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Finalidades últimas e valor

O primeiro passo em qualquer estudo filosófico (assim como noutras áreas) é procurar saber com clareza qual é o problema que estamos a tentar resolver. Ora, o problema do sentido da vida é de difícil formulação. Talvez seja por isso que algumas pessoas pensam que se trata de um falso problema. Se não conseguirmos formular com clareza o problema do sentido da vida, a probabilidade de sucesso na sua resolução é quase nula. Além disso, não compreenderemos também as diferentes teorias e argumentos avançados na história da filosofia para responder a este problema. Enquanto não compreendermos claramente o problema como algo real e não como uma fantasia filosófica ou uma confusão verbal, não poderemos avançar no nosso estudo.
O problema do sentido da vida é de difícil formulação devido à ambiguidade da expressão “sentido da vida”. Esta ambiguidade, por sua vez, resulta da ambiguidade da palavra “sentido”. Noutros contextos, a palavra “sentido” pode referir-se ao sentido das palavras, mas aqui é óbvio que não é disso que se trata. No nosso contexto, podemos querer dizer duas coisas quando nos referimos ao sentido da vida:
Podemos estar a falar da direcção, do propósito, da finalidade da nossa vida;
Ou podemos estar a falar do valor da nossa vida.
Como, por outro lado, há vários tipos de finalidades, e como nem todas as finalidades são susceptíveis de dar sentido à nossa vida, o próprio sentido 1 da expressão é origem de mais confusões. Comecemos por esclarecer dois tipos diferentes de finalidades.
Se me perguntarem com que finalidade apanhei hoje de manhã o comboio, respondo que foi para me dirigir para a faculdade. O que dá sentido à minha viagem de comboio é o meu desejo de ir para a faculdade. Claro que agora podemos perguntar com que finalidade vou para a faculdade. Eu posso responder que vou para a faculdade porque preciso de trazer alguns livros da biblioteca e quero assistir a alguns seminários. E agora podem perguntar-me qual é a finalidade disso. E nunca mais se acaba. A pergunta pela finalidade tem esta característica: aparentemente, podemos sempre continuar a fazê-la. É como a pergunta “Porquê?” — que, a propósito, é muitas vezes uma pergunta pela finalidade de algo (“Porque é que apanhaste o comboio esta manhã?”).
Mas será que podemos realmente continuar sempre a exigir mais uma resposta? Não haverá aquilo a que os filósofos chamam “finalidades últimas”? Sem dúvida que sim. Quando faço várias coisas para preparar um chá, o prazer que tenho a beber chá é uma finalidade última: não faz sentido perguntar com que finalidade gosto de beber chá. E compreende-se porquê: o meu gosto de beber chá é algo que dá um sentido a tudo o que faço para poder beber chá, é a razão de ser de tudo o que faço para beber chá; mas, em si, o meu gosto por chá não é um meio para qualquer outra finalidade; é uma finalidade em si, uma finalidade última. O mesmo acontece com tudo o que faço para ir para o colégio: estou a satisfazer o meu gosto por filosofia; e isto é um fim em si, não é algo que eu faça em função de outra coisa qualquer.
Podemos assim compreender a nossa vida como um encadeamento de acções que procuram atingir diversas finalidades últimas. Isto dá origem a uma forma errada de entender o problema do sentido da vida. Essa forma é a seguinte: o problema do sentido da vida consiste em descobrir a finalidade última da vida humana. Algumas escolas gregas defendiam que a finalidade última que devíamos procurar na nossa vida era a satisfação dos nossos desejos; ou o conhecimento; ou a virtude; ou outra coisa qualquer. E depois mostravam o que pensavam ser a melhor maneira de atingir essa finalidade última e única. Penso que esta é uma forma errada de entender o problema do sentido da vida por dois motivos.
Em primeiro lugar, porque não é verdade que a existência de uma única coisa que seja a finalidade última da vida humana seja uma garantia do sentido da nossa vida. Claro que numa certa acepção fraca da expressão “sentido da vida”, a existência de uma finalidade última dá sentido à nossa vida. Mas isso é apenas uma acepção fraca da expressão. Não é apenas isso que realmente temos em mente quando perguntamos pelo sentido da vida. Afinal, ainda que a finalidade última da minha vida seja X, não se segue que faça sentido viver para alcançar X — a não ser que X tenha, intrinsecamente, algum valor.
Em segundo lugar, porque se acharmos que a nossa vida tem valor desde que haja uma finalidade última X, não se percebe por que razão é importante que haja uma única finalidade última. Na verdade, ao longo da vida, os seres humanos cultivam várias finalidades últimas. De entre as várias finalidades últimas que os seres humanos cultivam estão o conhecimento, o amor, a amizade, o prazer de ver os filhos a crescer e os amigos a prosperar. Por que razão uma única é mais importante do que várias?
Se pensarmos um pouco, verificamos que as duas objecções anteriores à ideia de que descobrir o sentido da vida é descobrir uma única finalidade mostram que há algo que falta nessa concepção do sentido da vida. O que falta é o valor intrínseco das finalidades últimas. Se perguntarmos por que razão uma única finalidade há-de dar mais sentido à nossa vida do que as várias finalidades últimas, percebemos que a ideia subjacente é que as várias finalidades últimas não dão sentido à nossa se não forem coisas que tenham valor intrínseco; ao passo que a ideia de uma única finalidade última é apresentar algo que tenha realmente valor intrínseco. Mas no momento em que percebemos isto percebemos uma coisa importante. Percebemos que este tipo de resposta não dá conta da acepção 2 da expressão “sentido da vida”.
Imaginemos alguém que, aos oitenta anos, olha para a sua vida e verifica que alcançou todas ou a maior parte das suas finalidades. Pode até ter alcançado uma única finalidade última qualquer. Significa isso que a sua vida tem sentido? Não necessariamente. Pois se nenhuma das suas finalidades tiver valor, o facto de serem finalidades últimas não é suficiente para dar sentido à sua vida. De modo que para responder ao problema do sentido da vida é preciso não apenas dizer quais são as nossas finalidades últimas, quer sejam muitas ou apenas uma, mas mostrar que essa ou essas finalidades últimas têm intrinsecamente valor. Mas que quer isto dizer?
De um certo ponto de vista, é redundante perguntar pelo valor de uma finalidade última. O valor de uma finalidade última é ela mesma — é por isso que é uma finalidade última. Se eu gosto muito de chocolate, é este meu gosto que dá valor ao acto de comer chocolate; que outro valor poderia haver?
O outro valor que estamos a procurar é o valor objectivo; que comer chocolate é um valor para mim, um bem para mim, dado o meu gosto por chocolate, é óbvio (excluindo os casos em que comer chocolate me seja prejudicial — por sofrer de diabetes, por exemplo). Mas será que comer chocolate terá valor de um ponto de vista universal? É isto que queremos perguntar quando perguntamos em geral pelo valor: estamos a perguntar pelo valor objectivo — pois o valor subjectivo é imediatamente óbvio.
O problema do sentido da vida torna-se agora mais claro. Não se trata apenas de saber que finalidade ou finalidades últimas devemos adoptar; trata-se de saber que finalidade ou finalidades últimas devemos adoptar que tenham valor objectivo — e trata-se de saber se há finalidades últimas que tenham valor objectivo. Assim se compreende que dizer apenas “Faz X porque isso irá dar-te a felicidade” não responde ao problema do sentido da vida; pois podemos sem dúvida ser felizes sem que a nossa vida tenha, todavia, qualquer valor — excepto, obviamente, para nós próprios.
O problema desta noção mais robusta do sentido da vida é que parece demasiado robusta. Tão robusta que é provavelmente insusceptível de ter uma resposta satisfatória, pois parece resultar de uma confusão conceptual qualquer — como se estivéssemos a exigir que as ideias verdes pudessem dormir juntas. Mas há algo na ansiedade humana de dar sentido às nossas vidas que não se satisfaz com a ideia de que todo o sentido que a nossa vida tem é puramente subjectivo e que todo o valor que a nossa vida possa ter é apenas subjectivo.
Desidério Murcho in criticanarede.com