontece com o ensino de outras disciplinas: o que se pede aos estudantes é que formem uma opinião. Este aspecto singular da disciplina apanha muitos professores de surpresa; não sabendo reagir a este aspecto, refugiam-se na história da filosofia ou no repetitorium das ideias dos filósofos - até porque não saberiam avaliar as opiniões dos estudantes, que têm tendência para pensar que, como todas as opiniões, são pessoais e insusceptíveis de ser avaliadas. Mas isto é uma confusão. A opinião que se pede a um estudante de filosofia é como a opinião que se pede quando vamos ao médico: é uma opinião, mas uma opinião informada e fundamentada. E no caso da filosofia o que se avalia é precisamente são precisamente esses dois aspectos. Assim, perguntamos ao estudante que opinião tem ele sobre a existência de Deus, por exemplo, ou sobre a teoria kantiana da moral. Mas o que avaliamos é o seguinte: 1) se essa opinião reflecte um conhecimento sólido dos aspectos mais importantes do que está em causa, conhecimento este que tem dois aspectos: um aspecto histórico (é necessário conhecer com rigor as ideias dos filósofos clássicos) e um aspecto filosófico (é necessário dominar os aspectos conceptuais do que está em causa). E 2) se o estudante consegue defender solidamente a sua ideia, com argumentos adequados, sem deixar de responder aos argumentos contrários estudados. Quando se tem esta visão clara do ensino da filosofia a nossa perplexidade desaparece. De facto, ao contrário do que acontece no ensino da física ou da história, em que seria bizarro pedir uma opinião a um estudante do secundário, ensinar a ter uma opinião sólida sobre os problemas, teorias e argumentos da filosofia é o núcleo desta disciplina.
O segundo aspecto é a ideia de incomensurabilidade que atacou as nossas escolas e universidades. Por falta de uma formação filosófica adequada, chega-se ao fim de uma licenciatura em filosofia com a noção errada de que "cada filósofo é uma ilha" - cada filósofo tem as ideias que tem, que são "coerentes em si", mas que é despiciendo levar a sério e discutir como se fossem ideias susceptíveis de ser realmente verdadeiras ou falsas, plausíveis ou implausíveis. Escusado será dizer, esta visão da filosofia, associada às correntes pós-modernistas da "Morte da Filosofia" é mesmo o fim da disciplina, que deixa de fazer qualquer sentido numa escola - se a filosofia "morreu" nada mais resta do que fazer a sua história. Mas quando se começa a ler a imensa bibliografia filosófica contemporânea repara-se que afinal a filosofia não morreu; e quando se lêem os muitos bons livros de introdução à filosofia que há por esse mundo fora, percebe-se que afinal é possível ensinar filosofia de cabeça levantada, fazendo da filosofia verdadeiramente o lugar crítico da razão, aprendendo a avaliar cuidadosamente as ideias dos grandes filósofos clássicos - tomando-as não como particularidades pessoais, incomensuráveis e intransmissíveis, mas como ideias oferecidas à humanidade para serem encaradas como tentativas sérias de responder a problemas humanos que nos preocupam.

Desidério Murcho in http://filosofia.esmtg.pt