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Variações com janela para a Filosofia - Levi António Malho

No limiar do inútil, olhada de lado, a Filosofia é uma arte difícil num tempo marcado pela pressa, pela economia da comunicação, vamos ao que interessa, deixemo-nos de conversas moles que não adiantam nem atrasam! Só por engano a Filosofia é paixão, actividade que emagrece, tira o sono, não deixa fazer mais nada. Pelo contrário, é uma longa paciência, regressar aos locais de sempre, procurando aquilo que se não vê quando corremos o mundo com horas marcadas, fotografar à pressa, depois por entre balbúrdias mil, mostrar as “imagens” da viagem a parentes e colaterais. Na correria dos “programas”, professores e alunos visitam 2500 anos de História, entrando e saindo dos velhos gregos, desarvorando em direcção à época Moderna, acumulando teorias, argumentos, demonstrações, Gnosiologias, Lógicas, Metafísicas, Ontologias, Éticas, tudo terminando em “pontos”, classificações, apelos lancinantes à criatividade e “espírito crítico”. O filosofar é, sobretudo, um elogio da lentidão, arte da espera, um quase impossível reencontro com perguntas infantis que estão no origem deste estranho ser, aparecido há 100.000 anos sobre a Terra, que por convenção chamamos de “Homo Sapiens”. Dotado dum cérebro gigantesco, colonizou todos os continentes, viveu das dádivas da caça e pesca, inventou a agricultura, criou cidades, atravessou mares, desenhou mapas, chegou à Lua e ao coração da matéria. No grande oceano do desconhecido ergue-se uma imensa barreira de coral, feita do trabalho acumulado por mil gerações de humanos e nós, os agora-aqui, nascemos dentro dessa imensa laguna por toda a parte povoada por sons, luzes, bibliotecas, ciências, escolas, especialistas. É fácil esquecermos que tudo isto ocorre dentro da “barreira de coral”, do aquário climatizado que, um pouco temerariamente, convencionamos chamar “Mundo”. Mas a Filosofia deve ser também um caminho que nos mostre que há “outro lado” para além dos limites do horizonte, e que esse local é feito da exacta matéria da nossa ignorância. Olhar para lá, é ser capaz de subir a montanha dos livros, e espreitar uma paisagem de que mal vemos os contornos, pois a luz que emitimos é insuficiente para iluminar a enorme noite que está “lá fora”, irmã gémea do grande silêncio sobre o qual ecoam as milhares de vozes.
Talvez por isso, o problema do Mundo e da sua origem tenha sido uma das obsessões permanentes dos primeiros filósofos, no momento em que tentaram compreender para além dos grandes Mitos e Religiões que sempre apaziguaram os nossos medos. A invenção da “Razão”, se nos permitiu avançar no sentido do conhecimento, abriu a porta à dúvida, à incerteza, à paz consoladora mas fictícia de todos os deuses benévolos ou cruéis. Com a Filosofia ficamos só nós, nós e os outros como nós, conversando, experimentando, procurando, se existir, o verdadeiro “princípio de todas as coisas”. E, talvez com alguma arrogância, imaginando que tal “princípio”, se existir, há-de ser conforme aos poderes do pensamento. A Filosofia parte dessa palpite e, pacientemente, olha de novo o Mundo como se fosse a primeira vez. O grande problema era inventar a “engrenagem” que fazia mover planetas e estrelas, gerava eclipses, iluminava os céus com brancas caudas de cometas. Qual a origem e o porquê de tantas coisas, que “causa” ou “quem” os colocou ali, imagens de eternidade silenciosa que viram desabar Impérios, ergueram zigurates e fizeram cair o pobre Tales no poço do filosofar?! Passando as hesitações da Escola de Mileto, logo na alvorada da Filosofia, é a estranha comunidade pitagórica que marcará o caminho duma hipotética resposta. Olhando para a gigantesca imensidão cósmica, aposta-se na harmonia dos Números, na ideia duma simplicidade que fará mover astros esféricos numa singular melodia, só acessível àqueles que tiverem a paciência de encontrar aquilo que permanece para além das coisas que passam. Está lançado um “princípio” que agrada à Razão humana e será o fundamento de toda a Ciência. A realidade colorida e diferenciada do Mundo só será compreensível se ultrapassarmos o vendaval dos sentidos e nos aproximarmos da arquitectura escondida e eterna duma “mente cósmica” que se reduz à beleza das equações, ao bailado celestial duma geometria que nos assegura que tudo “isso” tem uma lógica. Duma forma ou doutra, é esse o caminho da Filosofia e da Ciência quando pensam o Universo, desde o heliocentrismo genial de Aristarco de Samos ao trabalho esforçado do Demiurgo no Timeu de Platão, passando pelos cálculos de Eudoxo de Cnido, os catálogos de Hiparco e o paciente “puzzle” de Claudio Ptolomeu. Com a chegada do Cristianismo ao Ocidente, a meditação cosmológica cai numa espécie de limbo de esquecimento, não porque o problema do Universo deixe de ter interesse, mas porque uma grande Religião responde aos “porquês” e “comos” através da palavra de Deus inscrita na voz dos profetas. É preciso esperar 1.500 anos para a Europa consentir debater a questão do Universo, com um entusiasmo temperado de medos-mil. A época moderna não encontrará a Filosofia na primeira linha das perguntas e respostas. A literatura, a poesia, a aventura das naus e caravelas vão manifestamente à frente e são, de facto, os verdadeiros herdeiros da curiosidade nascida um dia nas colónias da Jónia. Não esqueçamos o primeiro filósofo que, por convenção, inaugura a modernidade. Prudente e discreto, Descartes vive na 1ª metade do século XVII, bem depois de Índias e Américas terem revelado outros céus e outras constelações do lado de lá da Terra. Farto das incertezas, teorias e hesitações das “interpretações” que tanto dizem uma coisa como o contrário dela, decide construir um método e uma Filosofia que tenha o encanto e precisão das evidências matemáticas e geométricas. Só o racionalmente evidente é aceitável e, deste modo, há-de ser um “pensamento rigoroso”, aberta ao progresso, distante das disputas e controvérsias que a desprestigiavam face à eficiência das Ciências.
Portanto, trata-se de tudo esquecer, de regressar ao grau zero, nada mais restando à partida que duas evidências: existe o Pensamento (res cogitans), a Matéria-Mundo (res extensa) e, claro, um Deus geómetra e bondoso que garante não estarmos a sonhar ou a ser ludibriados por um génio maligno! Admirador de Galileu, anti-aristotélico prudente, católico convicto, preferindo habitar as ruas fervilhantes e anónimas da Holanda protestante, Descartes garante-nos que há uma equação indesmentível. O Mundo é Extensão e a Extensão é o Mundo. Tudo o resto é duvidoso e só nos afasta do essencial. Neste Universo, tirando a alma humana, tudo é material. Como a Matéria é Extensão, quer dizer, confunde-se com o Espaço, eis um território ideal para matemáticos e geómetras, onde sempre prevalece a lei da quantidade e do cálculo. Pensar o Universo é pensar o Espaço, pensar o Espaço é pensar a Matéria. Estranha conclusão dum filósofo aparentemente virado para o Espírito, mas que abre caminho ao mais radical dos materialismos, onde tudo são máquinas, autómatos, alavancas, por toda a parte fluxos, esquemas, cálculo, geometria. O Universo é, para Descartes, uma gigantesca “máquina material”, acessível à Razão humana, apesar das limitações dos sentidos. Planetas, sóis, cometas circulam nos céus obedecendo a equações e só há matéria “mais grossa” e matéria “mais fina e subtil”. Os movimentos dos astros não obedecem a forças misteriosas, mas resultam de “turbilhões”, vórtices, redemoinhos, imenso jogo de mecânica totalmente demonstrável e compreensível. Apesar de Descartes ter morrido pouco antes de Newton, em 1687, ter proposto o princípio da gravitação, a ideia duma força atractiva universal, nunca os cartesianos concordariam com tal “princípio”, que parecia mais próximo da magia medieval/renascentista que da racionalidade moderna. Nos séculos XVIII e XIX a Física e Cosmologia cartesianas são consideradas erros crassos, delírio racionalista sem fundamento ou utilidade, cedo esquecido no armazém das curiosidades e velharias. Mas não deixa de ser surpreendente que, a seu modo, o século XX re-utilize o perfil de Descartes através do pensamento de Einstein, que na Teoria da Relatividade acaba por nos dizer que o segredo do Universo reside na Geometria, que a “matéria” é redutível ao “Espaço-Tempo” e que a substância do universo é o “contínuo espaço-tempo de 4 dimensões” de curvatura continuamente variável. Como até hoje não se encontrou melhor modelo, parece estarmos condenados a viver num Mundo inacessível aos nossos sentidos, que não podemos desenhar, nem pintar, nem intuir. Só longas equações o descrevem, tal como o tinham previsto, por pura aposta mental, os pitagóricos. É um Universo aristocrático, inacessível às maiorias, aos homens e mulheres que nascem, morrem, lutam, riem ou sofrem. Não porque o segredo esteja fechado a sete-chaves, mas porque para o entender é necessário dedicar uma vida inteira a preparar a contemplação da harmonia e elegância dessas equações. Há momentos em que penso que nada disto é justo, pois o importante escapa- -nos sempre, a quase todos. E quase sinto saudades dos “dias do princípio” em que a Terra era um disco plano terminando no horizonte a que nunca chegamos e, docemente, flutuava sobre as águas.

Levi António Malho in ler.letras.up.pt