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A cultura do medo

Está por todo o lado. Vivemos, hoje, num mundo amordaçado pela cultura do medo.
E que medo é este? O medo de perder o emprego, o medo de não encontrar um novo emprego. O medo de errar, o medo de estar na direcção do dedo apontado, o medo de não ser aceite pela sociedade, o medo do comentário e da crítica, o medo de ficar paralisado e recear existir.
Este é hoje um dos maiores males que temos enquanto sociedade. O receio de perder o emprego trava a economia. Esta pressão, ou tensão sobre quem trabalha, este mecanismo da cultura do medo, provoca consequências assaz negativas.
As organizações devem ser ágeis e recrutar os melhores. A já velha história da meritocracia está correcta e é um conceito evidente para todos. E os encostados? Bom. Existem tantos, mas a cultura do medo permite que essas pessoas se mantenham nas organizações. Um feudo de quintas e quintinhas fazendo "manutenção de processos". Ora, não há nada pior para travar um espírito de efectiva inovação dentro de uma organização do que um status quo gasto e ineficiente. É que a mudança significa o desconhecido. E face ao desconhecido sobem as resistências. Mas a base está no medo. O poder de amedrontar os colaboradores provoca o receio de errar, o receio de fazer e o receio de ousar.
E haverá tolerância ao erro dentro das organizações? É sempre uma das principais características enunciadas para a criação de um ambiente fértil de inovação e criatividade. Tolerância ao erro. Mas será assim mesmo? Penso que errar é humano e ninguém está a salvo, mas o saque de dedo rápido para apontar, a crítica e o rebaixamento só tendem a piorar as situações. O que leva a inibições e burocracias estéreis. A fazer sempre o mesmo, da mesma forma, porque tem medo.
As organizações precisam de abertura e sinceridade. De alto a baixo na pirâmide. Se os objectivos organizacionais e individuais forem claros, todos tendem a ganhar.
Isto é válido para o privado e para o público. A motivação é crucial para o sucesso económico. E é mesmo. Não se pense que é do medo que se colherão bons frutos, que se aumentará a produtividade. Haverá melhor incentivo que a consideração e respeito entre colegas e entre chefes? Não será uma política de incentivo à produtividade o elogio? Não o elogio fácil, mas a palavra certa no momento certo? Haverá melhor estimulo à produtividade do que a compreensão e o trabalho em equipa?
Não há.
Ninguém chega a lado nenhum sozinho. Desenganem-se.
É com o trabalho de equipa que se alcança o sucesso. Sem medos, sem receios, aceitando as diferenças e os ritmos diferentes de cada pessoa. A economia vale a pena para as pessoas e não apenas centrada no lucro absoluto ou nos números robustos, na divulgação de contas ao mercado, para investidores verem. Devemos ser produtivos e exigentes. É da exigência que se faz a excelência. Mas não é nem da exploração, nem do medo.
E por tudo isto é crucial que os futuros líderes das organizações encarem o trabalhador como o centro da capacidade produtiva da empresa. A oportunidade de contratar e empregar uma pessoa deve ser vista como um proveito operacional. Se há flagelo de que esta sociedade padece é o desemprego, se há bom combate que vale a pena travar é dotar ou melhorar as competências das pessoas e torná-las úteis. Apesar da descida verificada na taxa de desemprego, dadas as imperfeições das estatísticas, temos ainda um longo caminho pela frente. Nesta senda, que não se pratique o clima de medo, em quem tem hoje emprego. A insegurança laboral só tenderá a gorar expectativas e a ser um factor de retrocesso.
Haja motivação e capacidade de resposta. A receita do medo é o pior inimigo da ousadia e do rasgo. E que falta faz um golpe de asa em todas as organizações.
Diogo Agostinho in expresso.pt