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“A Liberdade é mal distribuída na nossa sociedade” - Debate na Fundação Francisco Manuel dos Santos

3 de Outubro 2014
“A Liberdade pode ser, e é-o muitas vezes, mal distribuída na nossa sociedade”, foi com este alerta
Seyla Benhabib: Conceitos de Liberdade e Igualdade estão “completamente ligados”
Trazendo ao debate, mais do que uma visão meramente académica, esta conceituada pensadora da área da Ciência Política e Filosofia cresceu interrogando-se permanentemente sobre este conceito - ou não fosse oriunda de uma família judaica, perseguida pela Inquisição, em Espanha. Natural de Istambul, Seyla Benhabib evocou nesta sessão uma parte da história do pensamento político sobre “a psicologia moral da Liberdade”, elencando o pensamento de alguns filósofos que se debruçaram sobre este tema. A propósito da experiência de Liberdade dentro do indivíduo e dentro da colectividade, a filósofa lembrou que o pensamento político começa com Platão quando este defende que cada indivíduo tem um intelecto único e deve contribuir com esse seu talento inato para a sociedade. Relevou ainda, e a este propósito, que a tese principal de Aristóteles é a de que o desejo deveria ser educado pela sociedade de tal modo que se fizesse de cada cidadão um bom indivíduo. Seria esta “educação cívica” o caminho único para a igualdade em participação e liberdade de expressão na sociedade. Os conceitos de Liberdade e Igualdade estão, aliás, salienta a pensadora, “completamente ligados”. A estes há ainda que juntar uma terceira dimensão, a Justiça, condição sine qua non para que a Liberdade exista.
Famoso pelas suas palestras e conferências, nesta no CCB, Waldron deixou a convicção de que apesar de todos os ‘ses’ e os ‘mas’ que persistem na União Europeia há um grande feito que este espaço - em que diferentes Estados soberanos se reúnem, pode reclamar como seu: o da livre circulação de pessoas, porque, defende o académico neozelandês, “os Estados não devem afastar os estranhos mas incorporá-los”. E conclui: “Esta é a glória da experiência europeia, a capacidade de pôr em prática uma ideia cosmopolita de Liberdade”.
Dixit
“Apenas numa sociedade justa é possível haver dignidade humana, respeito e liberdade ” – Seyla Benhabib
“A liberdade de acesso a um local onde os sem abrigo possam dormir, onde possam estar durante o dia, onde possam fazer as suas necessidades fisiológicas; estas liberdades básicas não estão na lista dos Direitos Humanos, no entanto, são aspectos essenciais da vida e é uma questão de dignidade que não está resolvida” – Jeremy Waldron
que o académico Jeremy Waldron, Professor de filosofia jurídica e política na NYU School of Law, lançou a discussão na sessão subordinada ao tema: “A Ideia de Liberdade”, rematando que: “Quando tentamos definir uma sociedade da Liberdade temos que pensar, à cabeça, naqueles que têm a sua capturada”. No âmbito do terceiro Encontro Presente no Futuro, que hoje teve início no Centro Cultural de Belém (CCB), a Fundação Francisco Manuel dos Santos convida o país a pensar sobre “o que é, afinal, sermos livres?” E para o professor universitário neozelandês resulta claro que, para lá das “grandes questões” sobre a Liberdade e Igualdade existem, hoje, “liberdades básicas” das quais alguns dos seus concidadãos estão, claramente, privados. A propósito da sua investigação sobre a comunidade dos sem abrigo na Califórnia – junto à sua zona de residência, na Baía de São Francisco – o académico sublinha a privação de liberdade em que aqueles homens (sobre)vivem, para fazer coisas tão simples como terem livre acesso a um local para se deitar ou, simplesmente, fazer as suas necessidades fisiológicas. “Isto não está, certamente, na lista dos Direitos Humanos. No entanto, são aspectos essenciais da vida e é uma questão de dignidade”, sublinhou. O professor da NYU School of Law salienta que estes aspectos (básicos) da Liberdade remetem para a relação entre Liberdade e Propriedade, já que estes cidadãos, ao não terem propriedade veem sonegada a sua Liberdade. Daí Jeremy Waldron concluir que esta realidade que investigou traz ao de cima “a má distribuição da riqueza e dos direitos de propriedade”. Tal como “os reclusos, que fisicamente têm os seus movimentos tolhidos”, o professor lembra que os sem-abrigo não têm soluções que lhes permitam ter uma dignidade básica. De onde Waldron conclui que na nossa sociedade o acesso à Liberdade é, ainda, muito, mas muito “distinto”.A sua parceira de painel, a filósofa turca e professora na Universidade de Yale, Seyla Benhabib subscreveu o alerta de Waldron ao mesmo tempo que introduziu uma visão mais filosófica sobre o complexo conceito de Liberdade.
in ffms.pt