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Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2013

Hannah Arendt - penso logo resisto - um filme a não perder!

Hannah Arendt é uma figura central no pensamento filosófico do século XX. Tão genial como controversa, as suas ideias geraram polémica, debate e insultos, sobretudo pela sua coragem em abordar friamente um tema tão delicado como o holocausto e, mais concretamente, o estudo do caráter dos seus executores, para chegar ao conceito da banalidade do mal.
Apesar de se situar ao nível do pensamento, que é algo impossível de filmar, o enorme alarido provocado em torno do artigo publicado na New Yorker, em que tece considerações a partir do julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, é matéria cinematográfica suficientemente forte. O pensamento de Hannah Arendt neste domínio tem duas ideias marcantes: aquele homem, expectavelmente um monstro maldoso, é afinal uma nulidade, a negação da própria natureza humana, que cumpria ordens sem as questionar. Arendt avançou com a tese de que nazis com Eichmann simplesmente abdicaram de ter ideias próprias. Não faz isso com o intuito de desculpar, perante…

A arte de persuadir

«A arte de persuadir tem uma relação necessária com a maneira com que as pessoas consentem naquilo que se lhes propõe, e nas condições das coisas em que se quer que elas acreditem. Ninguém ignora que existem duas entradas por onde as opiniões são recebidas na alma, que são o seus dois principais poderes: a inteligência e a vontade. A mais natural é a inteligência, porque só se poderiam admitir as verdades demonstradas; mas a que mais frequentemente se acolhe, ainda que contra a natureza, é a da vontade, porque todos os homens são quase sempre lavados a crer não no que é provado, mas no que lhes agrada. Esse é um caminho rasteiro, indigno e estranho: também toda a gente o desaprova. Cada qual faz profissão de não acreditar e mesmo de não gostar senão do que merece crédito. Aqui não me refiro às verdades divinas, que eu não poderia sujeitar à arte de persuadir, já que elas estão infinitamente acima da natureza: só Deus as pode colocar na alma, e pela maneira que lhe apraz. […] E daí pa…

Para que é que eles servem? - Por M.M.Carrilho

Mas, afinal, para que é que eles servem? Eles são os economistas, claro, que em rigor nada conseguiram prever do que aconteceu, e hoje nada conseguem resolver nem, na verdade, esclarecer. Esta impotência devia ser, a meu ver, o principal tópico do pensamento político atual, ele é muito mais decisivo do que as piruetas e as lérias que por aí correm sobre a "reforma do Estado".
Porquê um tal fracasso? E como é que, nestas circunstâncias, é possível "fazer fé" nas suas sempre desmentidas profecias, como se vivêssemos num sucessivo garrote de ilusões e de decepções? Para nos libertarmos disto, temos de urgentemente mudar de lentes, porque são as nossas erradas perspetivas que estão a condicionar a perceção individual e coletiva da realidade, num processo que simultaneamente - e isso está bem estudado há muito tempo - vai astuciosamente construindo essa mesma realidade - a tal que, depois, claro, não tem alternativa!...
Mudar de lentes e olhar de olhos bem abertos para …

A minha dívida à escola pública

Tudo o que sou e sei devo-o à escola pública, à abnegada dedicação de professores, cujas memórias retenho com emoção e saudade. Não é mau ter saudade: é manter o lastro de uma história que se entrecruza com a dos outros, de muitos outros. É sinal de uma pertença que transforma as relações em laços sociais, frequentemente para toda a vida. Da primária ao secundário, e por aí fora, a presença desses homens e dessas mulheres foi, tem sido, a ética e a estética de uma procura do próprio sentido da vida. O débito que tenho para com eles é insaldável. A paciência solícita, o cuidado e a atenção benevolente do tratamento dispensado aos miúdos desbordavam de si mesmos para ser algo de grandioso. Ah! Dona Odete, como me lembro de si, da sua beleza mítica, da suavidade da sua voz, a ensinar-nos que o verbo amar é transitivo. Também lhe pertenço, e àqueles que falavam das coisas vulgares das ruas e dos bairros, da cadência melancólica das horas e dos dias, com a exaltação de quem suspira uma re…

Discurso da intervenção de José Pacheco Pereira na Aula Magna (21 de Novembro de 2013)

Sei do "perigo" que o uso do ensino em favor da politiquice tem e nego-me a prestar tal "serviço". Aqui, ao contrário, uso a Política em prol do ensino. E gostava que fosse exclusivamente essa a leitura a fazer, embora reconheça o risco de alguma mente mais "maquiavélica" insistir em ver nesta escolha sinais de conspirações e contra-poder - quero estar longe desses transtornos delirantes persistentes, mais ou menos maníacos e obsessivos.
Serve o trecho que elegi para ilustrar de forma academicamente exemplar, viva e actual, a técnica do discurso argumentativo - já é raro haver quem pense e exponha de forma cuidada e precisa as suas ideias; digo isto independentemente da simpatia maior ou nenhuma que elas nos possam merecer.
É no contexto da vida pública que a argumentação atinge a sua máxima força e pertinência e é nesse âmbito que gostava que este discurso fosse estudado. Tomei a liberdade de cortar a parte inicial que, embora de interesse, me parece pe…

A diferença

A coisa mais bonita do mundo, mais bonita do que a beleza, é a diferença.  Suponhamos que o leopardo é o animal mais bonito da terra. Mais bonito do que ver cem leopardos juntos é ver um leopardo rodeado de outros animais, feios ou bonitos. Bonito, bonito é um leopardo ao pé de um ornitorrinco, um ornitorrinco ao pé de um flamingo, um flamingo ao pé de um crocodilo. É por isso que a ideia da Arca de Noé é tão comovente. Noé não escolheu os animais mais bonitos, nem os mais úteis, nem os mais fortes. Escolheu dois de cada espécie, não porque tivessem alguma qualidade particular, mas por serem diferentes dos demais.  Ser diferente é uma qualidade só por si. Só por ser diferente tem de ser defendido. Acontece, porém que vivemos num tempo igualitário, unificador e racionalista em que as diferenças que ainda existem tendem a ser abolidas.  M. E. Cardoso «O Sabor Está na Diferença» in Último Volume, p.47

Há algo a acrescentar às opiniões dos filósofos? (Entrevista a Desidério Murcho)

Há quem considere que as opiniões dos filósofos já são todas antigas e que agora pouco há a acrescentar. Concorda?
Essa ideia só pode derivar de um profundo desconhecimento da filosofia contemporânea. Seria como dizer que a música morreu, ou a pintura, ou a matemática. Pelo contrário, nunca se fez tanta filosofia e com tanta qualidade como hoje. Tal como nunca se fez tanta música, pintura e matemática como hoje. É evidente que as ideias dos filósofos contemporâneos devem muito aos filósofos do passado; tal como as ideias dos físicos devem muito às ideias dos físicos do passado. Se não nos apoiássemos no legado que os nossos antecessores nos deixaram teríamos de partir do zero a cada nova geração, e portanto não poderia haver progresso. Ora, é deste facto que surge um mal-entendido: uma pessoa sem formação adequada em filosofia lê um filósofo contemporâneo e fica com a ideia falsa de que afinal são as mesmas ideias do que as de Kant ou Platão ou Tomás de Aquino. Mas isto é só uma disto…

Apontamento esquemático para estruturar um texto argumentativo

Partes constitutivas do texto argumentativo: Tema – assunto; Tese – opinião defendida e outras teses possíveis Argumento – provas utilizadas para defender uma tese e invalidar as outras. Exemplo – casos concretos que sirvam para ilustrar o argumento.
Tipos de raciocínio: Raciocínio dedutivo – vai-se do geral para o particular. Raciocínio indutivo – parte-se de exemplos particulares para formular uma lei geral. Raciocínio concessivo – concede-se uma parte à tese contrária com o intuito de reforçar a nossa posição.
Tipos de argumento: Argumento “a contrario” – mostra que a tese contrária leva a consequências absurdas Argumento de autoridade – opinião de uma personalidade digna de crédito Argumento “ad hominem” – ataque à personalidade do adversário Todas as formas que estudámos ao longo das aulas e disponíveis no documento sobre as falácias.
Objectivos deste tipo de texto: Agradar – seduzir - atrair > agitar, pôr em movimento > Ensinar Por isso é importante cativar o …

As opiniões dos filósofos valem todas o mesmo? (Entrevista a Desidério Murcho)

Os filósofos têm opiniões diferentes entre si. Pensa que valem todas o mesmo ou há umas melhores do que outras?
Compete a cada um julgar. Do meu ponto de vista há filósofos particularmente pobres, cujas ideias são pouco sofisticadas, revelando muitas vezes uma grande ingenuidade. Mas, independentemente desta ideia polémica, é absurdo pensar que todas as opiniões dos filósofos valem o mesmo. Afinal, há músicos melhores do que outros, tal como matemáticos e historiadores. Por que razão só no caso dos filósofos seriam todos iguais? A razão compreende-se quando se vê o estado a que chegou o ensino da filosofia no nosso país. Os licenciados não contactaram com os grandes filósofos clássicos de um ponto de vista filosófico; apenas leram vagamente alguns "textos" desadequados, sem terem a necessária preparação filosófica, e sem que lhes fosse permitido avaliar criticamente esses "textos". É como se alguém me desse "textos" clássicos de medicina para eu ler. Como…

O que têm de especial as opiniões dos filósofos? (Entrevista a Desidério Murcho)

«Quando se começa a ler a imensa bibliografia filosófica contemporânea repara-se que afinal a Filosofia não morreu»
Num certo sentido, nada têm de especial; como todas as opiniões de especialistas, sejam eles músicos ou físicos, são opiniões particularmente importantes, a que devemos dar atenção. Mas há dois aspectos em que o tema das opiniões é particularmente importante no ensino da filosofia. O primeiro é que acontece com o bom ensino da filosofia o que não acontece com o ensino de outras disciplinas: o que se pede aos estudantes é que formem uma opinião. Este aspecto singular da disciplina apanha muitos professores de surpresa; não sabendo reagir a este aspecto, refugiam-se na história da filosofia ou no repetitorium das ideias dos filósofos - até porque não saberiam avaliar as opiniões dos estudantes, que têm tendência para pensar que, como todas as opiniões, são pessoais e insusceptíveis de ser avaliadas. Mas isto é uma confusão. A opinião que se pede a um estudante de filosofia…

A Filosofia não depende da opinião de cada um - por Rolando Almeida

Existe uma ideia que tem tanto de comum como de errada de que a filosofia não se define, pois depende da opinião de cada pessoa. Se o Asdrúbal passar uma rasteira ao Aníbal, algumas pessoas vão pensar que o Asdrúbal foi injusto com o Aníbal e outras vão ainda pensar que o Asdrúbal fez muito bem e foi muito justo, pois o Aníbal andava a merecê-las. Segue-se daí que não exista um conceito de justiça que esteja para além da opinião das pessoas? Claro que não. Se alguém te dissesse que é cientista e tem uma opinião para resolver um problema, provavelmente acharias estranho, pois sabes bem que as teorias dos cientistas não resultam das opiniões pessoais dos cientistas, mas são o resultado da sua investigação sistemática e do seu estudo com a equipa de cientistas. E o mesmo acontece com a filosofia. O que os filósofos fazem é muito mais do que dar a sua opinião sobre um problema. O que eles fazem é tentar avançar teorias que resolvam problemas. Ora, isto é muitíssimo mais do que dar a sua …

As razões dos professores

Uma avaliação séria e competente aos professores faz todo o sentido. Os seus métodos de ensino e os seus resultados devem ser avaliados de várias perspectivas e abordando os vários interessados, dos alunos aos pais, acabando, claro está, pelos colegas e pelos directores de escolas. Se esse processo, que começou muito ambicioso e acabou bastante simplificado após a enorme polémica com os sindicatos que impuseram muitos avanços e recuos, se for perdendo no tempo, conforme mudarem os Governos, estaremos perante um enorme retrocesso. Já em relação ao exame para os professores contratados, marcado para o próximo dia 18 e suspenso por várias providências cautelares, há muitas dúvidas sobre a sua real eficácia e, sobretudo, sobre as suas intenções. Estamos perante uma espécie de "prova de acesso" para profissionais que além de terem já completado a sua formação têm, na sua maioria, vários anos de experiência, pela qual foram (e são) também avaliados. Impor um teste deste género é d…

A Água - Economia, Política e Direitos Humanos

A mentira é a base da civilização moderna - por Teixeira de Pascoaes

É na faculdade de mentir, que caracteriza a maior parte dos homens actuais, que se baseia a civilização moderna. Ela firma-se, como tão claramente demonstrou Nordau, na mentira religiosa, na mentira política, na mentira económica, na mentira matrimonial, etc... A mentira formou este ser, único em todo o Universo: o homem antipático.  Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita. A máscara deu-lhe prestígio, tornando-a misteriosa, e portanto, respeitada. De forma que a mentira, como ordem social, pode praticar impunemente, todos os assassinatos; como utilitarismo, todos os roubos; como senso prático, todas as tolices e loucuras. A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens são súbditos desta omnipotente Majestade. Derrubá-la do trono; arrancar-lhe das mãos o ceptro ensaguentado, é a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direcção dos grandes mestre…

Teimosia política - Fernando Pessoa

Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.  A coerência, a convicção, a certeza são além disso, demonstrações evidentes — quantas vezes escusadas — de falta de educação. É uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é maçá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade.  Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral d…

Afinal o que é ser de esquerda ou de direita? O esvaziamento político das ideologias. - Vergílio Ferreira

Os políticos que se dizem de esquerda, por ser o bom sítio de se ser político, estão sempre a afirmar que são de esquerda, não vá a gente esquecer-se ou julgar que mudaram de poiso. Mas dito isso, não é preciso ter de explicar de que sítio são os actos que a necessidade política os vai obrigando a praticar. Como os de direita, aliás, que é um lugar mais espinhoso. O que importa é dizerem onde instalaram a sua reputação, na ideia de que o nome é que dá a realidade às coisas. E se antes disso nos explicassem o que é isso de ser de esquerda ou de direita? Nós trabalhamos com papéis que não sabemos se têm cobertura, como no faz-de-conta infantil. Mas o que é curioso é que o comércio político funciona à mesma com os cheques sem cobertura. E ninguém tira a limpo esse abuso de confiança, para as cadeias existirem. Mas o homem é um ser fictício em todo o seu ser. E é precisa a morte para ele enfim ser verdadeiro.  Vergílio Ferreira, in 'Pensar'

O que verdadeiramente nos mata - Eça de Queirós

O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo, simples e bom, não confia nos homens que hoje tão espectaculosamente estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados», e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo …

O texto satírico - "Embora usar um pin?" - por António Lobo Antunes

Perguntam-me muitas vezes por que motivo nunca falo do governo nestas crónicas e a pergunta surpreende-me sempre. Qual governo? É que não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento. Claro que as crianças lhes acrescentaram um pin na lapela, porque é giro - Eh pá embora usar um pin? que representa a bandeira nacional como podia representar o Rato Mickey - Embora pôr o Rato Mickey? mas um deles lembrou-se do Senhor Scolari que convenceu os portugueses a encherem tudo de bandeiras, sugeriu - Mete-se antes a bandeira como o Obama e, por estarem a brincar às pessoas crescidas e as play-stations virem da América, resolveram-se pela bandeirinha e aí andam, todos contentes, que engraçado, a mandarem na gente - Agora mandamos em vocês durante quatro anos, está bem? depois de prometerem que, no fim dos quatro anos, comem a sopa toda e estudam um bocadinho em lugar de verem os Simpsons. No meio dos meninos há um tio id…

Perguntas ainda não respondidas

(Escolher legendas)

A pirâmide do sucesso de john Wooden

(Escolher legendas)


"Verdade inconveniente" - Os colégios privados

Economia e felicidade

Guardei da minha infância uma caneta de tinta permanente, com o meu nome gravado, oferecida quando completei os primeiros quatro anos de escola. Lembro-me de a usar com um cuidado redobrado, possuída do receio de que alguma gota da tinta azul me caísse na folha branca ou no tecido da bata. Nessa imprevidência, a mancha alastrava impetuosa por cada fibra do papel ou do tecido, e derramava-se, impossível de conter, qual ação sem dono. É esta a imagem que me ocupa quando penso na presente colonização da nossa existência pela economia. Como um borrão incontrolável, toca hoje todas as fibras e esferas da nossa quotidianidade. A cada passo a sua premência nos recorda de quão longe estamos das previsões de Habermas, que há poucos anos nos dizia acreditar que a utopia emigraria do mundo do trabalho para o resto da nossa vida, em formato de compromisso cívico e solidário, e de melhoria das instituições democráticas – movimentos essenciais para a esperança num futuro comum. Destoando desta per…

Não há vontade absoluta ou livre - Espinosa

A condição humana seria realmente muito mais feliz se o ser humano tivesse o poder de fazer silêncio como tem o de falar. Mas a experiência ensina-nos com abundantes exemplos que nada está mais afastado do poder do ser humano do que fazer silêncio ou controlar os seus apetites. Daqui resulta a perspectiva muito comum de que só agimos livremente nos casos em que os nossos desejos são moderados, porque os nossos apetites podem então ser facilmente controlados pela memória de outra coisa que frequentemente nos vem à mente; mas quando procuramos algo com uma emoção forte que não pode ser acalmada pela memória de outra coisa, não podemos controlar os nossos desejos. De facto, não tivessem eles descoberto pela experiência que fazemos muitas coisas de que nos arrependemos mais tarde e que, com frequência, quando estamos à mercê de conflitos de emoções, «vemos o que é melhor e fazemos o que é pior», e nada os impediria de acreditar que todas as nossas acções são livres. Um bebé pensa que proc…

O Capitalismo e a possível incapacidade de criar trabalho - Anselm Jappe

No capitalismo, é a relação com o trabalho que nos define, diz o filósofo Anselm Jappe, em Lisboa a convite do Teatro Maria Matos. Mas o sistema é um "castelo de cartas que começa a perder peças". E é tempo de repensar o conceito de trabalho. O capitalismo distorceu a ideia de trabalho, desligando-a das necessidades reais da sociedade. Trabalhamos a um ritmo cada vez mais acelerado apenas para alimentar a lógica do sistema. Mas este parece ter entrado numa rota de autodestruição porque, com a exclusão de cada vez mais gente do mercado de trabalho, há também cada vez mais gente excluída do consumo, afirma o filósofo Anselm Jappe, nascido em 1962 na Alemanha e que hoje vive entre França e Itália. (...) - A sua conferência chama-se Depois do Fim do Trabalho: A caminho de uma humanidade supérflua? O fim do trabalho está no nosso horizonte? Essa afirmação teria espantado muita gente há algumas décadas, porque a sociedade moderna é por definição uma sociedade do trabalho, onde se c…