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(Des)fazer o mito do Natal


Para os frequentadores do Café Africano, no Dafundo, ele é “o Pai Natal”. Ninguém sabe em que rua ele vive ou qual o seu verdadeiro nome. É a primeira vez que o vejo e já anseio por lhe tirar o retrato. Quase tudo no Pai Natal é raro: a longa barba branca, a malinha de couro batido, a gravata azul com jogadores de golfe bordados. Ele lembra-me Walt Whitman. Não que eu tenha conhecido o homem, mas o facto é que me lembra. O Pai Natal parece-me absolutamente inacessível, mergulhado em algum arcano que apenas os Iniciados sabem ler entre as linhas de um jornal diário. Penso numa forma de o abordar, mas chega alguém da rua e senta-se à sua frente. Tresanda a vinagre de tinto e não se cala. O Euclides diz-me que é “um chato”. O Pai Natal não o olha sequer. Levanta-se devagar e começa a arrumar as suas coisas – os óculos, a caneta, o bloco-notas – na malinha. É o meu momento. Digo-lhe que tem uma barba extraordinária e que gostava de lhe tirar o retrato. Ele devolve-me um grande sorriso e aceita. Acabo por fazer uma meia-dúzia de instantâneos. Digo-lhe que lhe deixarei uma impressão com o Euclides. Ele diz que tem pena de que eu não o tenha fotografado com os seus óculos – um par de grandes lentes laranja aprisionadas numa armação muito grossa. Tiro-lhe o retrato com os óculos, mas não lhe escondo que prefiro vê-lo sem eles. Ele responde-me como só um filósofo o faria. “Não consigo ver-me ao espelho sem os óculos”, diz; “logo, sem os óculos eu não existo”.
Informa-me hoje o Euclides que entregou a fotografia; e que, não obstante a falta dos óculos, o Pai Natal ficou “mesmo muito satisfeito” com ela.

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