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Interpretação da alegoria da caverna - Luiz Figueiredo

Entre as referências mais antigas e mais divulgadas, ligadas ao imaginário simbólico da caverna, encontra-se a famosa Alegoria da Caverna de Platão. As metáforas utilizadas pelo filósofo são recorrentes em vários documentos contemporâneos, tais como blogs pessoais, reflexões religiosas. 
O texto produzido por Platão em A República, livro VII, propõe uma discussão sobre a natureza humana e a ascensão da alma quanto a uma educação plena. O diálogo tem como personagens: Sócrates, seu mestre, e Gláucon, o irmão mais velho. 
Em um primeiro momento, coloca-se uma estranha situação para discutir: homens em habitações subterrâneas, com apenas uma entrada de luz, sendo que eles estão acorrentados desde a infância pelos pés e pescoço, de tal modo que só podem olhar para frente, sem poderem virar a cabeça. Só é possível ver as sombras provenientes de uma fogueira que está na boca da caverna, onde pessoas passam levando estátuas humanas e de animais projectando imagens na parede em frente aos acorrentados. (PLATÃO, 2008, p. 210)
Lazarini (2007) faz uma interpretação da Alegoria quanto aos fundamentos educacionais por trás dessa metáfora do mundo sensível e mundo inteligível. A autora comenta que o eco vindo da parede da caverna acompanhada das imagens ali projectadas, mesmo as em movimento seriam interpretadas pelos prisioneiros como sendo uma voz vinda das sombras. Platão quer mostrar em sua “engrenagem teatral e coreografia de imagens” que a maioria das pessoas está acorrentada em sua própria ignorância. Muito semelhante a nossa situação cotidiana. (SANTOS, 2006).
Essa interpretação é muito recorrente, a caverna é vista como uma prisão, ou seja, a nossa vida está mergulhada na ignorância, impedindo de atingirmos um plano maior das ideias, e temos convicção dessa realidade forjada é a única existente.
O segundo momento é proposto como uma provocação do filósofo sobre a possibilidade de algum prisioneiro se soltar e ser curado da ignorância. Nesse momento coloca diversos questionamentos sobre a veracidade das coisas que vistas.
No terceiro momento da Alegoria a questão colocada é a arrastar o indivíduo até a luz do Sol, sendo esse um caminho para a ascensão difícil e penoso, será preciso adaptar-se para conhecer profundamente o Bem, simbolizado pela luz ofuscante. 
O retorno ao mundo das sombras e dos prisioneiros é o quarto momento apresentado na Alegoria, a difícil tarefa de retirar os outros agrilhoados da caverna da prisão, pois eles não aceitariam outra situação e ainda ficariam descrentes da possibilidade de outra realidade existir. (PLATÃO, 2008, p. 212). Platão estaria propondo uma educação para o Bem, ou seja, a elevação da alma do mundo sensível ao mundo inteligível. Segundo Lazarini (2007) a educação consiste em despertar as qualidades dormentes da alma.
De acordo com Melani (2006) o filme Matrix seria uma releitura cinematográfica da Alegoria, mediada agora pela tecnologia e ficção científica, onde a maioria das pessoas está presa à ilusão impingida pela Máquina. Ainda com relação ao cinema, Emmanoel dos Santos (2001) compara as primeiras projecções cinematográficas e mesmo as actuais com a situação descrita na Alegoria. A caverna vem carregada de conteúdo simbólico, permeando nosso quotidiano. 
...representaria, ambiguamente, um abrigo húmido e inquietante, lugar de hierofania, de contacto com o mundo sobrenatural; e também espaço do ilusório, artificialmente iluminado, espectáculo de sombras impalpáveis, familiar aos atenienses que, com frequência, realizavam teatros em cavernas. (SANTOS, 2006, p. 94).
No contrapondo dessa visão, Bachelard (1990, p. 156) encontra uma passagem em que a caverna não é uma simples alegoria. A gruta estaria associada à iniciação, zona de passagem entre sonhos e ideias, “...a gruta é o palco onde a luz do dia trabalha as trevas subterrâneas”, por isso não se deve ler um texto somente pelas partes claras.
De qualquer modo, a ligação da caverna na Alegoria de Platão à ignorância que oculta um mundo mais abrangente, complementada pela contraposição entre Sol, escuridão e sombras, reforça a visão negativa atribuída às cavernas, como prisão, lugar dos ignorantes, aqueles que ainda não ascenderam à Luz.
Luiz Afonso Vaz de Figueiredo in www.uc.pt