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Argumentar e explicar - descobrindo a diferença

Tendo chegado a este ponto, há uma tendência para ver argumentos em toda a parte, e mesmo para classificar como argumentos coisas que realmente não são, de todo, argumentos, apesar de poderem parecê-lo. Por exemplo, por vezes um orador está meramente a relatar um facto ou a apresentar uma crença, mas não a argumentar a seu favor. Um dos mais comuns tipos de casos em que algo pode ser tomado por um argumento quando realmente não o é são as explicações. Suponhamos, por exemplo, que Larry e Sandra vêem o seu cão a coçar-se. Ele pergunta-lhe:
— Por que está o teu cão a coçar-se?
E ela responde:
— Está a coçar-se porque tem uma pulga.
Neste caso, Sandra ofereceu a Larry uma explicação. Ambos vêem que o cão está a coçar-se, e ela explica por que razão está a fazê-lo. O acto de fala de Sandra pretende claramente ser uma explicação. Mas, de certo modo, parece poder tratar-se de um argumento. Sandra está a dar uma razão pela qual o cão está a coçar-se, e usa, inclusivamente, a palavra “porque”, o que pode, por vezes, ser um indicador de argumento. Como poderemos, nesse caso, identificar as explicações, contrastando-as com os argumentos e, consequentemente, evitar confundir os dois? Afinal, se algo não é de modo algum um argumento, seria um erro grave acusá-lo de ser um mau argumento, pretendendo que falha os critérios requeridos por um bom argumento.
Mostrámos anteriormente que o propósito de um argumento é oferecer uma razão para sustentar uma crença apresentada por uma das partes num diálogo. Essa crença é, por vezes, aquilo de que duvida quem responde, no contexto do diálogo. É uma proposição que está em debate ou que não foi estabelecida. Supostamente, um argumento apresenta uma boa razão para que quem responde acabe por aceitar essa proposição como verdadeira, removendo assim a dúvida. O propósito de uma explicação é ajudar quem interroga, que não compreende algo. Assim, o conceito de explicação, tal como o de argumento, baseia-se no diálogo, no sentido em que envolve uma troca conversacional entre dois participantes. No caso em que quem responde oferece uma explicação a quem pergunta, uma certa função deve ser cumprida. Para a explicação ser útil, deve cumprir uma função de clarificação, o que significa que deve ajudar quem pergunta a compreender algo que não compreendia antes. Uma explicação útil deve tornar claro o que era duvidoso para quem pergunta, exprimindo-o em termos com que este está familiarizado ou que já compreende. Num diálogo, um pedido de explicação toma a forma de uma pergunta que pede ajuda para compreender algo.
Há diferentes tipos de perguntas que caracteristicamente funcionam como pedidos de explicação. Uma é a pergunta “Como?” Se, por exemplo, não compreendo como funciona um certo computador, posso perguntar a alguém “Como funciona?” e, fazendo-o, estaria a pedir uma explicação acerca de como funciona. Não estaria a pedir a essa pessoa que provasse que o computador funciona, ou que usasse um argumento para me mostrar que funciona. Estaria, sim, a pedir ajuda para compreender como funciona. Sucede também frequentemente que a pergunta “Porquê?” é usada como incitamento a uma explicação. Posso, por exemplo, perguntar ao leitor:
— Por que parece o céu azul, visto da superfície da Terra?
E pode então o leitor dar-me uma explicação. Pode dizer, por exemplo:
— Os raios da luz do Sol são difundidos por partículas na atmosfera de tal maneira que a parte azul do espectro é activado quando a luz atinge os nossos olhos, se olharmos para o céu.
Tal explicação pode ser bastante complexa, e pode envolver um considerável número de inferências de umas proposições para outras a elas ligadas.
Assim, as explicações parecem, frequentemente, semelhantes a argumentos. Tanto as explicações como os argumentos consistem em grupos de afirmações em que algumas delas são tomadas como pontos de partida e conduzem a outras, que são pontos de chegada. Contudo, quando lidamos com explicações, não usamos os termos “premissas” e “conclusões”. Em vez disso, há uma proposição que é investigada ou que é suposto ser explicada. O propósito de uma explicação não é dar uma razão para a outra parte aceitar que essa proposição é verdadeira. O propósito de oferecer uma explicação é tomar essa proposição que o respondente não compreende e clarificá-la, relacionando-a com outras proposições com que ele está familiarizado e pode compreender. Assim, as explicações são diferentes dos argumentos, porque têm propósitos diferentes num diálogo. O objectivo de uma explicação não é convencer ou persuadir uma das partes de que uma dada proposição é verdadeira, mas sim exprimir a proposição investigada em termos mais familiares, ou relacioná-la com outro conjunto de proposições que podem ser ligadas de tal modo que possam ser-lhe mais familiares ou compreensíveis.
Douglas Walton - Fundamentals of critical argumentation -  trad. Artur Polónio