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Lugar para nascer

Os sírios Aya e Mahmoud Kattan vão ter um filho português em agosto. Chegaram a Penela em outubro, depois de passarem por um campo de refugiados, e o nascimento da criança será o renascimento da normalidade possível, insegura porque os pais não têm ainda trabalho. Para os três outros filhos do casal, a normalidade chegou quando se instalaram na casa nova e começaram a brincar com os amigos da creche. Esta família de cinco, quase seis, faz parte do número inimaginável de 65,3 milhões de pessoas que estão fora do sítio onde pensaram que poderiam viver. O total é enganador, porque se refere ao último dia de 2015 e a cada minuto há 24 pessoas que saem da sua terra - 34 mil por dia. "Não é apenas uma crise de números, é uma crise de solidariedade", disse Ban Ki Moon, o secretário-geral das Nações Unidas. Mas os números existem, foram divulgados ontem pelo Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados: uma em cada 113 pessoas, a nível mundial, está nesta situação. Por isso é ainda mais importante o artigo que hoje publicamos de Simon Schama, o historiador britânico que foi além da história dos factos e dos números e mostrou a relação humana entre paisagens e memórias, numa obra de 1995 que se tornou essencial para entender a pertença (Landscape and Memory). Aí fala dos fluxos de refugiados que sucessivamente alimentaram o Reino Unido ao longo do tempo, ele próprio filho de judeus de origens bem diversas - mãe lituana, pai sefardita de Esmirna, ambos judeus. Para Schama, o país ganhou sempre com esta renovação e com a ligação à Europa. A escolha que os britânicos vão fazer depois de amanhã, entre brexit ou bremain, é mais do que uma questão de números, de resto imprevisíveis. Como ontem explicava o colunista Wolfgang Münchau, não se trata de uma opção por uma ou outra construção económica, mas sim por um modo de vida baseado em valores tão bem sintetizados na Revolução Francesa: liberdade, igualdade, fraternidade. E daí que a rejeição dos migrantes e refugiados que o brexit pressupõe seja o cerne da questão europeia. Como o nascimento de Schama em fevereiro de 1945 em Londres ou o do filho de Aya e Mahmoud Kattan em Penela em agosto de 2016.
Ana Sousa Dias in dn.pt