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Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2013

Não faz mal não saber tudo - os modelos da ciência

Houve muitas ocasiões em que perguntei a mim mesmo se nós, cientistas, em especial aqueles que procuram responder a perguntas do género «definitivo», como a origem do universo, não estamos a bater à porta errada. Ao tentar responder a questões como a origem de tudo, assumimos que somos capazes de o fazer. Vamos avançando, a custo, propondo modelos experimentais, que se juntam à relatividade geral e à mecânica quântica, nos quais o universo aparece do nada, sem necessidade de energia: tudo devido a uma flutuação quântica aleatória. A isto, adicionamos a aleatoridade das constantes fundamentais, dizendo que os seus valores são fruto do acaso; outros universos podem muito bem ter outros valores da carga e massa do electrão e, assim, propriedades completamente distintas. Portanto, o nosso universo torna-se um lugar muito especial, onde as coisas conspiram para produzir galáxias, estrelas, planetas e a vida. E se tudo isto fosse falso? E se olhássemos para a ciência como uma narrativa, um…

Ciência e probabilidade - problematização

(…) A propensão (inata?) de acreditarmos num mundo regido por leis, regularidades inalteradas (…), por uma ordem, tem (…) origem “teológica, mágica e política”. “A ordem do universo é um conceito derivado da crença religiosa na racionalidade de Deus que pôs em movimento um universo perfeito para demonstrar a sua omnisciência”. Origem política, também, segundo E. Morin, associada à origem divina das monarquias ocidentais. Com a mutação verificada no pensamento científico nos séculos XVIII e XIX, a ordem sobrevive e reforça-se com o relativo apagamento da intervenção divina (ordem e progresso, lema do positivismo e do cientismo). (…)
Ora enquanto a ordem é o que permite a previsão rigorosa, o controlo, a desordem é o que conduz à angústia da incerteza face ao não controlável. A resistência à desordem assume um carácter metafísico e um carácter moral, segundo E. Morin que nos diz (…) que um mundo totalmente aleatório é desprovido de organização e impossível para seres vivos, mas que um …

Política e ética - por Anselmo Borges

Quando se pergunta: o que é o Homem?, as tentativas de resposta foram múltiplas ao longo dos tempos. Mas lá está, essencial, a de Aristóteles: um animal que fala, que tem logos, um animal político.
O ser humano é constitutivamente um ser social. Fazemo-nos uns aos outros, genética e culturalmente. Procedemos de humanos e tornamo-nos humanos com outros seres humanos. A relação entre humanos não é algo de acrescentado ao ser humano já feito: pelo contrário, constitui-nos. A prova está nos chamados meninos-lobo  : tinham a possibilidade de tornar-se humanos, mas, sem o contacto com outros humanos, não acederam à humanidade (aproveito para deixar aqui o link para o filme o menino selvagem de François Truffaut). É isso: somos humanos entre humanos e com humanos. Apesar da experiência, que também fazemos, da solidão metafísica - cada um é ele, ela, de modo único e intransferível -, não há dúvida de que só na relação nos fazemos. O individualismo atomista contradiz a humanidade que somos.
S…

Provocar

"Há muito tempo que procuro propor o novo tipo de professor. É um professor que não ensina nada, não é professor de matemática, não é professor de História, de geografia…É um professor de espantos.
O objectivo da educação não é ensinar coisas, porque elas já estão na internet, estão por todos os lugares, estão nos livros. É ensinar a pensar. Criar na criança essa curiosidade. (…) criar a alegria de pensar. (…) a relação com a leitura é uma relação amorosa. (…) Quando o professor manda, já estragou. (…) Não mandando ler, mas lendo.
A missão do professor não é dar as respostas prontas. (…) é provocar a inteligência, provocar o espanto, provocar a curiosidade." Rubem Alves

O problema do método científico

«Os cientistas e os filósofos da Ciência descrevem a conduta da investigação científica em duas grandes correntes - o método indutivo e o sistema hipotético - dedutivo. […].
Regra geral, indução significa a discussão desde as circunstâncias particulares até às gerais; a dedução significa a discussão no sentido inverso. Embora possa, à partida, parecer que dedução e indução são igualmente válidas e rigorosas, visto que sobem e descem a mesma escada elas não o são. Só o raciocínio dedutivo pode ser desenvolvido de maneira rigorosa. […] Hoje em dia, já praticamente nin­guém acredita que o método indutivo seja rigoroso ou descreva o método científico. […] De acordo com o cenário indutivo, primeiro surgem os factos e depois, como faria um grande detective trabalhando com as suas pistas, os cientistas arquitec­tam uma grande teoria. […]
Aplicamos o método indutivo na nossa vida, todos os dias. Por exemplo, uma pessoa bebe um copo de leite numa terça e numa quinta-feira e, reflectindo sobre…

A fundação da esfera política - por Hannah Arendt

“[Em Aristóteles] a própria ideia de governação, assim como a distinção entre governantes e governados, é algo que pertence a um domínio que precede a esfera política, e aquilo que distingue esta última do domínio “económico” da família é que a polis se baseia num princípio de igualdade e desconhece qualquer diferenciação entre governantes e governados.
Nesta distinção entre o que hoje chamaríamos a esfera privada e pública, Aristóteles limita-se a verbalizar uma opinião corrente entre os gregos, segundo a qual «cada cidadão pertence a duas ordens da existência», já que “a polis dá a cada indivíduo […] para além da sua vida privada, uma espécie de segunda vida, a sua bio politikos (o ùltimo Aristóteles chamou-lhe a “boa vida”…). Ambas as ordens constituíam formas de viver em conjunto, mas só a comunidade familiar é que se ocupava da continuidade da vida enquanto tal e tratava das necessidades físicas relacionadas com a preservação da vida individual e a garantia da sobrevivência da e…

A acção política em Hannah Arendt

O que caracteriza a modernidade? É o facto de ter submetido os homens às cadências do trabalho, em detrimento de todas as outras formas de actividade. Eis, de uma forma condensada, a ideia que orienta A Condição do Homem Moderno, saída em 1958. Hannah Arendt desenvolve aí uma distinção fundamental entre três formas de actividade humana: o trabalho, a obra e a acção. O trabalho, destinado a assegurar a simples conservação da vida, não é específico da espécie humana, mas antes comum a todo o reino animal. Em contrapartida, a obra, porque fornece «um mundo artificial de objectos», é uma actividade puramente humana. Poetas, operários ou artesãos produzem obras que selam a sua pertença ao mundo. A acção política, o último grau da escala arendtiana da vita activa, é então «a única actividade que coloca os homens relação directa entre uns e outros», uma vez que implica estes saírem do conforto da vida privada, exporem-se e confrontarem-se com os outros de uma forma pública. Na antiga Grécia,…

Não se pode separar direito, política e ética

“O direito não pode existir fora da justiça, não é uma lei ou legalidade apenas de fachada, ou aparente, é substancial, ou seja, não há direito sem justiça. Por outro lado, a justiça não existe apenas no âmbito do jurídico, é também uma virtude, portanto desenvolve-se no campo da ética. Assim, a relação entre ética, direito e política é uma relação íntima. (...) Se separarmos estas três realidades desaparece a ética, desaparece o direito e desaparece a política”. Miguel Ayuso (Presidente da Associação Mundial de Juristas Católicos)  in rr.sapo.pt

Manifesto ‘Ética global para a economia’ - por Anselmo Borges

(...) Foi precisamente por iniciativa da Fundação Welthos e em ligação com a “Declaração para uma Ética Mundial”, do Parlamento das Religiões Mundiais, em Chicago, em 1993, que, no quadro de uma economia ecológico-social de mercado, surgiu o Manifesto “Global Economic Ethic”, assinado por figuras relevantes da Política, das Igrejas, das Universidades, da Banca, e tornado público em 2009, em Nova Iorque e em Basileia.
Há dois princípios que servem de base: o princípio de humanidade – “todo o ser humano, independentemente da idade, sexo, raça, cor da pele, capacidades físicas ou espirituais, língua, religião, concepção política, origem nacional ou social, tem dignidade inviolável e inalienável”, de tal modo que “também na economia, na política, nos media, nas instituições de investigação e industriais, deve ser sempre sujeito de direitos e fim, sempre fim, nunca simples meio, nunca objecto de comercialização ou industrialização” – e o princípio da reciprocidade: “não faças aos outros o q…

Crítica importante ao indutivismo

«Se tomarmos o conhecimento científico contemporâneo pelo que parece à pri­meira vista, temos de admitir que muito desse conhecimento se refere ao inobservável. Refere-se a coisas como protões e electrões, genes e moléculas de ADN e assim por diante. Como pode a posição indutivista acomodar tal conhe­cimento? Parece que o raciocínio indutivo, na medida em que envolve algum tipo de generalização realizada a partir dos factos observáveis, não é capaz de produzir conhecimento do inobservável. Qualquer generalização realizada a partir dos factos do mundo observável pode produzir apenas generalizações sobre o mundo observável. Consequentemente, o conhecimento científico do mundo inobservável nunca pode ser estabelecido pelo tipo de raciocínio induti­vo que discutimos.» Alan Chalmers, O Que é Esta Coisa Chamada Ciência? p. 49

A verdade da ciência - um devir constante

A utilização do método nos vários campos da ciência, embora já tenha sido considerada um elemento preponderante, é actualmente relativizada e até minimizada, uma vez que a produção científica não depende exclusivamente do trabalho de investigação dimensionado de acordo com uma metodologia, mas sim do rigor da análise e da abrangência da interpretação.
O conhecimento contemporâneo visa o estudo das condições de possibilidades da acção humana que se projecta no mundo a partir de um determinado espaço e tempo. Por essa razão, é um conhecimento que se constitui sempre a partir de uma pluralidade metodológica. E como nem sempre a realidade a ser estudada é ordenada e sistemática, a tarefa da análise consiste em seleccionar o que é importante para uma compreensão mais ampla e abrangente do fenómeno estudado, sem se restringir à questão metodológica.
Tal atitude baseia-se no fato de que, actualmente, qualquer pretensão para determinar critérios gerais de racionalidade ou mesmo qualquer imposiç…

K. Popper e a Falsificabilidade

Assim, segundo Popper, a ciência é uma sequência de conjecturas. As teorias científicas são propostas como hipóteses, e são substituídas por novas hipóteses quando são falsificadas. No entanto, esta maneira de ver a ciência suscita uma questão óbvia: se as teorias científicas são sempre conjecturais, então o que torna a ciência melhor do que a astrologia, a adoração de espíritos ou qualquer outra forma de superstição sem fundamento? Um não-popperiano responderia a esta questão dizendo que a verdadeira ciência prova aquilo que afirma, enquanto que a superstição consiste apenas em palpites. Mas, segundo a concepção de Popper, mesmo as teorias científicas são palpites — pois não podem ser provadas pelas observações: são apenas conjecturas não refutadas. Popper chama a isto o "problema da demarcação" — qual é a diferença entre a ciência e outras formas de crença? A sua resposta é que a ciência, ao contrário da superstição, pelo menos é falsificável, mesmo que não possa ser prova…

Método Científico - Apontamento por Carlos Fontes

Ciências de Referência   Todos as definições genéricas sobre ciência continuam a repetir invariavelmente conceitos extraídos das denominadas ciências experimentais, entre as quais se destaca a física. Quando no século XVII a física se tornou numa ciência experimental, os seus métodos  tornaram-se o padrão para as restantes ciências. No século XIX, o positivismo consagra esta concepção. Os conhecimentos da  física  são considerados  como proposições sobre a  totalidade da natureza.  Muitas vezes proclama-se que uma verdadeira filosofia deve ser uma ciência natural. Esta concepção encontra-se totalmente ultrapassada. O grande objectivo das ciências experimentais é dar por meio de conceitos apropriados e deduzidos da experiência, uma representação mental dos processos que objectivamente se desenrolam na natureza.   A Importância do Método na Ciência  A objectividade do conhecimento científico é desde o século XVI, associado ao rigor do método de investigação utilizado. Nas ciências experimen…

Ética deontológica e ética consequencialista - (apontamento)

O que determina as nossas acções como boas ou más? Ética Utilitarista – O que torna as acções boas ou más serão apenas as consequências delas: o importante é promoverem o "bem estar". Ética Deontológica – Para esta teoria não são só as consequências das acções que as tornam boas ou más. Muitas são intrinsecamente más. Temos que respeitar o dever e este proíbe essas acções. Para Kant, os nossos deveres resultam de um princípio moral universal: o "Imperativo Categórico". Para ele, certas obrigações impostas pelo dever, como a de não mentir, é absoluta, de tal modo que alguns tipos de actos nunca podem ser realizados no âmbito da acção moral, mesmo com consequências desastrosas para o sujeito. As regras morais deverão pois ser respeitadas em todas as circunstâncias. Quando é que as nossas acções são certas ou erradas? Ética Utilitarista – Para os utilitaristas uma acção é boa  quando maximiza o bem-estar; qualquer outra acção que não o maximize será "errada". Pa…

A importância epistemológica do trabalho de Galileu

Embora Galileu seja principalmente conhecido por ter sido um dos defensores do universo heliocêntrico, uma grande parte das suas mais importantes descobertas deu-se no ramo da mecânica e não da astronomia. Em verdade as suas descobertas em mecânica marcaram um importante ponto de viragem no conhecimento dos fenómenos físicos servindo de base à implementação das teorias de mecânica de Newton. Porém, a grande importância do trabalho de Galileu para o conhecimento científico não vai muito para além das muitas descobertas e leis enunciadas. O grande marco que representou para o conhecimento foi a sua nova maneira de construir o conhecimento. Até aí o conhecimento era elaborado através de uma abstracção teórica sobre como devia ser o mundo, de onde se retiravam leis que se admitia poderem ser discordantes das realidades observadas num mundo imperfeito. Com Galileu o conhecimento começa a ser construído ao contrário, com base na observação. Assim, da observação de um fenómeno, traduzida po…

A "loucura" da ciência - por Carlos Fiolhais

A associação das palavras “maluca” e “ciência” tem uma longa tradição na literatura de ficção, na banda desenhada e no cinema. Pois não é o perigoso Frankenstein o produto de um cientista louco? E o professor Tornesol das “Aventuras de Tintim” não é o protótipo do cientista tão genial como lunático? E não é ainda a “mente brilhante” do matemático John Nash ofuscada pelos seus ataques de esquizofrenia? De facto, essa associação, embora decerto infeliz para a imagem da ciência, contém alguns laivos de verdade. Não que os cientistas sejam malucos. Os cientistas são tão loucos, lunáticos ou esquizofrénicos como a generalidade da população (há, por exemplo, estatísticas sobre a percentagem de esquizofrenia entre os cientistas, que está próxima da percentagem geral, o que só mostra que os cientistas são pessoas como as outras). Mas é forçoso reconhecer que a ciência contraria muitas vezes o senso comum e, se aceitarmos como definição de maluquice a fuga ao senso comum, não será completamente…

Ciência e senso comum - por Ernest Nagel

Nas diferenças entre a ciência moderna e o senso comum (...), está implícita a diferença importante que deriva de uma estratégia deliberada da ciência que a leva a expor as suas propostas cognitivas ao confronto repetido com dados observacionais criticamente comprovativos, procurados sob condições cuidadosamente controladas. Isto não significa, no entanto, que as crenças do senso comum sejam invariavelmente erradas, ou que não tenham quaisquer fundamentos em factos empiricamente verificáveis. Significa que, por uma questão de princípio estabelecido, as crenças do senso comum não são sujeitas a testes sistemáticos realizados à luz de dados obtidos para determinar se essas crenças são fidedignas e qual é o alcance da sua validade. Significa também que os dados admitidos como relevantes na ciência devem ser obtidos através de procedimentos instituídos com o objectivo de eliminar fontes de erro conhecidas. Deste modo, a procura de explicações na ciência não conseguiste simplesmente em tent…

O Princípio de Responsabilidade - uma perspectiva ética sobre a natureza na civilização tecnológica - por Bruno Rego

A ciência e a técnica moderna têm permitido uma evolução sem precedentes no desenvolvimento das mais variadas esferas da vida da espécie humana neste planeta. Ao contrário de épocas anteriores, o homem actual foi e é ainda capaz de atingir as mais surpreendentes conquistas nos mais diversos âmbitos da realidade e, dessa forma, o seu poder e a sua capacidade de intervir na mesma crescem vertiginosamente. A ciência e a técnica traduzem-se em poder e domínio. Mas este poder comporta também um lado negativo e, se o exercício do mesmo não for equacionado e aplicado de uma forma realista, segundo Hans Jonas, pensador alemão do século XX (1903-1993), ele pode tornar-se destrutivo para a própria humanidade enquanto espécie. É aqui que surge a necessidade de reavaliar os pressupostos da ética que até agora guiou a acção humana desde a modernidade até aos dias de hoje. Mas porquê a necessidade de uma nova ética, ou, pelo menos, da introdução de um princípio de responsabilidade na mesma? O que é…

A ética, a política e as crises

 "A tese segundo a qual a crise se deve a acções isoladas e não éticas de alguns esquece que a maior parte dessas acções (excluem-se aqui as fraudes, que podem acontecer em qualquer momento) se desenrolou num enquadramento institucional que as permitiu e encorajou.
Assim, é aconselhável pensar não apenas na responsabilidade dos agentes individuais, mas também na eticidade do enquadramento institucional no qual eles operavam e operam. Mais que verificar se seguiram as regras estabelecidas, é agora necessário ver se essas regras são ou não eticamente aceitáveis. O enfoque deve ser na ética das instituições, e não na ética individual. Convém pois fazer perguntas do tipo: devem os reguladores destes mercados, assim como a própria classe profissional dos gestores financeiros, aceitar produtos de transparência duvidosa? Devem os mesmos aceitar correr riscos largamente excessivos, nos mercados associados aos empréstimos à habitação, ou outros? Devem os estados desonerar fiscalmente uma…

O CONHECIMENTO CIENTÍFICO

O conhecimento científico é fáctico: Parte dos factos, respeita-os até certo ponto e sempre retorna a eles. A ciência procura descobrir os factos tais como são, independentemente do seu valor emocional ou comercial: a ciência não poetiza os factos. Em todos os campos, a ciência começa por estabelecer os factos: isto requer curiosidade impessoal, desconfiança pela opinião prevalecente e sensibilidade à novidade. (...)
Nem sempre é possível, nem sequer desejável, respeitar inteiramente os factos quando se analisam, e não há ciência sem análise, mesmo quando a análise é apenas um meio para a reconstrução final do todo. O físico perturba o átomo que deseja espiar; o biólogo modifica e pode inclusive matar o ser vivo que analisa; o antropólogo, empenhado no seu estudo de campo de uma comunidade, provoca nele certas modificações. Nenhum deles apreende o seu objecto tal como é, mas tal como fica modificado pela suas próprias operações. (...) O conhecimento científico transcende os factos: põ…

Ciência: um conhecimento objectivo-subjectivo

Alguns pensadores actuais vêem sinais de que o paradigma emergente da cientificidade tende a superar a antinomia objectividade / subjectividade, levando a ciência a reconhecer-se na fronteira onde convivem a arte, a religião e a filosofia, que até agora foram as representantes do mundo subjectivo, das vivências e dos valores. «A ciência moderna consagrou o homem enquanto sujeito epistémico, mas expulsou-o, tal como a Deus, enquanto sujeito empírico. Um conhecimento objectivo, factual e rigoroso, não tolerava a interferência dos valores humanos ou religiosos. Foi nesta base que se construiu a distinção dicotómica sujeito/objecto. No entanto, a distinção sujeito/objecto nunca foi tão pacífica nas ciências sociais quanto nas ciências naturais e a isso mesmo se atribuiu o maior atraso das primeiras em relação às segundas. Afinal, os objectos de estudo eram homens e mulheres como aqueles que os estudavam [...]. No domínio das ciências fisico-naturais, o regresso do sujeito fora já anunciado…

"O rasto do Infinito no rosto do Outro" - A "Ética dos oprimidos" em E. Levinas

 "Emmanuel Levinas nasceu em 1906 na Lituânia, no seio de uma família judaica, tendo-se naturalizado francês. É pois conhecido como um filósofo francês, cuja cultura adotou e representou, tendo falecido em Paris, em 1995.
Foi muito influenciado pela cultura russa, tendo assistido à revolução de outubro de 1917, pelo pensamento de Edmund Husserl, sobre quem escreveu a sua tese de doutoramento, e pela religiosidade judaica, herdada do berço materno e mantida durante toda a vida. Foi feito prisioneiro pelos alemães na II Guerra Mundial, e após a sua libertação viria a lecionar na Escola Normal Israelita Oriental de Paris, e em várias universidades francesas, entre as quais a Sorbonne. Durante esse período terá escrito a maior parte das suas obras, entre as quais, provavelmente, a mais significativa, Totalidade e Infinito (1961). Apesar da marcada influência da cultura e religiosidade judaica o pensamento de Lévinas tem inúmeras articulações com o cristianismo. E talvez a mais salie…

A cidade dos mortos - Sérgio Trefaut

Foram cinco anos, oito viagens ao Cairo, meses seguidos a viver na cidade egípcia, lições de árabe, muitos obstáculos, muitos pedidos oficiais rejeitados, muita burocracia de repartição, muito "dou you have a permit?", muitas boas intenções goradas, um passo à frente e logo dois atrás, perda de parte das rushes originais, algumas hesitações... e finalmente a decisão de filmar clandestinamente a maior necrópole do mundo, onde as moradas dos defuntos são também habitadas por vivos. Ao rodar o documentário A Cidade dos Mortos, que conquistou o grande prémio Documenta Madrid 2010, e passou por mais de uma dezena de festivais internacionais, Sérgio Trefaut pensou em desistir, parecia-lhe "um filme amaldiçoado". Afinal uma superstição que não existe entre o milhão de habitantes daquele cemitério, que se encheu de famílias, e escolas, e mercados, e cafés, e disputas entre vizinhos, e teatros de fantoches, e namoros, e casamentos, e música, e crianças que jogam …

A moral Kantiana

(...) Não foi para procurar a felicidade que os seres humanos foram dotados de vontade; para isso, o instinto teria sido muito mais eficiente. A razão foi-nos dada para originar uma vontade boa não enquanto meio para outro fim qualquer, mas boa em si. A vontade boa é o mais elevado bem e a condição de possibilidade de todos os outros bens, incluindo a felicidade.
Que faz, pois, uma vontade ser boa em si? Para responder a esta questão, temos de investigar o conceito de dever. Agir por dever é exibir uma vontade boa face à adversidade. Mas temos de distinguir entre agir de acordo com o dever e agir por dever. Um merceeiro destituído de interesse pessoal ou um filantropo que se deleite com o contentamento alheio podem agir de acordo com o dever. Mas acções deste tipo, por melhores e por mais agradáveis que sejam não têm, de acordo com Kant, valor moral. O nosso carácter só mostra ter valor quando alguém pratica o bem não por inclinação mas por dever — quando, por exemplo, um …