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Onésimo Teotónio Almeida, Honoris Causa pela UA

Académico, ensaísta, autor de contos e crónicas, Onésimo Teotónio Almeida, professor da Brown University, EUA, cultiva e vive, através da escrita e da investigação, a teia de relações que estabeleceu entre as suas raízes nos Açores, a comunidade emigrada nos EUA, a vida académica, Portugal e o mundo. Na Brown, uma das mais prestigiadas universidades norte-americanas, completou o MA e o PhD, ambos em Filosofia, e tornou-se professor. “Rideo, ergo sum” - “Eu rio, logo existo” - afirma, sobre si próprio, no título de uma das suas crónicas. A Universidade de Aveiro (UA) atribui ao professor o Doutoramento Honoris Causa na Cerimónia Comemorativa dos 40 anos da instituição, a 16 de dezembro. Algo que considera inesperado, mas "bonito" e criador de um vínculo mais forte à UA.
  • Não querendo forçar, neste momento, a elaboração de um ensaio nem de uma resposta demasiado longa, como acha que um filósofo e ensaísta que reflete sobre o papel inovador dos portugueses no pensamento empírico e na modernidade e sobre identidade nacional, pode contribuir positivamente para o momento difícil que o país atravessa?
- Pobre de mim, como dizia Fernão Mendes Pinto. Que posso eu fazer pelo país? Só continuar o que tenho procurado fazer ao longo da vida e disponível para fazer o que me for sendo possível. Como não sou político nem pretendo concorrer a nenhum cargo público, não tenho de fazer promessas. Como sou de antigos hábitos, não gosto de alardear o que faço, que é o que está ao meu alcance e dentro das minhas possibilidades e, além disso, quando me pedem, porque não devo intrometer-me a não ser quando isso me é solicitado. Infelizmente, neste momento o país precisa de alguns milagres e eu não trabalho nesse departamento.
  • É notória, na formação dos portugueses, a falta de pensamento filosófico? Em que sentido? Que sugere neste aspeto?
- O pensamento propriamente filosófico é menos importante do que o pensamento crítico, embora me pareça que os dois devam ser sinónimos. Não vou dizer que não existe pensamento crítico em Portugal porque isso seria falso e, além do mais, presunçoso. Todavia, no nosso ensino ainda predomina muito a influência de uma tradição que privilegiou durante séculos a erudição sobre a análise crítica de questões. Isso nota-se aos mais variados níveis. Claro que é difícil transmitir às novas gerações hábitos de pensar mais rigorosos e críticos quando as gerações formadoras ainda apreciam esse outro mais tradicional modo de ser. Por isso, as transformações a esse nível demoram muito. Não creio, porém, que sejam impossíveis.
  • A Filosofia pode (deve?) fazer um esforço para chegar mais próximo das pessoas? Ou seja, a Filosofia pode contribuir também para resolver os problemas da vida quotidiana, como defende Alain de Botton? Ou, pelo contrário, o papel da Filosofia não é, de todo, esse?
- Uma área da Filosofia, a Ética, desde sempre se dedicou por inteiro às relações interpessoais. Pelo menos aí há uma grande aplicabilidade do trabalho filosófico a inúmeras áreas da vida. Mas há outras áreas, como essa que referi da transmissão de uma capacidade analítica e crítica, que nos permite avaliar situações e problemas com discernimento, passo fundamental para se agir com acerto.
  • O humor pode contribuir positivamente para esse momento difícil? Como? É possível educar os portugueses para um humor menos sarcástico (que, na sua opinião, é caraterístico em Portugal) e mais construtivo?
- O humor pode de facto ajudar-nos a recuperar um pouco de sanidade mental. Não resolverá as questões reais, mas poderá fazer-nos menos deprimidos. Existe, entre os portugueses, uma tendência depressiva que se contrapõe a uma tendência eufórica noutros períodos. O sentido de humor favorece uma certa distância crítica e autocrítica e isso é um passo saudável para o restabelecimento de uma certa sanidade psicológica, passo importante para se poder funcionar onde quer que seja. 
Sim, na verdade a tendência que preferencialmente exibimos é a sarcástica, que é produto de um envolvimento emocional forte, o que não permite a ironia. É muito desgastante e destruidor e, além disso, quando em excesso, cria mau relacionamento social desfavorecendo a cooperação e aumentando a desconfiança.
  • Conhece bem os dois universos académicos (americano e português), sendo que, lecionando na Brown (uma das melhores universidades dos USA já que pertence à “Ivy League”), tem consciência de evoluir num “microcosmos” privilegiado, no qual a “excelência” não será uma mera palavra. É possível estabelecer paralelismos, comparações, entre estes dois universos?
- Sim, tenho consciência de trabalhar num ambiente altamente privilegiado que vai desde os recursos humanos (a alta qualidade dos alunos, por exemplo) aos recursos materiais (bibliotecas, apoio tecnológico, espaço físico), tudo assente numa longa tradição de há séculos – a Brown vai comemorar para o ano os seus 250 anos. É a sétima universidade mais antiga do país e precede, em doze anos, a independência dos EUA. A situação não é replicável em Portugal mas estou convencido de que há muito de transmissível. E muito tem sido, aliás, adotado, se bem que nem sempre o melhor. Há universidades portuguesas que evoluíram bastante. A UA, por exemplo, fez uma caminhada imensa em apenas quarenta anos. Não estou a dizer isso para ser simpático, pois estes dados são do domínio público.
  • Imagina-se a lecionar numa universidade portuguesa? Pensa que seria a mesma pessoa? Seria o mesmo “scholar”?
- Em Portugal sinto-me perfeitamente em casa, mas é precisamente na universidade que me sinto menos. Estou habituado a um envolvimento maior dos alunos, desde a presença quase infalível nas aulas até à participação ativa nelas, em debates ricos porque informados, pois os alunos em regra leem o que está indicado no programa para o dia. Dar uma aula assim nunca é cansativo; pelo contrário, é uma fonte de prazer. Saio da sala sempre energizado (passe o neologismo).
  • Como reage perante as restrições orçamentais que as universidades e a investigação sofrem, de há uns tempos a esta parte, em Portugal?
- Com desencanto. Não se pode fazer muito sem dinheiro. As melhores universidades americanas funcionam bem porque souberam, desde muito cedo, criar fontes de recursos financeiros à margem do orçamento do Estado. Claro que as universidades privadas fazem isso com muito mais facilidade e fizeram-no, aliás, por essa ter sempre sido a garantia da sua sobrevivência e independência. A longo prazo isso tem beneficiado imenso o seu crescimento. É sobretudo nesse domínio que as realidades entre os dois países não são comparáveis. Mas não vejo onde se possa cortar mais no sistema universitário português. Em Portugal, as privadas, com algumas notáveis exceções, cresceram com vícios porque na altura do seu aparecimento respirava-se uma visão demasiado utópica (o termo certo era “mal informada” e mesmo “leviana”), do tipo de sociedade que o futuro reservava a Portugal, algo como os “amanhãs que cantam” prometidos pelos comunistas, mas com total liberdade, sem trabalho e muitas viagens. A única vantagem que vejo na crise atual é a de uma limpeza no sistema. A pena é que alguns males estão já tão enraizados que, neste processo de contração, instituições que merecem ser apoiadas estão a ver retirar-se-lhes pedras fundamentais aos seus alicerces.
  • Qual o significado, para si, da atribuição do Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Aveiro?
- Primeiro do que tudo, trata-se de algo para mim completamente inesperado. Segundo, tenho ao longo das últimas duas décadas colaborado a vários níveis com a UA, mas nunca fiz nada que merecesse tanto reconhecimento. Por isso, tomo o bonito gesto da Universidade como criador de um vínculo que me deixa agora com a obrigação moral de colaborar com a UA no que eu puder. É que agora passo a ser filho da casa e com deveres familiares inerentes.
(Entrevista do @ua_online publicada, em simultâneo, no Diáriio de Aveiro)