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A mostrar mensagens de Julho, 2016

Não estou pensando em nada

Não estou pensando em nada E essa coisa central, que é coisa nenhuma, É-me agradável como o ar da noite, Fresco em contraste com o verão quente do dia,



Não estou pensando em nada, e que bom!



Pensar em nada É ter a alma própria e inteira. Pensar em nada É viver intimamente O fluxo e o refluxo da vida... Não estou pensando em nada. E como se me tivesse encostado mal. Uma dor nas costas, ou num lado das costas, Há um amargo de boca na minha alma: É que, no fim de contas, Não estou pensando em nada, Mas realmente em nada, Em nada...
Álvaro de Campos, in "Poemas"

Estou Tonto

Estou tonto, Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar,
Ou de ambas as coisas.
O que sei é que estou tonto
E não sei bem se me devo levantar da cadeira
Ou como me levantar dela.
Fiquemos nisto: estou tonto.

Afinal
Que vida fiz eu da vida?
Nada.
Tudo interstícios,
Tudo aproximações,
Tudo função do irregular e do absurdo,
Tudo nada.
É por isso que estou tonto ...

Agora
Todas as manhãs me levanto
Tonto ...

Sim, verdadeiramente tonto...
Sem saber em mim e meu nome,
Sem saber onde estou,
Sem saber o que fui,
Sem saber nada.

Mas se isto é assim, é assim.
Deixo-me estar na cadeira,
Estou tonto.
Bem, estou tonto.
Fico sentado
E tonto,
Sim, tonto,
Tonto...
Tonto.

Álvaro de Campos, in "Poemas" 

Lágrimas de campeão - Inês Cardoso

Esta crónica é só para quem não percebe de futebol. Quem desconhece o lugar de um trinco, ignora o que é isso do fora de jogo, pensa que uma trivela é uma embarcação quinhentista e imagina que a conversa de ter pé quente é resultado de muito chuto na bola. Pão e circo, dizem os poucos que ontem não ficaram com pele de galinha a ver o cordão de emigrantes de sorriso rasgado à volta da seleção. Os que não sentiram o poder do orgulho. Os que não se arrepiaram com palavras como as do filho de Manuel Dias, morto há oito meses a poucos metros da porta D do estádio em que ontem dois países mediram forças. Numa Europa que anda à procura de si mesma, assustada com o terrorismo, houve quem não se esquecesse de lembrar que o caminho só pode ser o respeito pela identidade de cada um. E que dentro de campo, como fora dele, nascidos em berços diferentes vestem a mesma camisola. Esta crónica é só para quem acha que a euforia da bola nos distrai das coisas realmente importantes, como a reunião dos m…

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.Manuel Bandeira

Anotação

Cada palavra dita é a voz de um morto.
Aniquilou-se quem se não velou

Quem na voz, não em si, viveu absorto.

Se ser Homem é pouco, e grande só

Em dar voz ao valor das nossas penas

E ao que de sonho e nosso fica em nós

Do universo que por nós roçou

Se é maior ser um Deus, que diz apenas

Com a vida o que o Homem com a voz:

Maior ainda é ser como o Destino

Que tem o silêncio por seu hino

E cuja face nunca se mostrou.
Fernando Pessoa

Via Láctea

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”Olavo Bilac - Via Láctea

À Espera dos Bárbaros

O que esperamos na ágora reunidos? É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

Konstantinos Kaváfis - Trecho de À Espera dos Bárbaros -.Trad. José Paulo Paes

A Máquina do Mundo

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica …

A Europa no Mundo

E eis que o eixo franco-alemão reúne por direito próprio e a locomotiva alemã a todo o vapor, descola. E, ainda se disse (Delors) que a Europa era um objeto político não identificado? Pois eu não lhe concebo melhor clareza política e económica se assim se continuar.
Konrad Adenauer | Joseph Bech | Johan Willem Beyen Winston Churchill | Alcide De Gasperi | Walter Hallstein Sicco Mansholt | Jean Monnet | Robert Schuman Paul-Henri Spaak | Altiero Spinelli
Estes os líderes que inspiraram a criação da União Europeia. Os fundadores acreditavam numa Europa em paz, unida e próspera. Da Europa dos pequenos passos (gradua lista) até à Europa dos cafés de Steiner, qual a realidade que se vive hoje afinal? Recriar a Família Europeia, era, nomeadamente para Churchill a ideia da conjugação da ação política na Europa. Lembremos o Discurso de Winston Churchill em Zurique (19 de Setembro de 1946): Desejo falar-vos, hoje, sobre a tragédia da Europa. Este nobre continente, englobando no seu todo as mais agr…

Não me peçam razões…

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago, in “Os Poemas Possíveis”

Hipertatividade e desatenção

Não estamos sempre a ver a mesma coisa quando olhamos para comportamentos hiperativos. Por detrás da hiperatividade está muitas vezes a desatenção. E é esta que é preciso cuidar. Se não para quieto, como pode estar atento?» Esta é a queixa frequente de professores e pais ao fim do dia ou à volta dos trabalhos para casa. Mas o universo de perguntas não respondidas é muito maior: por que razão é tão atenta ou atento para as coisas que lhe interessam e tão pouco ou nada para outras? E por que razão tem «brancas» nos testes, quando tudo sabia na véspera? E por que é tão difícil memorizar, embora se lembre de coisas que já ninguém recorda? E por que é que nem as coisas de que gosta consegue levar até ao fim? E por que é tão fácil fazer amizades e tão difícil mantê-las? E por que salta sempre de uma coisa para a outra? Estas e outras questões, mais ou menos enigmáticas, fazem parte da rotina das inquietações de pais, professores e outros «grandes» que têm de lidar com os mais pequenos e ado…