
Acossado por um sistema financeiro à beira do colapso, depois do Banco Central Europeu ter limitado a assistência de liquidez aos seus bancos, o Governo grego apresentou um plano que respondia a todas as exigências da Comissão Europeia. Todas. Mas tudo não chegava. Era preciso humilhar. Dobrar quem ousou colocar em causa a ortodoxia europeia. A que nos diz que a Zona Euro tem 19 países, alegadamente iguais entre si, mas que no fim manda sempre a Alemanha.
Como já tinha avisado o presidente do Eurogrupo, os gregos tinham que perceber que o eixo da austeridade nunca iria aceitar qualquer solução a "meio caminho". Não. Isso é o que acontece entre parceiros. Mas na Europa deixou de haver parceiros. Agora são credores. A mudança semântica não é inocente. Foi a que transformou uma união política numa reunião de Conselho de Administração.
Entre parceiros negoceia-se e chega-se a um compromisso. Mas a última coisa que a Alemanha quis, durante estes cinco longos meses, foi negociar. O seu interesse era punir e dar uma lição. Aos gregos e aos próximos que ousem colocar em jogo a sua vontade em jogo.
Os radicais, foram-nos dizendo, eram os gregos e o Syriza. Mas no fim viu-se quem teve a coragem de colocar o seu futuro e o do seu partido em jogo para apresentar um plano que, longe de ser o que a Grécia precisava, garantisse uma solução para um país que perdeu 25% da sua riqueza nos últimos cinco anos.
E vimos, ao vivo e a cores, o impensável acontecer. Um documento da União Europeia aventar a hipótese de um país ser empurrado para fora da Zona Euro. Uma hipótese que não está em qualquer tratado europeu, mas há muito que o futuro da Europa é decidida de acordo com as regras do Calvinball: são feitas e escritas à medida que o jogo vai avançando.
Um problema apenas. Não foram só os gregos a perceber o que lhes aconteceu. Muitos europeus viram que a Europa viu que deixou de ser Europa. E se o euro é para ser a moeda única da austeridade, então o mais certo é mais cedo que tarde deixar se ser única e mesmo moeda.
Mariana Mortágua in JN.pt