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(Não) Nascer Assim - Natal Solidário

Chegados a Dezembro impõe-se falar de Natal.
(E quem diz falar, diz escrever!)
E por mim, podia ser Natal todo o ano. Não só porque gosto do convívio em família em torno da mesa, nem mesmo só porque ganho em média 5 quilos de felicidade a cada Natal que passa, mas porque parece que por estas alturas as pessoas “acordam” para os dons da bondade, fraternidade e solidariedade.
E quanto mais não fosse, só por isso, já valia a pena que fosse Natal todo o ano!
Imbuídos do espírito solidário, que gostamos de sentir e viver lá por casa (sempre que nos é possível), desta feita, aproveitando a deixa e a idade da mais pequena, decidimos incluí-la na seleção e recolha de brinquedos e roupas usadas, mas em bom estado, que decidimos dar a quem mais precisa.
Não o fazemos só no Natal, mas por norma, por esta altura, o coração aperta com o frio que se faz sentir e os sacos alargam-se para caber a maior parte da recolha que fazemos.
Até este ano, e porque achávamos que a mais pequena ainda não tinha maturidade para “encaixar” os conceitos que envolvem o ser solidário, acabámos por fazê-lo sempre sem o conhecimento dela. Assim, os brinquedos e roupas que iam “desaparecendo” lá de casa, faziam-no pelas artes mágicas do Natal, sem ela dar por nada.
Mas este ano fizemos diferente! Achámos por bem inclui-la nas recolhas e animámo-nos com a ideia de a ver tão entusiasmada quanto nós, enquanto selecionava as peças que mais tarde fariam tantos meninos, como ela, felizes!
Mas a coisa deu para o torto.
Assim que ela se apercebeu que iria ter de ficar sem as coisas “dela” para que outros as pudessem “ter”, o ego dela “explodiu” e ela também.
Pois… É que o princípio de ajudar o próximo é muito bonito e tal, e ela até concordou logo à primeira que gostava de puder fazer muitos meninos felizes, com coisas que a ela já não faziam grande falta, mas a verdade, verdadinha, é que a solidariedade não nasce connosco! E o facto de o próximo, não ser tão próximo assim, também não ajudou à questão.
E nós, que estávamos crentes que ela iria aderir à primeira, quase tivemos de a pôr de castigo, “a pensar na vida”, para que ela caísse na realidade de que o mundo não gira em torno do seu próprio umbigo.
Assim, e por muito chocante que isto vos possa vir a parecer, como a mim me pareceu também, eu apercebi-me que realmente a solidariedade, embora infinitamente valiosa é “contra-natura”, no sentido em que não faz parte do nosso instinto. E foi por isso que eu percebi também o quão importante é, desde cedo, incutir estes valores nas crianças e fazê-los perceber que com pequenos gestos, podem operar grandes mudanças!
Mas para que isso possa realmente vir a crescer dentro dos nossos filhos é preciso plantar a semente desde pequeninos e assim como os alimentamos com nutrientes e vitaminas, a bem da saúde deles, devemos alimentá-los de bons valores e bons “instintos” desde cedo, a bem da sua formação.
Acabámos por conseguir “convencê-la” e conseguimos a colaboração dela, que acabou inclusivamente e num balanço final por superar as nossas expectativas, depois da hecatombe da desilusão que tivemos com a sua resistência inicial.
Alguém me dizia esta semana, a propósito destas questões, que o ser solidário/voluntário também era uma forma de se ser egoísta, no sentido em que fazemos o bem, para nos sentirmos bem. E eu tenho de concordar, mas também confesso, que não conheço melhor forma de se ser egoísta, do que darmos de nós aos outros!
Educar para este tipo de egoísmo é uma educação que merece ser pensada.
Sílvia Martins in acorianooriental.pt