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O Real e o Fenómeno - Kant

“Na Estética Transcendental demonstramos suficientemente que tudo o que se intui no espaço ou no tempo e, por conseguinte, todos os objetos de uma experiência possível para nós, são apenas fenómenos, isto é, meras representações que, tal como as representamos enquanto seres extensos ou séries de mudanças, não têm fora dos nossos pensamentos existência fundamentada em si. A esta doutrina chamo eu idealismo transcendental. O realista, em sentido transcendental, converte estas modificações da nossa sensibilidade em coisas subsistentes por si mesmas e, por conseguinte, faz de simples representações coisas em si. Seriam injustos para connosco se nos quisessem atribuir o desde há muito tão desacreditado idealismo empírico que, na medida em que admite a realidade própria do espaço, nega — ou pelo menos julga duvidosa — a existência de seres extensos no espaço e não admite neste ponto nenhuma diferença, suficientemente demonstrável, entre o sonho e a realidade. No que respeita. aos fenómenos do sentido interno no tempo, esse idealismo não encontra dificuldade em admiti-los como coisas reais, pois afirma até que esta experiência interna é a única que demonstra suficientemente a existência real do seu objeto (em si mesmo, com toda esta determinação do tempo). Em contrapartida, o nosso idealismo transcendental permite que os objetos da intuição externa existam realmente tal como são intuídos no espaço, e todas as mudanças no tempo sejam como o sentido interno as representa. Com efeito, visto que o espaço é já uma forma da intuição que denominamos externa e que sem os objetos no espaço não haveria qualquer representação empírica, podemos e devemos considerar reais os seres extensos que nele se encontram, o mesmo ocorrendo com o tempo. Esse espaço, porém, em conjunto com este tempo e, juntamente com ambos, todos os fenómenos, não são em si mesmos coisas, são unicamente representações, que não podem existir fora do nosso espírito; e a própria intuição interna e sensível do nosso espírito (como de um objeto da consciência), cuja determinação é representada pela sucessão de diversos estados no tempo, não é também o verdadeiro eu, tal como existe em si, ou o sujeito transcendental, mas tão-só um fenómeno, dado à sensibilidade, desse ser que nos é desconhecido. A existência deste fenómeno interno, como de uma coisa existente em si, não se pode admitir, porque a sua condição é o tempo, que não pode ser determinação de nenhuma coisa em si; porém, a verdade empírica dos fenómenos no espaço e no tempo está suficientemente assegurada e suficientemente distinta do parentesco com o sonho, se ambos se encadearem rigorosa e universalmente numa experiência, de acordo com as leis empíricas. Em vista disso, os objetos da experiência não são nunca dados em si, mas apenas na experiência, e fora dela não existem. Pode admitir-se, com efeito, que haja habitantes na lua, embora nenhum homem jamais os tenha visto, mas isto significa apenas que, com o possível progresso da experiência, podíamos chegar a vê-los; com efeito, tudo que está no contexto de uma percepção de acordo com as leis do progresso empírico é real. São pois reais, desde que estejam num encadeamento empírico com a minha consciência real, embora nem por isso sejam reais em si, isto é, fora deste progresso da experiência. Nada nos é efetivamente dado além da percepção e do progresso empírico desta para outras percepções possíveis Porquanto, em si mesmos, os fenómenos, sendo simples representações, só são reais na percepção que, de fato, é unicamente a realidade de uma representação empírica, isto é, de um fenómeno. Chamar coisa real a um fenómeno, antes da percepção, ou significa que no progresso da experiência poderemos chegar a uma tal percepção ou não significa nada. Pois que só poderia absolutamente dizer-se que existe em si mesma, sem relação com os nossos sentidos e experiência possível, se se tratasse de uma coisa em si. Trata-se apenas de um fenómeno no espaço e no tempo, que não é determinação de coisas em si, mas unicamente da nossa sensibilidade; daí que o que neles se encontra (nos fenómenos) não seja algo em si, mas simples representações que, quando não dadas em nós (na percepção), em parte alguma se encontram. A faculdade de intuição sensível é propriamente apenas uma simples receptividade que nos torna capazes de ser afetados de certo modo por representações cuja relação recíproca é uma intuição pura do espaço e do tempo (meras formas da nossa sensibilidade), e que se denominam objetos, na medida em que são ligadas e determináveis nessa relação (no espaço e no tempo) segundo leis da unidade da experiência. A causa não--sensível destas representações é-nos totalmente desconhecida; não a podemos, por conseguinte, intuir como objeto, pois tal objeto não poderia ser representado nem no espaço nem no tempo (como. simples condições da representação sensível), condições sem as quais não poderíamos conceber qualquer intuição. Entretanto, podemos dar o nome de objeto transcendental à causa simplesmente inteligível dos fenómenos em geral, só para termos algo que corresponda à sensibilidade considerada como uma receptividade. A este objeto transcendental podemos atribuir toda a extensão e encadeamento das nossas percepções possíveis e dizer que é dado em si, anteriormente a qualquer experiência. Os fenómenos, porém, em relação a ele, não são dados em si, mas unicamente nesta experiência, porque são simples representações que só enquanto percepções significam um objeto real, isto é, quando essas percepções se encadeiam com todas as outras, segundo as regras da unidade da experiência.”

Kant, Crítica da Razão Pura