Avançar para o conteúdo principal

O criticismo Kantiano

Se para os realistas o que conhecemos são as coisas mesmas tal como são, e para os idealistas conhecemos as ideias das coisas, para Kant, nem uma, nem outra. Não conhecemos as coisas em si mesmas nem conhecemos as ideias: conhecemos, pois, fenómenos (do grego Phainómenon, “Aparência”). Fenómenos são as coisas tal como aparecem ao sujeito da experiência possível; o que elas são em si mesmas está-nos epistemicamente vedado. Só pela acção representativa da espontaneidade do entendimento humano é que um fenómeno (a coisa tal como nós a apreendemos) se torna conhecimento, isto é, adquire significado epistemológico para nós. 
Quer isto dizer que o conhecimento é essencialmente representação, mas não a representação pura (vazia de conteúdo empírico) dos idealistas; é antes uma representação de algo que foi dado na experiência. As ideias, para Kant, ultrapassam o domínio da experiência e, por isso mesmo, não são cognoscíveis. O que Kant nos diz é que, contra o realismo, o conhecimento não é a percepção imediata das coisas exteriores tal como são na sua essência nem, contra o idealismo, a apreensão pura das ideias. Para se conhecer são precisas as coisas exteriores e a acção representativa do sujeito. A natureza do conhecimento deve, desta forma, tanto à sensibilidade como ao entendimento. 
(...) Pensar é, pois, uma actividade do sujeito; mas para pensar, o sujeito precisa de algo sobre o qual pensar. Ora este algo sobre o qual o sujeito pensa é aquilo que lhe é dado no contacto com a realidade exterior, isto é, são os fenómenos. Estes, depois de recebidos, vão ser pensados no entendimento e representados sob um conceito, por exemplo, mesa. Quando atrás colocámos a questão relativamente àquilo que conhecemos, se coisas ou ideias, agora podemos responder de uma nova forma: conhecemos fenómenos. 
O problema que subjaz a esta questão é o de saber até que ponto podemos ou não conhecer algo, isto é, podemos em algum momento ter um conhecimento verdadeiro das coisas em geral, ou apenas um conhecimento aproximado? E será que todas as coisas se prestam ao mesmo grau de conhecimento, ou podemos conhecer umas coisas e outras não? É o conhecimento, afinal, possível? 
Estas questões que podem parecer absurdas resultam de posições teóricas aprofundadas ao longo de séculos e que, como veremos, levantam problemas preocupantes que nos passam despercebidos. Por força do hábito, agimos no dia-a-dia em conformidade com certezas que quando analisadas mais profundamente deixam de o ser. Se estivermos conscientes que todo o acto epistémico é uma relação sujeito – objecto, essas certezas desmoronam-se face ao problema da correspondência de um com o outro. Afinal, quem nos garante que aquilo que está na nossa cabeça corresponde àquilo que está fora dela? Podemos alguma vez ter essa certeza? Se não podemos, que valor tem o nosso conhecimento? 
Perguntar, pois, pelo valor ou alcance do conhecimento equivale a perguntar se o sujeito toca a realidade exterior, quer dizer, se há alguma comensurabilidade entre sujeito e objecto. À anterior questão responde afirmativamente uma posição que chamaremos dogmatismo; e negativamente o cepticismo. Uma outra alternativa é, no entanto, apresentada pelo criticismo. (...)
O criticismo é um método de análise filosófica dos limites do conhecimento humano. Instaurado por Kant nos finais do séc. XVIII, concilia as posições dogmática e céptica. Tal como o idealismo transcendental compatibilizava o realismo com o idealismo, o criticismo vai fazer a ponte entre o dogmatismo e o cepticismo tentando, desta forma, em vez de uma antítese insolúvel, uma síntese superadora. Ele compartilha com o dogmatismo uma confiança na razão enquanto faculdade capaz de determinar o conhecimento, e compartilha com o cepticismo a desconfiança relativamente a todo o conhecimento determinado. Quer isto dizer que ao mesmo tempo que o criticismo acredita que o conhecimento é possível, ele insta a razão a prestar contas acerca desse conhecimento. O crítico “põe à prova” (do grego Krínein) qualquer afirmação da razão humana, ainda que acredite na sua capacidade para atingir um conhecimento verdadeiro e rigoroso. 
Como vemos, o comportamento de alguém que se diz crítico relativamente à possibilidade do conhecimento não é nem dogmático, nem céptico: é um comportamento continuamente interrogativo acerca dos fundamentos do conhecimento humano e de como a razão chegou a esses conhecimentos, averiguando se são ou não legítimos. Deixando a questão da legitimidade lá mais para a frente, importa, pois, aqui salientar que para o criticismo, tal como para o cepticismo metafísico de Hume, o conhecimento é limitado. As diferenças, porém, são notáveis e iremos retratá-las devidamente a seu tempo. Para já, usemos o conceito condicionado relativamente à forma como o criticismo encara o conhecimento. 

Nuno Filipe de Queirós Pinto in http://repositorio-aberto.up.pt