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Ternuras da memória

Saudades das trovoadas de setembro na Beira Alta, com o meu avô na varanda voltada à Serra, feliz com os relâmpagos

(como era surdo não escutava os trovões)

e a minha avó, apavorada num sofá, a rezar versos a Santa Bárbara Virgem que eu, com cinco ou seis anos, tinha decorado sei lá onde e lhe ensinava palavra a palavra. Lembro-me tão bem do pânico dela

– Chama o teu avô, chama o teu avô com lágrimas nos seus imensos olhos azuis

e das árvores ao longe subitamente luminosas, das duas lareiras, da janela para a igreja de São Miguel que a chuva quase apagava. E o meu avô, de casaco de linho branco e boquilha acesa, a assistir. Não me recordo de mais pessoas, nem pais, nem tios, nem irmãos, apenas nós três e os grandes castanheiros da casa, os braços da hera que o vento desprendia dos arames das paredes. O poço ao lado da porta da cozinha ao qual nunca ninguém se atirou, o som da roldana quando se puxava a corda do balde, a bomba manual da água que gemia, gemia e hoje parece-me impossível que tudo isso tenha existido, tudo isso tenha desaparecido. Saudades dos meus irmãos nesse tempo, do prazer de sermos quatro. Pensava

– Somos quatro

e agradava-me que fôssemos quatro, dormindo todos juntos, cá em baixo, no compartimento onde existia uma mesa de pingue-pongue ao lado de um compartimento cheio de batatas. Por essa altura comecei a escrever coisas, versos, patetices, uma espécie de jornal e depois mostrava à minha avó, a única pessoa que ligava alguma coisa àquilo ou seja fingia que ligava alguma coisa àquilo e eu feliz. Os meus irmãos, em compensação, estavam-se nas tintas: eram crianças saudáveis. O João

– Foste tu que fizeste?

e claro que nem tocava no papel enquanto eu procurava pedaços de mica na vinha. Era uma vinha pequena, tinha só dois socalcos. O que nós gostávamos da vindima, mano, do carro de bois com duas pipas e a gente, de chapéu de palha, sem conseguir cortar nada, acabando a puxar uvas dos cachos. A capoeira. O louco da vila em grandes passadas solenes campos fora

– Eu sou o D. João Primeiro Borges, Imperador de todos os reinos do mundo

de barba comprida, cabelos compridos, longos farrapos sobrepostos. O nosso pai a andar de bicicleta. O riso da prima Maria Fernanda, que me parecia cheio de sininhos e tinha paciência para nós. O correio das seis lá em baixo no vale, o rápido da uma. O cheiro do pinhal do Zé Rebelo. Um menino chamado Lafaiete. Banhos na selha, na cozinha. O avô que não falava nunca. A mãe novíssima, para nós já velha. Estou a escrever isto para ti, João, apetece-me escrever isto para ti: no fim de contas éramos felizes, não éramos? Gostávamos tanto da casa, não gostávamos? E a vida ainda não nos separara. Que ideia mais parva termos crescido. Aprender a andar de bicicleta, aprender a jogar ténis, perseguir lagartixas no muro e como tudo isto gela em nós um bloco de saudade. A Joãozinha, a bondade dela, a doçura dela. Jogava ténis com os tios, nós apanhávamos as bolas perdidas e agradava-me a espécie de penugem de pêssego que tinham. Os ingleses do hotel que trabalhavam na mina, acho eu, julgo que trabalhavam na mina. A criada do senhor vigário que nos tratava bem, gorda, simpática

– Meninos, meninos

que me atraía ao mesmo tempo que, não sei porquê, me dava medo: ao abrir a boca para falar vinha-me sempre um pavor esquisito que ela me engolisse, fazendo-me cair numa noite maior e mais escura do que a noite lá fora e apareciam-me na cabeça as crianças mortas que passavam na rua, à nossa porta, a caminho do cemitério, em caixõezinhos brancos, abertos, seguidos de meninos com asas brancas nas costas, quase sempre tortas, e mulheres a chorarem, conosco no muro a ver, numa estranheza aflita. Depois ficávamos quietos, sem brincar, nem as lagartixas nos atraíam. As duas criadas que se abraçavam e beijavam e um dos meus tios mandou-as embora numa grande cena de lágrimas e gritos, uma delas a pedir

– Só mais um beijinho, só mais um beijinho

e foi a única ocasião em que me berraram

– Sai daqui

porque a família da minha mãe era despretensiosa, simples, suave e nunca se zangavam conosco.

– Sai daqui

porquê? E acho que pela primeira vez na vida senti um cheiro de enxofre enquanto me apercebi confusamente que o mundo estava repleto de mistérios estranhos, ele que até então me parecia tão simples, tão claro. A gente a olhar-se uns aos outros, parvos de espanto, que a minha avó dissolveu um bocado ao dar-nos moedas para comprar rebuçados na loja do senhor Casimiro, com o senhor Casimiro e a mulher

– Meninos

atrás do balcão

– Meninos, meninos

e quase tudo, por trás das costas deles, ficava na sombra, percebiam-se vagamente silhuetas de caixotes, sacos e por cima daquela confusão o sorriso do senhor Casimiro

– Meninos

que os nossos olhos chupavam como se fosse um rebuçado também. Porque perdi tudo isto? Porque deixei que tudo isto se perdesse? Era tão rico nesse tempo, tão cheio de minhocas e de nuvens. O senhor abade sentado na latada. Amigas velhíssimas da minha avó que cheiravam a anos. Cães invisíveis ladrando no pinhal, a escaparem-se da gente. E mesmo durante o sono uma bola de pingue-pongue de um lado para o outro da mesa sem que ninguém lhe tocasse e as vozes das pessoas crescidas no andar de cima enquanto um ramo não cessava de bater na janela, convidando-nos a sair castanheiros adiante, correndo de mão dada na direção das luzes de Manteigas, muito ao longe. E tudo isto é hoje a minha parte mais feliz e fiel. Ternuras da memória por favor não me abandonem: o que seria de mim se nisto, pumba, vos perdesse?
António Lobo Antunes in visao.sapo.pt