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Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro, 2013

A Filosofia e a visão comum do mundo - Oswaldo Porchat

Se me disponho a filosofar, é porque busco compreender as coisas e os fatos que me envolvem, a Realidade em que estou imerso. E porque quero saber o que posso saber e como devo ordenar a minha visão do Mundo, como situar-me diante do Mundo físico e do Mundo humano e de tudo quanto se oferece à minha experiência. Como entender os discursos dos homens e o meu próprio discurso. Como julgar os produtos das artes, das religiões e das ciências.
Mas não posso esquecer todos os outros que filosofaram antes de mim. Num certo sentido, é porque eles filosofaram que me sinto estimulado a retomar o seu empreendimento. O legado cultural da espécie põe à minha disposição uma literatura filosófica extremamente rica e diversificada, de que a minha reflexão se vai alimentando. Se me disponho a filosofar, tenho também de situar-me em relação às filosofias e aos seus discursos, tenho de considerar os problemas que eles formularam e as soluções que para eles propuseram.
Nesse contato com as filosofias …

Ilusionismo político

Vivemos dias de intenso ilusionismo político em que tudo o que se diz é, afinal, para afirmar outra coisa. E em que tudo o que se faz é, na verdade, para atingir objetivos que não são ditos. Este ilusionismo alimenta-se de uma constante teatralização da vida política, que tem contudo como o seu mais evidente reverso a sua quase completa descredibilização.
Todos sabemos que isto não é novo, que a "representação" de algum modo liga, desde os tempos mais remotos, a política e o teatro. Mas o que é novo é que a teatralização se tornou um processo de inextrincável e cúmplice porosidade entre as esferas política e mediática, que tudo procura transformar em "acontecimentos", em eventos coproduzidos como se - à imagem dos reality shows - se tratasse de verdadeiros info shows.
O recente programa da RTP Portugal Pergunta, com Pedro Passos Coelho, foi um bom exemplo disto mesmo, mas o encenado comentariado que inunda as tevês, a maior parte dos debates que por aí se fazem, a…

O Mal e Deus

1. Foi um convite amável e insistente. Para uma conversa com Valter Hugo Mãe. Na Universidade de Aveiro, no dia 8 de Outubro. O tema: Mal.
O que é que se diz sobre o mal? Comecei por recordar que há muitos tipos de mal: o mal físico, o mal moral, o mal metafísico, o mal fora de nós, o mal em nós..., chamando sobretudo a atenção para o facto de, se estávamos ali para essa conversa-debate, é porque nos sentíamos razoavelmente, com algum conforto e sem grandes aflições. Porque, quando o mal se abate sobre nós - um cancro, um terramoto, um tsunami, um filho que se nos morre desfeito em dores e perante a nossa impotência total, quando nos destruímos mutuamente, quando tudo se afunda sob os nossos pés, quando o futuro todo se apaga... -, aí gritamos, choramos, blasfemamos, rezamos..., não debatemos.
Ao longo do tempo, houve tentativas várias de solução para o mal, sobretudo quando nos confrontamos com Deus. Como é que Deus é compatível com todo o calvário do mundo? Lá está Epicuro: ou Deus…

O que avaliar em Filosofia?

À pergunta “o que vamos avaliar em Filosofia?” temos de responder com a identificação das competências filosóficas básicas, distinguindo as competências filosóficas das que não o são. Delas depende o tipo de actividades a escolher, bem como os respectivos instrumentos de avaliação: isto significa que não faz qualquer espécie de sentido começar por decidir se os alunos vão ter de fazer um trabalho individual, ou apresentar uma exposição oral, ou resolver um teste escrito, sem antes saber que competências podem e vão ser avaliadas mediante tais actividades. Isso seria tão sensato como votar num determinado partido político e só depois disso procurar saber o que esse partido defende e que pessoas o dirigem. Assim, a competência argumentativa de um aluno tanto pode ser avaliada através da resolução de um teste escrito como através de um debate na aula. Os instrumentos de avaliação, devem ser encarados como meros registos da recolha de informação acerca dos conhecimentos e competências fil…

Homem: o caminho das perguntas

«Uma pergunta não interroga: uma pergunta diz a resposta. Porque uma pergunta está do lado do problema a resolver, do ainda simplesmente desconhecido; e a interrogação está do lado do insondável. A pergunta desenvolve-se na clara horizontalidade; a interrogação na obscura verticalidade. Como em jogo de cabra-cega, em que há seres à nossa volta, a pergunta orienta-se entre os que lhe não pertencem até achar o que procura. Mas a interrogação não encontra, porque nada há para achar. O limite da sua esperança está menos no triunfo de um encontro, do que no cansaço, na resignação, ou na evidência natural do que nos coube, como nos é evidente ter cinco sentidos e não mais»
Vergílio Ferreira

O problema, o que se põe em questão, é o sentido da vida (sentidos sem sentido?). A estrada do homem é o próprio homem; o que define o seu poder não é o domínio das coisas: está no antes da coisa, está no mistério e no obscuro que talha a própria pergunta pelo sentido. F.Lopes

O acto humano (por Edgar Morin)

"Dizer que o homem é um ser biocultural não é simplesmente justapor estes dois termos, mas mostrar que eles se co-produzem e que desembocam nesta dupla proposição:
- Todo o acto humano é biocultural (comer, dormir, defecar, acasalar, cantar, dançar, pensar ou meditar).
- Todo o acto humano é, ao mesmo tempo, totalmente biológico e totalmente cultural.
Comecemos pelo primeiro ponto: o homem é um ser totalmente biológico. Antes de mais é preciso ver que todos os traços propriamente humanos derivam de traços específicos dos primatas ou dos mamíferos que se desenvolvem e se tornam permanentes. Neste sentido, o homem é um superprimata: traços que eram esporádicos ou provisórios no primata - o bipedismo, a utilização de utensílios e mesmo uma certa forma de curiosidade, de inteligência, de consciência de si - tornaram-se sistemáticos no homem. O mesmo se verifica no domínio da afectividade: o jovem mamífero é um ser ligado à mãe (...) e é nesta forma primitiva que radica o amor e a ter…

Proponho a leitura de um texto de estudo algo difícil...

Antes de mais registo com agrado a tua participação e interesse neste nosso espaço. Parece que vai ajudar a manter vivo o espírito que queremos para as aulas de Filosofia.
Para já aqui fica um texto com um vocabulário que te irá dar algum trabalho. Não desistas à primeira pois o conteúdo já foi abordado na sala de aula. Podes bem vencer este obstáculo!

"(...) O que é que faz de um discurso, um discurso retórico e, enquanto retórico, um discurso persuasivo?
A tese que pretendemos defender, seguindo de perto a posição de Olivier Reboul, é a de que é retórico num discurso o que o torna persuasivo pela união do fundo e da forma: a) entendendo por fundo o conteúdo informativo e a estrutura lógica da argumentação (lógos); b) entendendo por forma o que diz respeito à afectividade (o éthos e o páthos), à construção (dispositio) e ao estilo (elocutio), dando a este último ênfase particular. Dito de outro modo, o discurso retórico, porque se quer persuasivo, tem de assentar sempre em dois …

Mudança

Após o sucesso de As palavras possíveis… sobre o AMOR, a CulturALB- Associação de Artes, Recreio e Cultura de Albergaria-a-Velha regressa com mais uma noite de poesia intimista a 25 de outubro (22h00), no Cineteatro Alba, desta vez, sobre o tema da Mudança. A entrada é livre! Mudar para quê? Mudar por quem? Mudar para onde? Mudar o quê? O sabor dos dias, a nostalgia das horas, a quietude da paisagem. Ao longo dos séculos, vários poetas interrogaram-se sobre a necessidade de mudança, fazendo brotar conceitos diferentes em épocas diferentes.  Regina Aidos e Cristina Filipe, acompanhadas por outros declamadores, muitos deles oriundos do público, vão fazer uma viagem por inúmeros autores que se intrigaram sobre o processo de mutação e renovação. Textos de Bernardo Soares, Clarice Lispector, Nuno Júdice, Pablo Neruda, Ruy Belo, Álvaro de Campos, Luís Fernando Veríssimo ou António Gedeão vão oferecer matéria-prima para As palavras possíveis… sobre a MUDANÇA, numa sessão em que as várias ar…

Liberdade e determinismo

A liberdade e o determinismo são dois conceitos que se opõem mutuamente. A noção liberdade simboliza autonomia, independência, responsabilidade, mostrando assim que agimos em consciência. No entanto, é inevitável a rápida percepção de que não somos absolutamente livres. Isto acontece porque deparamo-nos com condicionantes que influenciam as nossas acções. Essa teoria filosófica – determinismo - defende que o homem não é totalmente livre de agir pois há limites à sua liberdade. A verdade é que não podemos fazer aquilo que nos dá na real gana. Dessa forma, os limites ou condicionantes podem ser de diversas ordens: físicas (estamos sujeitos às leis da natureza); biológicas (as nossas características genéticas influenciam a nossa forma de agir); psicológicas (medo e consciência); culturais (somos seres que vivemos em sociedade e por isso temos regras sociais) e finalmente religiosos (regras que divergem de religião para religião). O certo é que embora existam estas condicionantes o homem…

Família, casamento e sexualidade - sessão de debate

As condicionantes da acção humana

"O Homem é livre no seu querer e actuar, mas ele não é absolutamente livre sem limites e restrições. A compreender assim a liberdade, a essência do homem, tal como a experimentamos na nossa existência concreta, teria de ser redefinida. Nós experimentamos mais frequentemente os limites e as restrições da nossa liberdade. O que é que queremos dizer com isto?
Por limitação da liberdade entendemos factos que põem limites à liberdade da nossa decisão, para lá dos quais a liberdade é eliminada ou, pelo menos, restringida. Cada um vive numa situação única concreta da sua existência. Cada qual traz consigo, como herança, determinadas aptidões espirituais e corporais; desde a infância está marcado pelo meio que o rodeia, pelas influências de educação, pelo ambiente espiritual ético, religioso e ideológico em que se desenvolve; vive numa época determinada com o seu espírito (ou falta de espírito) histórico, vive em determinadas circunstâncias nacionais, sociais, politicas e culturais segui…

Aspectos técnicos do texto argumentativo

Objectivo: Formar a opinião do leitor ou ouvinte, tentando convencê-lo daquilo que está a ser exposto, modificar a opinião do interlocutor/leitor em relação ao mundo que o rodeia.
A argumentação incide sobre valores: Valores de ordem técnica (útil/inútil) Valores morais (bem/mal) Valores afectivos (agradável/desagradável) Valores modais (necessidade/ausência de necessidade; possibilidade/impossibilidade; verdadeiro/falso)
Composição de uma argumentação: Estrutura típica: -Primeira parte – tese – exposição do que deve ser tomado por verdadeiro; -Segunda parte – premissas – factos e pontos de vista aceites por uma comunidade social, funcionando como autoridade; -Terceira parte – argumentos – razões a favor e/ou contra a tese (a lógica dos argumentos é explicitada por adição, alternativa, oposição, negação, causa/efeito, consequência); -Quarta parte – conclusão – reafirmação da tese; conclui-se o raciocínio.
Técnicas argumentativas informais e formais frequentemente utilizadas: Alu…

Um mundo sem bússola - por Adriano Moreira

A perspectiva mais correta é admitir o globalismo como inspiração de pesquisa mais do que definição de
conhecimento adquirido e tentar entender componentes do pressentido todo, em geral identificados pelos efeitos nocivos na área limitada dos responsáveis pela governação. A crise financeira e económica, a que também poderíamos acrescentar da paz, é global, provoca reflexos, eventualmente justificativos, nas áreas que estão socialmente à responsabilidade de governos ainda não submetidos a protectorado, mas a busca de receita para a defesa contra o agravamento, ou para a mais problemática recuperação, é regionalizada, como acontece na União Europeia, cada vez mais projectando uma imagem triangular: a Europa dos pobres, a Mittel Europa a sussurrar directório em prussiano, e a ortodoxa. Na articulação procurada dos elementos visíveis do globalismo, os mediadores que procuram ajudar os povos com as indagações cujos resultados vão propondo, advertem cautelosamente que a economia mundial p…

DETERMINISMO E LIBERDADE (esquema)

esquema in jyotigomes.wordpress.com
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"OS NOSSOS POLÍTICOS NÃO SÃO GENTE" - Fernando Pessoa (1915)

"Perdemos a noção das proporções. (...) Os nossos políticos não são gente. Nenhum deles mostra ter tido na sua vida uma daquelas crises espirituais donde se emerge talvez ferido para sempre, mas psiquicamente homem, personalidade espiritual. São ateus pela mesma razão que o é um burro ou uma árvore. São portugueses porque, por desgraça nossa, nasceram adentro da nossa fronteira, oriundos de gente que assim tinha feito. Nenhuma consciência da Raça lhes acende um momento o olhar. São vazios e estúpidos. Só sabem comer e manobrar para comer.
A subserviência, a indisciplina, a desorganização dos homens; a desonestidade, a corrupção, a opressão dos processos governativos; a incúria com que fazem a educação como o fomento, o exército e a marinha como o comércio e a indústria - em que mudaram estas coisas, se não em refinarem, se não porque tudo piorou, pelo menos porque tudo progrediu, e onde o facto é o mal, progredir é piorar. Cada vez mais corruptos, cada vez mais indisciplinados, ca…

Regras dos Silogismos

(Este apontamento refere-se exclusivamente a silogismos categóricos regulares.)

O silogismo é uma forma de raciocínio dedutiva - a conclusão estará sempre contida nas permissas.
Na sua forma padronizada é constituído por três proposições: às duas primeiras vamos chamar premissas (maior e menor) e à terceira, conclusão.

Aqui fica um quadro com as oito regras de construção dos silogismos:


Todos os modos imperfeitos do silogismo, isto é, a segunda, terceira e quarta figuras, devem ser transformados em modos perfeitos da primeira figura, pois não respeitam a hierarquia dos termos. As palavras mnemónicas auxiliam na redução. Se as vogais indicam os modos, a quantidade e a qualidade das premissas, as consoantes S, P, M e C indicam a maneira para pela qual a redução será feita. As consoantes iniciais indicam o modo da primeira figura. Para isso, existem quatro possibilidades.
(S) Conversão direta: troca-se o sujeito pelo predicado e vice-versa. Por exemplo:
todo mortal é homem --> todo ho…

Cultura viva, cultura-mundo - por Manuel Maria Carrilho

Para agir é necessário compreender o sentido, ou os vários sentidos, do que acontece. Esta compreensão está hoje, contudo, muito refém da atualidade, que tanto condena os cidadãos ao atordoamento ( isto é, à inflação de notícias sem a correspondente capacidade para as organizar, hierarquizar ou metabolizar), como condena a democracia à desvitalização (isto é, ao cumprimento cada vez mais indolente das suas formalidades democráticas mínimas). Gilles Lipovetsky é um dos pensadores do nosso tempo que mais persistente e talentosamente têm contribuído para que se ultrapasse este estado de coisas. Todos os seus livros, todos os seus artigos, todas as suas intervenções são chaves preciosas para uma efetiva compreensão do nosso tempo e dos seus tão múltiplos como inéditos problemas. (...) A desagregação da sociedade, a alteração dos costumes, a afirmação do indivíduo, o consumo de massa, todos estes fenómenos decorriam de um novo processo que, segundo Gilles Lipovetsky, se situava no cerne d…

Três razões para estudar Filosofia

Uma razão importante para estudar filosofia é o facto de esta lidar com questões fundamentais acerca
do sentido da nossa existência. A maior parte das pessoas, num ou noutro momento da sua vida, já se interrogou a respeito de questões filosóficas. Por que estamos aqui? Há alguma demonstração da existência de Deus? As nossas vidas têm algum propósito? O que faz com que algumas acções sejam moralmente boas ou más? Poderemos alguma vez ter justificação para violar a lei? Poderá a nossa vida ser apenas um sonho? É a mente diferente do corpo, ou seremos apenas seres físicos? Como progride a ciência? O que é a arte? E assim por diante.
A maior parte das pessoas que estudam filosofia acha importante que cada um de nós examine estas questões. Alguns até defendem que não vale a pena viver sem as examinar. Persistir numa existência rotineira sem jamais examinar os princípios na qual esta se baseia pode ser como conduzir um automóvel que nunca foi à revisão.
Podemos justificadamente confiar nos…

Como estudar? (Sugestões e recomendações)

O método de estudo é pessoal e leva alguns anos a adquirir. Um grande número de alunos ainda não encontrou a melhor forma de rentabilizar o seu tempo e isso é, sem qualquer dúvida, importante. Antes de mais, deves cuidar do espaço onde estudas: deve ser sempre o mesmo; confortável, sem contudo convidar ao sono, com luz natural, com o material necessário e sem "distractores" (computador ligado de forma permanente, chats, telemóvel disponível para troca de sms, música em volume alto ou até médio, posters que fazem a tua imaginação "voar" mesmo no teu campo de visão, etc.). Evita que te interrompam e, se for necessário, pede às pessoas que respeitem esse teu tempo. Não são precisas muitas horas de estudo se o fizeres regularmente. Guarda diariamente o tempo necessário para rever e organizar os apontamentos que tiraste e para fazer algum "tpc" que te tenha sido pedido. Não deixes acumular matéria nem adies qualquer tarefa, mesmo que seja muito simples. Se as…

Economia de subsistência - por Adriano Moreira

Quando não era pressentida a crise económica e financeira a que está submetida grande parte dos países do mundo tornou-se usual, e por isso talvez perdendo conteúdo e força, pelo abuso dos discursos mobilizadores dos eleitorados, a adopção do programa desenvolvimentista, ficando de referência histórica a intervenção do Papa Paulo VI, na ONU, quando consagrou o conceito de que o desenvolvimento era o novo nome da paz. O que esteve fundamentalmente em vista, talvez sobretudo na segunda metade do século passado, foi o crescimento económico, incorporado em visões ideológicas, mas não agregando necessariamente regulação jurídica, critérios éticos, justiça na distribuição das rendas. Foi nesta linha simplificada que o dogma da globalização desenvolvimentista derivou para o neorriquismo apoiado no Estado espectáculo, que se libertou dos cuidados com a justiça social. Em muitos países do que foi a área da pobreza, a sul do equador até que ultrapassou a linha do Mediterrâneo, esse desenvolvime…

O partido da cadeira vazia - por Anselmo Borges

Todos somos animais políticos e, consequentemente, responsáveis pela condução da pólis. Estou de acordo com o Papa Francisco, com a observação de que, embora ele se refira só aos cristãos, o aviso é para todos: "Envolver-se na política é uma obrigação para o cristão. Enquanto cristãos não podemos lavar as mãos como Pilatos. Temos de nos meter na política, porque a política é uma das formas mais altas da caridade, pois procura o bem comum. Os leigos cristãos devem trabalhar na política. A política está muito suja, mas eu pergunto: "Está suja porquê?" Porque os cristãos não se meteram nela com espírito evangélico? É uma pergunta que eu faço. É fácil dizer que a culpa é dos outros... Mas eu o que é que faço? Isto é um dever! Trabalhar para o bem comum é um dever para um cristão." Tenho escrito aqui permanentemente que considero a actividade política - também no sentido mais estrito da governação - uma actividade nobre, das mais nobres. Quando isso acontece no quadro …

Liberdade e Sentido - J.P.Sartre

"A liberdade, segundo Sartre , é a possibilidade permanente daquela ruptura ou nulificação do mundo que é a própria estrutura da existência. "Eu estou condenado, a existir para sempre para além da minha essência, para além dos móbiles ou moventes e dos motivos do meu ato: eu estou condenado a ser livre. " Isto significa que não se pode encontrar para a minha liberdade outros limites além da própria liberdade: ou, se se preferir, que não somos livres de deixar de ser livres. A liberdade não é o arbítrio ou o capricho momentâneo do indivíduo: radica na mais íntima estrutura da existência, é a própria existência. Um existente que , como consciência, está necessariamente separado de todos os outros, já que esses se encontram em relação com ele apenas na medida em que existem para ele, um existente que decide do seu passado, sob forma de tradição, à luz do seu futuro, em vez de deixá-lo pura e simplesmente determinar o seu presente, um existente que se perspectiva através de…

Acção Humana e liberdade

"(...) Movo o meu braço. Movo-o voluntariamente, quer dizer que não o agito em sonhos nem mesmo o levanto para me proteger a cara num gesto reflexo ao ver vir uma pedra contra mim. Pelo contrário, digo-o a quem me quiser ouvir: «Vou levantar o braço dentro de cinco segundos.» E cinco segun­dos depois levanto de facto, o braço. Mas que fiz para o levantar? Pois limitei-me a querer levantá-lo e, como vês, levantei-o. Suponhamos que então você me disse: «Ouvi-lhe dizer que ia levantar o braço e depois vi efectivamente o braço ao alto, mas isso só demonstra que você é capaz de acertar quando se vai levantar o braço, não que o haja levantado volun­tariamente.» Eu insistirei que sei muito bem que quis levantá-lo e que por isso o braço foi levantado. Mas a verdade é que, pensando melhor, não sei o que fiz para mexer o meu braço: movi-o simplesmente e já está. Digo que «quis» movê-lo e logo se mexeu, de modo que parece que fiz duas coisas: uma, querer mexer o braço; duas, movê-lo. Mas em…

A Filosofia e a reflexão

O que é a filosofia? Já me expliquei muitas vezes a esse respeito, e faço-o mais uma vez. A filosofia não é uma ciência, nem mesmo um conhecimento; não é um saber a mais: é uma reflexão sobre os saberes disponíveis. É por isso que não se pode aprender filosofia, dizia Kant: só se pode aprender a filosofar. Como? Filosofando por conta própria: interrogando-se sobre seu próprio pensamento, sobre o pensamento dos outros, sobre o mundo, sobre a sociedade, sobre o que a experiência nos ensina, sobre o que ela nos deixa ignorar... Encontrar no caminho as obras deste ou daquele filósofo profissional, é o que se deve desejar. Com isso pensaremos melhor, mais intensamente, mais profundamente. Iremos mais longe e mais depressa. Mas esse autor, acrescentava Kant “não deve ser considerado o modelo do juízo, mas simplesmente uma ocasião de se fazer um juízo sobre ele, até mesmo contra ele”.
Ninguém pode filosofar em nosso lugar. É evidente que a filosofia tem seus especialistas, seus profissionai…