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Razão e emoção


Segundo o senso comum, a razão é o contrário da emoção. Expressões como “tem juízo”, “pensa com a razão e menos com o coração” são-nos ditas constantemente ao longo da nossa vida, por quem nos ama, quem nos ensina e quem nos aconselha, mas também por quem menos gosta de nós. Por amor ou por ódio, muitos são os que insistem em chamar-nos à razão.
A ciência económica tradicional compactua com esta dualidade, considerando que o processo de decisão é composto por dois mecanismos díspares e em constante conflito: o mecanismo racional e intelectual que nos faz tomar decisões certas e o mecanismo emocional e impulsivo, muitas vezes culpado das escolhas erradas e ineficientes. Deixa no entanto para a psicologia o estudo das emoções e foca-se nas escolhas que fazemos se fôssemos seres isentos de qualquer emoção. Isto é, se fôssemos o tal homo economicus que é exclusivamente racional, que sabe o que é importante para si, que faz escolhas calculando perfeitamente os riscos, os custos, os benefícios, no presente e no futuro.
Mas como na realidade não somos esta máquina “perfeita”, as escolhas que fazemos são influenciadas quer por impulsos primitivos e genéticos, como o instinto, quer por emoções e sentimentos mais conscientes. E mesmo quando pensamos que estamos a tomar uma decisão racionalmente, esta, muitas das vezes, já vem influenciada por escolhas anteriores que foram enviesadas por emoções. Por exemplo, normalmente colocamos no carrinho das compras do supermercado produtos que gostamos e que já foram, achamos nós, fruto de um raciocínio lógico anterior, mas por vezes essas escolhas não são mais do que o resultado de uma atividade cerebral que apenas busca padrões que foram provavelmente influenciados por emoções. A música que passava na loja, por exemplo, pode ter influenciado, mesmo que inconscientemente, a decisão de experimentar uma nova marca de detergente.
A economia comportamental tem identificado os enviesamentos cognitivos que influenciam as escolhas dos indivíduos e apela para a importância do seu reconhecimento, nomeadamente quando se usam modelos de previsão económica. Muitos economistas comportamentais, admitindo o papel das emoções nas decisões económicas, assumem contudo que o nosso cérebro tem estruturas separadas para processar os impulsos e o raciocínio lógico, apesar dos dois sistemas comunicarem entre si e, em conjunto, afetarem o comportamento.
Mas serão as emoções apenas mecanismos psicofisiológicos que causam ruturas no equilíbrio cognitivo? Serão somente falhas de racionalidade? Ou será que a emoção e a razão estão mais próximas do que se pensa?
A investigação do neurocientista português, António Damásio, contradiz a total separação entre emoção e razão. Damásio mostrou, por exemplo, que pessoas com lesões na região cerebral da amígdala, intimamente ligada à regulação das emoções e reações emotivas, apresentavam também falhas na aprendizagem e incapacidade de tomar algumas decisões. Deste modo, mostrou-se que as emoções não são vistas necessariamente como atos racionais, não são causadoras diretas da cognição, mas geram sentimentos e atos racionais que têm influência na aprendizagem e tomada de decisão.
Um estudo muito recente de neurocientistas sediados em Nova Iorque, Joseph LeDeboux e Richard Brown, vem mostrar que as emoções podem gerar mais do que atos racionais. Os autores mostram que as emoções são estados cognitivos que resultam da recolha de informação. Mais especificamente, os mecanismos do cérebro que dão origem a emoções e sentimentos conscientes não se diferenciam daqueles que dão origem a experiências percetivas e cognitivas. Ao contrário desta investigação, muitos dos trabalhos anteriores, de neurociência, postulam que as emoções são programadas em circuitos cerebrais secundários, e são vistas mais como uma resposta a processos cognitivos de perceção, memória, raciocínio, juízo, e imaginação. Para Joseph LeDeboux e Richard Brown, os estados emocionais estão, pelo contrário, ao nível de outros estados de consciência. Considere-se, por exemplo, a sensação de medo causada pela visualização de uma cobra por perto. O que estes autores vêm mostrar é que o processo de visualização de perceção do perigo e a experiência emocional acontecem nos mesmos circuitos (os autores não excluem, no entanto, que algumas respostas às emoções continuam a ser dependentes de subcircuitos diferentes mas interligados).
Este estudo vem contribuir para o que parece ser cada vez mais evidente. A razão e a emoção moram juntas. Mais, as emoções podem muito bem ser processos racionais. Na ciência económica, o professor Eyal Winter, especialista em teoria de jogos, e autor do livro “Feeling smart: why our emotions are more rational than we think”, já o vem dizendo há algum tempo. Emoções como a raiva, empatia, inveja e vergonha moldam interações estratégicas, porque não influenciam apenas o comportamento de quem as sente, mas também o comportamento dos outros com quem se interage. No limite, emoções negativas podem resultar em decisões e comportamentos económicos desejáveis. Em alguns casos, uma decisão baseada numa emoção pode ser mais eficiente do que uma decisão baseada em cálculos lógicos e minuciosos. Mais, a consciência deste fato pode levar com que os agentes económicos “racionalmente” escolham a via emotiva.
O estudo de LeDeboux e Brown assim como a investigação de Eyal Winter e co-autores, lançam desafios não só à economia neoclássica como também à economia comportamental. A primeira ignora de todo as emoções e a segunda tem colocado o enfoque sobretudo nas limitações cognitivas que sofremos, deixando de lado o potencial de uma mente emocional. Ou seja, a economia comportamental procura reconhecer enviesamentos assumindo muitas vezes que são falhas cognitivas e prejudiciais à decisão, mas talvez venha a ser proveitoso uma mudança de perspectiva de análise à luz daqueles resultados recentes.
A tristeza, a alegria, a vergonha, a culpa, o amor, o ódio, são sentimentos que não só baralham as escolhas, como podem até ser geradores de maior eficiência. Aos que se entusiasmam com o poder da robótica, os drones da Amazon e os carros da Uber a movimentarem-se “inteligentemente” sem motorista, talvez seja bom lembrar que máquinas inteligentes que não sofrem, não se exaltam, e não rejubilam de felicidade podem não tomar decisões ótimas, sobretudo em interações estratégicas com os outros.
Sandra Maximiano in expresso.sapo.pt