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A cidade invisível

Nos últimos anos, por razões profissionais, tenho tido a oportunidade de regressar com frequência a Tarquinia, pequena cidade no litoral do Lácio, uma centena de quilómetros a norte de Roma. Com esta familiaridade dos regressos frequentes, posso dizer que conheço bem Tarquinia. Não apenas os becos, as tascas, as igrejas e as vistas de Tarquinia, mas também os seus habitantes. Tenho mesmo vários amigos, lá.
Os meus amigos de Tarquinia já estão todos mortos. Partiram deste nosso mundo há alguns anos, numa época em que o nosso mundo era outro mundo completamente diferente. Conheço-os e identifico-os pelos seus retratos, pelos seus gostos e ócios, pelos amores que tiveram, pelos banquetes que organizaram, pelo medo que lhes assombrou os anos finais da sua existência e que tantos séculos depois eu partilho com eles: o medo do vazio absoluto depois das vidas plenas que eles levaram, que eu vou levando.
Tarquinia recorda-me as duas cidades gémeas de Eusápia, descritas no livro As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino. Uma das Eusápias pertence aos habitantes ainda vivos; a outra Eusápia é composta pelos habitantes que já faleceram. Na Eusápia à superfície desenrola-se o dia-a-dia dos vivos, os sapateiros, barbeiros, os farmacêuticos, as cortesãs, os alunos com os seus professores; no subsolo, acontece o mesmo dia-a-dia, neste caso feito de noite e de trevas, e com profissões e ocupações em tudo idênticas à cidade dos vivos, mas agora, um dia-a-dia eterno destinado aos que já partiram.
Tarquinia possui também duas cidades: a cidade dos vivos, com os seus 17 mil habitantes, a sua praça central com uma elegante fonte barroca no centro, o seu indicativo telefónico 0766 e o seu código postal 01016, o seu centro histórico de uma extraordinária integridade medieval que, só por si, merece uma excursão a partir de Roma, as suas praias que esperam o ano inteiro pelos fins de semana do verão romano, a sua economia vibrante baseada no sector agrícola. E, depois, possui a outra cidade, aquela que eu visito regularmente, que me comove em cada regresso, que reúne alguns dos amigos mais improváveis que um homem vivo pode ter.
Os mortos de Tarquinia viveram entre os séculos VI e II antes de Cristo. Continuaram a viver depois, mas entretanto tinham sido conquistados e assimilados pelos romanos e a cidade perdeu a proeminência estratégica e comercial que mantivera durante os séculos de ouro da civilização etrusca.
Esta proeminência traduziu-se na riqueza pictórica da necrópole de Tarquinia, uma colina com cerca de seis mil túmulos etruscos identificados, dos quais duzentos ricamente pintados. Um dos lugares mais extraordinários da Antiguidade.
Milénios depois, podemos ver estes homens e estas mulheres eternizados nas actividades e relacionamentos que os deixavam felizes, esperando talvez que a eternidade contivesse e permitisse essas actividades e relacionamentos. A caça, a pesca, o banquete, a música, o convívio, a família, a amizade e o amor. Não há tristeza nem dor nas despedidas, o defunto apenas muda de cidade, reencontra os amigos que já partiram, aguarda pelos que ainda hão-de chegar.
Nada garantia aos etruscos que o Além existia e era um lugar agradável para estar morto, tal como nada nos garante, a nós, o mesmo. Nem aos hindus, nem aos muçulmanos, nem aos judeus, nem a ninguém. Mas ao escolher acreditar que esse Além existia, sim, e que era feito de coisas boas, os etruscos talvez tenham sabido viver melhor e com mais alegria do que a maior parte das outras civilizações que aconteceram antes e depois deles. Regresso a Tarquinia para reencontrar esta pintura que é uma lição sobre tudo o que não sabemos, o que nos transcende e nos ultrapassa; e qual a melhor forma de lidarmos com essa ausência de factos e certezas.
Gonçalo Cadilhe in visao.sapo.pt