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A estranha doença dos pais obcecados

Tenho andado para escrever sobre o tema dos “pais obcecados” há algum tempo. Hoje é o dia. Porquê? Porque hoje a escola dos meus filhos meteu à venda os bilhetes para a festa do final do ano. Para quem chegou ao assunto agora, pode parecer estranho que alguns pais tenham de pagar 8 euros para ver os próprios filhos cantar e fazer umas coisas em cima de um palco. Entende a escola que é mais confortável que se faça a festa num anfiteatro a sério, com cadeiras a sério para as famílias se sentarem, e que isso ajuda à formação das crianças para aprenderem a se comportar em frente a um público. Nada contra, é tudo verdade. Adiante, que o melhor está para vir.
Há uns anos, os ditos bilhetes eram vendidos sem lugares marcados. Os pais seguiam para a FIL e à medida que chegavam encontravam um lugar para se sentarem. Ano após ano, a coisa começou a ficar descontrolada. Os pais iam cada vez mais cedo para as portas da FIL e quando estas abriam (bastante tempo antes do espetáculo), corriam que nem loucos desenfreados para ficarem nas filas da frente. À hora de abertura das portas, as cenas eram impressionantes: mulheres aos gritos a arrastar crianças escadarias a cima, pais a empurrarem-se para ultrapassar outros, avós ofegantes em risco de ataques cardíacos, tudo para ficarem umas filas mais à frente no anfiteatro e melhor verem as suas crias habilidosas.
Entendeu o colégio (e bem) que a situação estava a ficar uma verdadeira loucura, e viu-se obrigado, a pedido de várias famílias, a passar a vender bilhetes com lugares marcados. Teve de montar toda uma logística para o efeito: desenhos da sala, bilhetes numerados, funcionários a vender os ingressos. A convocatória é enviada aos pais, o dia definido com bastante antecedência para se adaptarem as agendas, e os horários de abertura do “guichet” improvisado cumpridos com rigor britânico. Só que os pais que antes faziam fila à porta da FIL passaram, claro, a fazer fila à porta da escola. Ano após ano, cada vez mais cedo. E, claro, com reclamações mesquinhas permanentes.
- Ah, porque não se devia poder comprar mais do que x bilhetes. Isso é um abuso! Ah, porque não se deviam poder fazer reservas, se eu venho para a fila a senhora também tem de vir. Ah, isso não é justo, a sua família é enorme e ocupa a fila toda!
Hoje foi o dia D para a grande batalha de compra dos bilhetes para a festa do final do ano. E hoje houve quem se levantasse de madrugada para estar à porta da escola às 5h30 da manhã. As portas abriram às 7h10, mas meia hora antes a fila já se estendia rua fora e dobrava a curva do quarteirão. Não, note-se, que os bilhetes esgotem. Nada disso! Tudo isto é para ficar algures nas filas D ou E e não, horror dos horrores, lá para trás uns metros mais longe das suas crias habilidosas. Sinto-me um alien: serei só eu que acha que uma festa da escola é só uma festa da escola?
Já tinha dado por mim esta semana a questionar-me se seria ou não um extraterrestre num mundo de pais cada vez mais obcecados com os filhos e cada vez mais competitivos, irrazoáveis e histéricos. Este domingo, belo dia de praia, não consegui deixar de tirar os olhos de duas famílias nos guarda-sóis ao lado do meu. Num, um casal com dois rapazes vestidinhos de igual, toalhas com nomes bordados e Crocs a condizer arrumados milimetricamente, esteve em operações de arrumação e limpeza da areia para sair da praia como nunca antes tinha visto.
- Pai, vai buscar o baldinho de água para o M. tirar a areia das mãos. E agora vai trocar a água para o M. tirar a areia dos pés. Calça os sapatinhos e não saias da toalhinha, querido! E não metas as mãos em lado nenhum para não te sujares. Oh P. não toques em nada. Então, não te sujes. Oh, agora vais com areia. Paizinho, vai lá outra vez buscar aguinha no baldinho para o P. lavar as mãozinhas…
Já o outro casal, com duas filhas também vestidas de igual, nem se despiu, tal era a azáfama em torno das meninas, munidas de toda a parafernália de praia possível e imaginária em tons de cor de rosa. Passavam 20 minutos do meio-dia naquele ameno domingo de 22ºC, e lá saíram eles nervosíssimos a correr do areal, porque “o sol era muito perigoso e as meninas não podiam estar na praia àquelas horas”, apesar de devidamente besuntadas com o melhor dos protetores solares minerais.
Serei só eu que deixo os meus filhos à solta na praia, nem sempre cumpro os horários recomendados pelos pediatras e que os trago para casa com areia e sal no corpo? Chamem-me egoísta, mas serei só eu que não deixo que os meus filhos monopolizem completamente a minha vida?
Qual é o mal de querer o melhor para os filhos e dos pais se preocuparem com eles, perguntarão alguns. Nenhum, desde que a coisa seja vivida com sensatez. O problema é quando os meninos se tornam o centro do universo e satisfazer as suas necessidades – e também os seus desejos e caprichos –, a preocupação única e absoluta das vidas dos pais. O problema é quando se inventam necessidades que as crianças objetivamente não têm – precisamos mesmo de tanto gadget, brinquedo e parafernália infantil para criar miúdos felizes, inteligentes e saudáveis? O problema é quando ter filhos deixa de ser um prazer tão natural como a nossa sede e se torna uma missão de vida que seca tudo à nossa volta.
Há cursos para tudo e mais alguma coisa hoje em dia: desde as aulas de lamaze para as grávidas, aos cursos para os pais de massagens para bebés, alimentação nutritiva, trabalhos manuais, origamis e sushi em família. Mas o que eu acho mesmo que os pais de hoje em dia precisam é de cursos de parentalidade sem cromices.
Mafalda Anjos in visao.sapo.pt