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Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2014

Religiões - do conhecimento à paz

Qualquer pessoa verdadeiramente religiosa já alguma vez disse para si mesma: se tivesse nascido noutro continente, de uma família de outra religião, muito provavelmente a minha pertença religiosa seria outra. Na Índia, seria hindu. Em Marrocos ou na Indonésia, muçulmano. Em Israel, de mãe judaica, seguiria o judaísmo. Na China, seria confucianista ou taoísta. No Japão, xintoísta. Na Europa, em Portugal, cristão católico; na Rússia, cristão ortodoxo; na Suécia, cristão luterano. (...) Se tivesse nascido como um dos 1200 milhões de seres humanos na Índia, provavelmente seria hindu. Acreditaria no samsara, o ciclo das reencarnações, no quadro de uma compreensão cíclica do tempo, da natureza, dos diferentes períodos cósmicos e da história. Aceitaria que tudo é regido por uma "ordem eterna" ("Sanata dharma"), cósmica e moral e pela qual o ser humano se deve orientar. Importante é agir correctamente. Acreditaria que a minha vida presente resulta da minha acção moral boa…

A Ética do pós-dever - por Carlos Gomes

A época contemporânea, também denominada pós-Moderna, trouxe-nos a partir da introdução do novo
paradigma do ‘homem individual e subjectivo, um novo conceito de ética – a ética dos novos tempos democráticos.
Gilles Lipovetsky, na sua obra ‘O Crepúsculo do Dever’, surgido já nos idos anos 90, mais concretamente em 1994, e talvez o meu livro favorito, introduz uma nova concepção ética. Esta nova concepção é a antítese da anterior, tradicionalista e de base religiosa. Agora, o homem reflecte o novo espírito do tempo, afinal uma nova ideologia cultural - a cultura do pós-Dever. Uma cultura do presente, hiperbólica do espectáculo e do divertimento.
Sinteticamente poder-se-á relembrar a ética tradicionalista, de cariz religiosa. Nesta, a cultura estava centrada na lógica sacrificial do Dever. Este dever, de fundo doutrinário, pois assentava no imperativo categórico de Deus, implicava uma finalidade escatológica – o reino do Céu e o sonho do Paraíso. No imperativo do Dever religioso, o idea…

A mundividência do P. António Vieira

Entre as figuras maiores do pensamento português do século XVII conta-se certamente António Vieira, com uma vasta obra que dele fez um moralista, um político e um filósofo da história, tudo coberto pelo manto omnipresente da arte retórica. Como moralista, sublinhou as virtudes do estoicismo, sobretudo de Séneca a quem seguiu de perto, servindo-lhe o filósofo estóico como padrão de aferição do desconcerto do seu mundo, a que tantas vezes se referiu com as metáforas do jogo, da loucura e do sonho, temas muito enfatizados pela cultura barroca, tal como já sucedera com Gil Vicente, Camões ou Amador de Arrais, que tiveram no desconcerto do mundo um tópico essencial de expressão do seu descontentamento. O que estava então em causa, para Vieira em particular, era a consciência do aumento do ritmo de encadeamento dos fenómenos no tempo, levando a uma desestruturação rápida e estonteante dos «lugares naturais», transformando a sociedade num teatro e a vida numa comédia, com a constante alteraç…

Relativizar a cultura europeia - por Eduardo Lourenço

Sem levar o exercício da auto-negação a extremos que fazem as delícias e até a especificidade de um comportamento cultural bem europeu, a simples constatação de que existe essa cultura europeia, tanto no passado, como no presente, revela ou suscita um certo consenso e mesmo um consenso certo. Há uma cultura europeia, como há uma cultura africana, uma cultura americana, uma cultura asiática ou uma multiplicidade de culturas que a si mesmas se consideram como distintas das demais. Recentemente, Samuel Huntington, três séculos depois de Montesquieu e quatro depois de Montaigne, afirma que a realidade cultural do planeta é a de um arquipélago de culturas e, através desta constatação fáctica, de carácter etnológico e etnocêntrico, deseja despir o conceito mesmo de cultura de qualquer carácter de universalidade em favor de uma "antologia" do diferente. Não deixa de ser interessante a nossa questão - que tomada à letra e levada às suas últimas consequências a converteria em pseudo-…

A ética da diferença

Vivemos uma época em que nossas certezas se desvanecem. A instabilidade dos valores e a sensação de perda de sentido é o que caracteriza, para muitos, a nossa condição pós-moderna. Neste mundo, o pluralismo tem se tornado um dos valores proeminentes. Isto significa que se aceita cada vez menos que as semelhanças se sobreponham às diferenças. A princípio, toda forma de vida é permitida e nenhuma concepção, lei ou ideologia pode tornar impermissível uma forma de vida particular. O universalismo como valor central da modernidade, vem sendo substituído pela aceitação da diferença. Argumenta-se que a condição pós-moderna tornaria possível a existência de indivíduos mais livres do que poderia garantir o ideário modernista. Como afirma Bauman, o que marca a pós-modernidade é a vontade de liberdade. Perdemos a segurança, mas nossa vontade de liberdade parece ter se ampliado. Desse ponto de vista, uma das principais críticas feitas ao marxismo, actualmente, é, justamente, a sua precariedade e…

O movimento em Parménides

«Diziam os gregos que Heraclito falava por enigmas, por duas razões principais. Primeiro, o seu próprio temperamento levava-o a deleitar-se com uma linguagem teatral e paradóxica. Deixou-nos francos paradoxos como “O bem e o mal são o mesmo”, ou ainda uma imagem sugestiva e torturante como esta: “O tempo é como uma criança que joga às damas; o tabuleiro é o reino da criança”. Em segundo lugar, Heraclito é difícil, porque nele o pensamento tinha alcançado uma etapa particularmente complexa. Já não podia aceitar por mais tempo as simples cosmogonias dos jónios, nem achar fácil e natural confinar a vida e o pensamento na camisa de forças da substância material. É óbvio que estes dois factos levariam em breve a uma situação de ruptura. A ruptura produziu-se de um modo estranho. Foi devida, em definitivo, à obra de um pensador simultaneamente poderoso e limitado, cuja força e cujas limitações constituem igualmente uma linha divisória no pensamento grego. Este pensador foi Parménides, cuja …

Ser e devir

O surgimento da filosofia, na Grécia do século VI a. C., assinala uma nova forma de o homem estar no mundo. Essa nova postura vem a ser o fundamento originário de todo o pensamento filosófico e, consequentemente, do pensamento científico, pois como se verifica com Platão e Aristóteles, a episteme, a ciência, está no centro da indagação filosófica. É certo que a ciência moderna está longe de ser a episteme pensada por Platão e Aristóteles, cuja atenção se virava para o Todo e para o ser enquanto ser, enquanto o conhecimento científico moderno foi progressivamente se voltando para o ente, tendo em vista o projecto humano de domínio e transformação da natureza pela técnica. Daí que a actividade científica tenha fragmentado e multi-espartilhado o conhecimento, acabando por se tornar na tecnociência atual. Porém, os princípios epistemológicos por eles fundados – e que fizeram prevalecer a filosofia sobre a sofistica – constituem até à contemporaneidade o solo intransponível em que assenta…

A força e o direito - por Adriano Moreira

Os dois últimos conflitos ocidentais que dão pelo nome de guerras mundiais pareciam ter encaminhado no sentido de que, pelo menos por algum longo período, a escolha entre a força e o direito se inclinava em favor do segundo, vista a dimensão crescente dos desastres derivados dos enfrentamentos militares. Autoridades na área académica e da política, como Villepin, inquietas com o início do conflito no Iraque ainda à espera do ponto final, insistiam em que apenas tinham esperança no consenso e respeito pelo direito, limitando a legitimidade do uso da força. Por esse tempo, ainda não muito distante, havia quem não desistisse da convicção de que a ONU era mais do que nunca insubstituível, sobretudo para generalizar o modelo democrático na constituição dos Estados que se multiplicavam depois da criação da organização. Foi a visão da possibilidade de pôr a justiça acima do recurso à força que encaminhou para a confiança na criação de tribunais internacionais, com destaque para o Tribunal P…

A questão de Deus - A "causa primeira" em Bertrand Russel

Esta questão da existência de Deus é assunto longo e sério e, se eu tentasse tratar do tema de maneira adequada, teria de reter-vos aqui até o advento do Reino dos Céus, de modo que me perdoareis se o abordar de maneira um tanto sumária. Sabeis, certamente, que a Igreja Católica estabeleceu como dogma que a existência de Deus pode ser provada sem ajuda da razão. É esse um dogma um tanto curioso, mas constitui um de seus dogmas. Tiveram de introduzi-lo porque, em certa ocasião, os livre-pensadores adoptaram o hábito de dizer que havia tais e tais argumentos que a simples razão poderia levantar contra a existência de Deus, mas eles certamente sabiam, como uma questão de fé, que Deus existia. Tais argumentos e razões foram minuciosamente expostos, e a Igreja Católica achou que devia acabar com aquilo. Estabeleceu, por conseguinte, que a existência de Deus pode ser provada sem ajuda da razão, e seus dirigentes tiveram de estabelecer o que consideravam argumentos capazes de prová-lo. Há, p…

Filosofia, acção prática e política

« A doença profissional da filosofia actual parece-me ser uma espécie de reflexividade sem fim» 
Eric Plouvier: poderá a filosofia aclarar a acção prática e política? 
Paul Ricoeur: Uma das pontes que tentei lançar, nestes últimos anos, situa-se entre o texto e a acção. A tarefa coloca em jogo a semântica, a linguística, as ciências da linguagem. Por um lado, existem textos sobre a acção, entre outros os textos narrativos e, por outro, a acção é também um texto legível pelos outros já que ela é conduzida por meio de palavras.  Da mesma forma que um texto se torna independente do seu autor e produz efeitos autónomos, também a acção de cada um se incorpora nas acções dos outros e produz efeitos que nenhum dos protagonistas quis; entre estes efeitos não desejados encontram-se efeitos perversos. A acção segue assim o seu curso próprio. E vale a pena explorar este campo prático enquanto tal. Há portanto uma certa similitude entre a relação da acção com o seu agente e a do texto com o seu auto…

Entrevista a Jostein Gaarder (autor de "O mundo de Sofia")

(Português do Brasil)
- Como é a sua relação com a morte? - Vejo a morte como o final da vida. Epicuro dizia que não temos que nos preocupar com a morte, porque quando a morte existe, nós não existimos.
- Como se define? Escritor ou filósofo? - Se tivesse que escolher, diria que escritor. Quando era professor já escrevia. Logo publiquei O Mundo de Sofia e fui ao mesmo tempo uma coisa e outra. Através do Espelho e Ei! Tem Alguém Aí? foram livros filosóficos. Minha ligação com a vida tem sido essa desde sempre. Agora espero ser mais escritor.
- Como a foi sua infância? - Era uma criança solitária. Tinha dores de cabeça. Me lembro que contemplava as outras crianças brincar. Era muito reflexivo. Mas aos 10 anos era um garoto normal, apesar de não gostar de futebol.
- O destino, o jogo de cartas, as coincidências, a probabilidade... Todos esses temas estão presentes em seus livros. Você acha que tudo está preparado e que o destino impera? -Não creio na predestinação. Nem mesmo em vida depois d…

Ouvindo Beethoven - José Saramago

Venham leis e homens de balanças,
Mandamentos daquém e dalém mundo,
Venham ordens, decretos e vinganças,
Desça o juiz em nós até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade,
Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
Risquem no chão os dentes da vaidade
E mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam, peçam dedos,
Para sujar nas fichas dos arquivos,
Não respeitem mistérios nem segredos,
Que é natural nos homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
Relógios a marcar a hora exacta,
Não aceitem nem votem noutra arte
Que a prosa de registo, o verso data.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
Cercados de bastões e fortalezas,
Hão-de cair em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.

José Saramago, Poema a Boca Fechada, 1966

Europa: uma comunidade imaginada?

As identidades colectivas, como as identidades individuais, emergem através de interacções e relações sociais. Como é evidente, as identidades colectivas não são um produto necessário de todas as interacções e relações sociais. Assim, as identidades colectivas pressupõem interacções e relações sociais específicas. Apenas através da identificação dessas especificidades é possível definir uma identidade colectiva.  Um dos pré-requisitos fundamentais do processo de construção, reprodução e redefinição da identidade colectiva é a crença colectiva na existência de um Outro. O Outro emerge de interacções e relações sociais que despoletam um processo concomitante de diferenciação e construção simbólica da similaridade. Com efeito, a identidade colectiva requer um referente, isto é, a ideia de “nós” requer a ideia de “eles”. A identidade colectiva é inconcebível sem o Outro, sem a construção e reprodução contínua de fronteiras simbólicas.  As interacções e relações sociais que permitem a defi…

Liberdade e Virtude

A portugalite - a celebrar o Dia de Portugal

Entre as afecções de boca dos portugueses que nem a pasta medicinal Couto pode curar, nenhuma há tão generalizada e galopante como a Portugalite. A Portugalite é uma inflamação nervosa que consiste em estar sempre a dizer mal de Portugal. É altamente contagiosa (transmite-se pela saliva) e até hoje não se descobriu cura. A Portugalite é contraída por cada português logo que entra em contacto com Portugal. É uma doença não tanto venérea como venal. Para compreendê-la é necessário estudar a relação de cada português com Portugal. Esta relação é semelhante a uma outra que já é clássica na literatura. Suponhamos então que Portugal é fundamentalmente uma meretriz, mas que cada português está apaixonado por ela. Está sempre a dizer mal dela, o que é compreensível porque ela trata-o extremamente mal. Chega até a julgar que a odeia, porque não acha uma única razão para amá-la. Contudo, existem cinco sinais — típicos de qualquer grande e arrastada paixão — que demonstram que os portugueses, c…

Filosofia, Arte e Ciência - modos de pensar

Esquematicamente podemos dizer que o virtual corresponde à Filosofia e ao plano de consistência do conceito, o actual corresponde à Ciência e ao plano de referência da função, e o possível corresponde à Arte e ao plano de composição da sensação. Estes diferentes modos de pensar e de confrontar o caos, não são mais do que a constatação do caos como uma realidade em si. Pensar, é dar consistência ao caos. Não uma relação de exclusão, mas pelo contrário, de inclusão. Pensa-se contra o caos, mas também com o caos, uma vez que, para Deleuze, pensar e ser são uma e mesma coisa. Desde o ser vivo à obra de arte, há uma autoposição do criado. Por isso, recortar o caos, torná-lo consistente, é conferir-lhe uma realidade própria. É conferir-lhe uma objectividade e uma autoposição. A Filosofia precisa de uma não-Filosofia, tal como a Ciência e a Arte. O caos torna-se Pensamento, adquire uma realidade enquanto Pensamento ou "caosmos" mental. A arte, a Ciência e a Filosofia são portanto …

Ética, sim, mas que ética? - por Cerqueira Gonçalves

1. A época actual, que se vai designando, um tanto ou quanto empoladamente, de pós-moderna, não escapa, à semelhança do muitas outras, aos ritmos de coerência e paradoxo.  2. Época de razões fracas, mas tempo de urgência ética, imposta pelos próprios cientistas, que não encontram, no exercício da sua área específica, suficiente inteligibilidade para a complexidade da existência, a começar pelos critérios de aplicação da ciência e da técnica.  3. Para os chamados tempos de crise, a ética é a referência de recurso mais habitual. Ela é evocada agora sobretudo para sustentar os ímpetos predatórios, que vão contaminando a salubridade do ambiente, e para orientar - ou impedir - as incursões da engenharia genética no santuário do organismo humano.  4. O recurso à ética representa uma espécie de reacção instintiva, de índole psicológica e cultural, às ameaças que parecem atentar contra a sagrada integridade humana. No entanto, uma análise mais pormenorizada deste fervor ético, leva facilmente à …

Religião e cultura

«Uma cultura depende da qualidade dos seus deuses, da configuração que o divino tiver assumido face ao homem, da relação declarada e da encoberta, de tudo o que permitir que se faça em seu nome, e, mais ainda, da contenda possível entre o homem, o seu adorador, e essa Realidade; da exigência e da graça que a alma humana se outorga a si mesma através da imagem divina» Maria Zambrano, O homem e o divino,
Lisboa, Relógio d’Água, 1995, p. 25

Marx e a crítica à religião

Para Marx a crítica da religião, obra de Feuerbach, estava, no essencial, terminada e era a premissa de toda a crítica na Alemanha: a crítica da religião deve, por isso, dar lugar a uma crítica mais radical - a crítica da situação, das condições sociais de injustiça que provocam a alienação religiosa. Deve, pois, criticar-se a alienação mais global do ser humano.  Considerada por Feuerbach a sua tarefa mais importante, a crítica da religião consiste, para este autor, em mostrar que a “essência teológica” da religião é falsa, e reduzi-la à essência do Homem - “o segredo da Teologia é a Antropologia” enquanto esta liberta o Homem da falsa imagem que lhe é atribuída pela cultura tradicional até ao Idealismo, inclusive.  A génese de Deus surge a partir da projecção que o homem faz de si mesmo e da sua essência. Basta olhar para a essência do Homem para encontrar tudo o que o homem atribui a Deus. Deus é produzido pelo homem - “A essência de Deus não é mais do que a essência do ser humano…

Ciência, fé e verdade

É a matemática realmente uma religião? E a ciência? Hoje em dia ouve-se muitas vezes dizer que a ciência é «apenas» mais uma religião. Há algumas semelhanças interessantes. A ciência oficial, tal como a religião oficial, tem as suas burocracias e hierarquias entre funcionários, as suas instalações grandiosas e esotéricas sem qualquer utilidade aparente para os leigos, as suas cerimónias de iniciação. Tal como uma religião decidida a alargar a sua congregação, a ciência tem uma enorme falange de missionários — que não se chamam a si mesmos missionários, mas professores. Eis uma fantasia engraçada: um observador mal informado presencia o trabalho de equipa, intrincado e formal, necessário para preparar uma pessoa para a parafernália esotérica de uma tomografia axial computorizada — um exame T.A.C. — e supõe tratar-se de uma cerimónia religiosa, um sacrifício ritual, porventura, ou a investidura de um novo arcebispo. Mas estas semelhanças são superficiais. E quanto às semelhanças mais p…