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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2015

Demonstração, verdade e validade

A demonstração tem estado sempre ligada à validação das ideias matemáticas. Em fases anteriores encarada como verdades absolutas, nos dois últimos séculos com perspectivas relativas. A verdade em matemática é hoje assumida como um conceito relativo, embora nem sempre tenha sido assim. Foi na geometria que esta ideia se tornou mais forte com a invenção das geometrias não-euclidianas. Davis e Hersh (1986/90) referem muito claramente estas ideias no seu livro Descartes Dream:  A posição de Eric Temple Bell, no princípio dos anos 30, é muito interessante e eu gostava de a descrever. Bell era um matemático distinto e um historiador da matemática. Era também um pouco romancista e escreveu romances de ficção científica. Em 1934 escreveu um livro notável, chamado A busca da Verdade. Agora parece muito desactualizado, mas eu acho que Bell falava pelo conjunto dos matemáticos dos anos 20 e 30. Aqui está a forma como eu resumo o seu livro: 1. A matemática é um instrumento criado pela mente. 2. Nã…

Concerto - Cappella Musical Cupertino de Miranda

Programa:

Asperges me - Manuel Cardoso (1566-1650)
Kyrie (da Missa de Quadragesima) Manuel Mendes (c1547-1605)
Ductus est Jesus - Estêvão de Brito (c1575-1641)
Assumpsit Jesus - Estêvão de Brito
Credo (da Missa De Quadragesima) - Manuel Mendes
De Profundis - Estêvão Lopes Morago (c1575-c1628)
Commissa mea - Filipe de Magalhães (c1571-1652)
Sanctus & Benedictus (da Missa De Quadragesima) - Manuel Mendes
Miserere mei Deus - Manuel Cardoso
Agnus Dei (da Missa De Quadragesima) - Manuel Mendes
Lamentatio Jeremiæ prophetæ, Feria Quarta (I) - Fernando de Almeida (c1600-1660)
Benedicamus Domino (da Missa De Quadragesima) - Manuel Mendes

Cantus:
Eva Braga Simões
Barbara Luís

Altus:
Gabriela Braga Simões
Brígida Silva

Tenor:
Luís Toscano
Pedro Marques

Bassus:
Ivo Brandão
Pedro Silva

Direção artística:
Luís Toscano

ENTRADA LIVRE

Filosofar para quê?

Sendo eu engenheiro de formação e profissão e estando a dedicar agora bastante tempo à filosofia, muito amigos me perguntam: mas afinal para que é que isso serve? Qual é o gozo? Porque é que te deu agora para aí? Nem sempre é fácil responder a essa questão, muito menos quando é colocada por alguém que está de fora da filosofia. Este post é uma tentativa de abordar a questão. O mundo em que vivemos é extremamente complicado! As acções que temos que desempenhar, as decisões que temos que tomar, os julgamentos que temos que fazer… para tudo isto necessitamos de recolher informação, processá-la e actuar / decidir.  E isto acontece desde os primórdios da vida na Terra, entre o momento em que acordamos até aquele em que adormecermos: podemos comer isto?, devemos fazer aquilo?, por aqui será seguro?, atravesso a rua aqui ou ali?, visto isto ou aquilo?, que telemóvel comprar?, que software utilizar?, que livro ler?, em que acreditar?... Ora é incomportável processar toda esta informação cons…

Aparências

Paradigmas da educação

O Mundo não se vê de modo objectivo

O que a arte nos ensina não é puro discernimento, é a relação mais profunda de nós próprios com o mundo, é verdadeiramente o «ver». Se dizemos que um Eça nos reinventou tal mundo, dizemos que outros artistas eram antes dele responsáveis pelo modo como o víamos. E há sempre um modo de ver, que é sempre um mundo estético. Porque o mundo se não vê numa estrita e impossível dimensão «objectiva»: um objecto não nos é nunca neutro, puramente indiferente. O «novo realismo» francês (de um Butor, Robbe-Grillet, de outros) por mais que se pretenda confinado ao «objecto» (como em Robbe-Grillet) não anula a presença do «sujeito». Uma visão estritamente «objectiva» seria ainda sentida como tal... Mas acontece que uma forma «nova» de ver acaba por assimilar-se àquilo mesmo que somos, tendendo a identificar-se com o que julgamos a nossa «natureza».  A presença do artista esquece-se, como se o artista fôssemos nós - e um artista inconsciente. E é só ao choque de uma visão original que nós despertamos…

O lugar donde se vê o Mundo

Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Vergílio Ferreira

Linguagem, verdade e lógica

Onde há a palavra, há a verdade. A palavra é usada para conversar e sem verdade não há conversa. Usa-se a palavra para conversar sobre afectos, realidades, crenças, pensamentos, medos, desejos, memórias, futuros e tudo o mais. Sem a verdade, a conversa seria uma mera manifestação de subjectividades solipsistas e imunes ao erro, discursos paralelos sem triangulação possível entre si e a realidade. Numa conversa, não é indiferente afirmar que Sócrates era grego, o que é verdade, ou afirmar que era egípcio, o que é falso; não é indiferente afirmar que o racismo é imoral, o que é verdade, ou afirmar que as mulheres devem ser discriminadas, o que é falso. A noção de verdade não é uma fantasia mitológica, como os deuses da antiguidade clássica, pois pode-se abandonar as noções mitológicas mas não a noção de verdade. Pode-se abandonar sem pena de incoerência a noção de Zeus porque se pode afirmar que é verdade que Zeus não existe. Mas não se pode abandonar sem pena de incoerência a noção de…

Museu de Aveiro - conversas

Pensar o mundo, repensar Portugal

As crises também já não são o que eram. Uma crise era, normalmente, um acontecimento que tinha princípio, meio e fim, um momento instável que exigia uma decisão difícil que, uma vez tomada, lhe punha termo. Agora, tornou-se quase no seu contrário, transformou-se num estado de interminável indecisão, ou mesmo na imagem da própria indecisão, que se vive como se fizesse parte do ar que respiramos. E esta crise, cada vez mais vivida como a atmosfera incontornável dos nossos dias, torna simultaneamente mais imperativo e mais difícil pensar o mundo. Mais imperativo, porque só assim se conseguirá romper com a cortina de estereótipos que nos atordoam e paralisam, ainda que por vezes possam conduzir a ações mais espetaculares, mas quase sempre, inconsequentes. Mas também mais difícil, porque a tentação, nestes momentos adversos e penosos, é para nos concentramos no nosso pequeno universo, deixando o ceticismo, a depressão e a indiferença tomar conta de tudo o mais, privando-nos assim cada vez …

Filosofia...

"A filosofia não é criadora; ela é reflexão sobre a totalidade da experiência vivida.(...)
Façam os homens o que fizerem, eles pensam para agir e enquanto agem. O filósofo é um homem como os outros que pensa primeiro participando nos trabalhos e na dor dos homens. E filosofar será voltar seguidamente sobre este pensamento imediato e espontâneo, reflectir sobre ele para lhe dar um sentido. A filosofia é transformação pelo espírito do acontecimento em experiência, entendendo por acontecimento o dado bruto, a sensação, a situação histórica, o esforço para viver e pensar, tudo o que nos acontece no interior e exteriormente, e por experiência a mesma coisa, mas reflectida pelo espírito que por essa operação se torna conteúdo significante. A verdade filosófica tem este duplo carácter de ser pessoal e universal, de elevar a personalidade à universalidade concreta."

Jean Lacroix, «Interview» in La Nouvelle Critique

Conta e Tempo

Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo…

Frei António das Chagas

A vida...

A vida... e a gente põe-se a pensar em quantas maravilhosas teorias os filósofos arquitectaram na severidade das bibliotecas, em quantos belos poemas os poetas rimaram na pobreza das mansardas, ou em quantos fechados dogmas os teólogos não entenderam na solidão das celas. Nisto, ou então na conta do sapateiro, na degradação moral do século, ou na triste pequenez de tudo, a começar por nós. Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem. Miguel Torga, in "Diário (1941)"

Maré alta

Os governos da União Europeia têm especial talento para pegar em problemas resolúveis e torná-los existenciais. A atual crise dos refugiados não precisava de ter chegado a este ponto. Como tenho repetido nesta coluna, há anos que existem instrumentos legais e financeiros para reinstalar refugiados diretamente, sem forçar as pessoas a arriscar a vida, dando prioridade aos mais vulneráveis e introduzindo critérios de justiça e previsibilidade que permitem diminuir ou moderar a ocorrência de situações de emergência. Os governos nacionais não os quiseram utilizar e com isso favoreceram a criação de bolsões de desespero onde imperam a desorganização e o cada-um-por-si. Mas atenção: uma crise pode esconder outra. Na base, a crise das crises na União Europeia é uma crise de estado de direito e direitos fundamentais. E essa é não apenas existencial, mas civilizacional. O seu epicentro é a Hungria — um país de história admirável hoje governado por um homem, Viktor Orbán, que tem teorizado so…

Quanto custa a emigração qualificada

Além do serviço da dívida, que é brutal, a transferência de recursos entre Portugal e o centro da Europa depaupera enormemente o país. Um estudo coordenado por Rui Gomes da Universidade de Coimbra, no qual participei como investigador, no âmbito de uma equipa pluridisciplinar de sociólogos e economistas, de diversas universidades portuguesas (Porto, Coimbra, Lisboa) resolve algumas das hesitações que ainda se colocam no debate público sobre a emigração qualificada, vulgarmente apelidada de “fuga de cérebros” (expressão que me desagrada por pressupor que os emigrantes menos qualificados não têm “cérebro” — fica registada a autocrítica…) O estudo administrou um inquérito por questionário on-line a uma amostra, intencional e não aleatória, composta por 1011 portugueses detentores de um diploma do ensino superior (ou que desempenhassem ou tivessem desempenhado funções profissionais compatíveis com essa habilitação) que estivessem a trabalhar ou a residir noutro país europeu, ou que o houv…

Museu de Aveiro - conversas

A Política Educativa em balanço

Identificam-se áreas chave de impacto das políticas e ouvem-se alguns especialistas obre essas questões. A avaliação é genericamente negativa como não podia deixar de ser se pensarmos no interesse dos alunos, de todos os alunos, e das famílias e da comunidade que acredita que o investimento e valorização da educação, designadamente da educação e ensino públicos, é a melhor forma de promover desenvolvimento e bem-estar. Uma pequena nota introdutória para referir que a entrada de Nuno Crato foi, por assim dizer, em estado de graça, e entusiasmou muita gente, incluindo algumas figuras mais mediáticas que posteriormente se tornaram bastante críticas. Tenho para mim, fui falando sobre isso ao longo destes anos, que a visão de Nuno Crato sobre a educação era conhecida e, por isso, não surpreendentes as suas políticas. Creio, aliás, que boa parte das apreciações positivas que lhe eram feitas decorriam sobretudo da sua reacção às políticas desenvolvidas na altura, sobretudo durante a perturb…

A cruz do voto

Não compreendo a abstenção. Não há argumentos válidos para não exercer o direito de voto, uma das belas formas de liberdade. Só não votei uma vez, nas autárquicas de 2001, porque o gesso pesado na perna esquerda ainda estava fresco e a cabeça girava com a medicação. Mesmo assim, senti que devia ter pedido desculpa à minha mãe que esperou pelo 25 de Abril para votar sem restrições. Desde então, nunca deixou de o fazer. E se tudo correr bem, com 91 anos voltará a "botar a cruz" no próximo 4 de outubro. "Se escolher mal, paciência", diz, tentando perceber a velocidade das notícias por estes dias. Não percebe. Mas vota. "É meu dever", alega. A nossa consciência vive limpa porque não estamos entre os mais de 66% que não votaram nas europeias de 2014 nem entre os cerca de 42% que esqueceram as legislativas de 2011. Consegui, até hoje, convencer as gerações mais novas da família a usar esta forma de liberdade. Mas ando assustada: ouço algumas "ameaças"…

Os óculos de Francisco - por Afonso Camões

É profético aquele filme de Nanni Moretti, que já todos vimos, em que Michel Piccoli, no papel de Papa, sufocado pela intriga e pela clausura do Vaticano, se evade à cúria para vaguear e sentir, sozinho, o bafo do povo pelas ruas de Roma. É todavia bem real este Jorge Bergoglio, que ainda esta semana desceu à rua para entrar numa loja de ótica e mudar as lentes dos óculos, só as lentes, que a armação acessória continua em bom estado e ele "não queria gastar muito". Quem vê mal e também não quer gastar muito com um assunto olhado meses a fio como acessório e de soslaio são os dirigentes europeus que se reúnem, terça-feira, para tentarem acordar, num esquema de repartição por quotas, o acolhimento do maior contingente de refugiados que demanda a Europa em várias gerações. Como quem "divide um mal pelas aldeias", há meio ano que a Comissão Europeia esbraceja por um acordo entre os sócios da União. Nas contas de abril, havia que repartir 40 mil refugiados e a Portugal…

O que significa mostrar solidariedade?

O que significa mostrar solidariedade e quando é que estamos habilitados a apelar á solidariedade? Com um pequeno exercício de análise conceptual pretendo afastar os apelos à solidariedade das acusações de substância moral ou de boas intenções deslocadas com que os “realistas” querem atacá-la. Mais ainda, pretendo demonstrar que a solidariedade é um acto político e de maneira alguma uma forma de abnegação moral que foram erradamente colocadas no contexto político. A solidariedade perde a falsa aparência de ser apolítica, assim que aprendemos a distinguir as obrigações de demonstração de solidariedade das obrigações morais e legais. “Solidariedade” não é um sinónimo de “justiça”, seja no sentido moral ou legal do termo. Chamamos as normas morais e legais “justas” quando regulam as práticas que são no igual interesse de todos os que são por elas afectados. Normas justas asseguram liberdades iguais para todos e o igual respeito por todos. Claro que também existem deveres especiais. Paren…

O dia da censura - da necessidade de refletir a Democracia

Hoje é o dia absurdo em que, mesmo que queira falar de certas coisas, não posso falar delas. Hoje é um dia em que há censura em nome do mesmo princípio com que houve censura durante quarenta e oito anos: proteger a paz dos espíritos dos portugueses para que eles se portem bem. É um absurdo em democracia e este absurdo soma-se a outros que começam a impregnar o tempo e o modo das campanhas eleitorais, acrescentando-se à já enorme decadência daquilo que foi uma das conquistas da democracia – a possibilidade de fazer livremente propaganda das suas ideias, programas e pessoas. A culpa é de muita gente, do legislador em primeiro lugar, que podia mudar profundamente uma legislação eleitoral que já se revelou ultrapassada e perversa, e não o quer fazer porque isso prejudicaria os grandes partidos. É da Comissão Nacional de Eleições, que soma medidas contraditórias, algumas insensatas e caóticas, actuando pontualmente e sem nexo. É da comunicação social, que se revela muito tesa (e bem) para…

Construir o silêncio

É preciso reencontrar «uma arte de pensar» e construir «espaços de distanciamento favoráveis ao silêncio e à reflexão», considera o padre José Tolentino Mendonça, que alerta para o ruído simultaneamente insistente e inconsequente da comunicação. «Vivemos submersos num mundo de palavras manipuladas, esvaziadas», mas também «exaustas, exiladas de si mesmas» e «inflacionadas», sustenta o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura em texto que reproduzimos. Por uma nova comunicação A comunicação massificada e omnipresente, como a que atravessa grande parte dos nossos quotidianos, sacrifica duas vítimas em que nem sempre pensamos: a palavra e a interioridade. A palavra é tão vital à expressão de nós próprios, é tão indispensável à relação, que a sua aprendizagem se prolonga, na nossa formação, por longos anos. Ela confunde-se com a descoberta de nós próprios. Por ela debruçamo-nos com confiança sobre o vasto mundo. A arte de falar torna-se, por isso, com toda a justiça, uma ar…

O sentido da Filosofia na escola (NÃO) é o que não pode ser!

Qual o lugar da filosofia na escola? Qual a liberdade que a filosofia encontra na escola para poder ser o que quer? A escola sustenta-se em modelos, busca a padronização, o igual; já a filosofia procura aquilo que nem mesmo ela é para poder continuar sendo filosofia. A filosofia pode incomodar a estrutura de poder da escola e colaborar com a construção de um espaço mais humano, mas também estimular o seu inverso ao não enfrentar as relações de poder nesta instituição, preservando o que deveria ser eliminado. Em diversos textos - ―Educação após Auschwitz‖, ―Tabus a respeito do professor, ―Educação contra a barbárie‖, entre outros - Adorno aponta a necessidade de a escola opor resistência à barbárie, que é o contrário da formação (Bildung). Assim, a escola deve servir à desbarbarização da humanidade, mas para isto deve libertar-se dos tabus. Que papel tem o professor de filosofia neste contexto? Sua postura frente ao conhecimento, as relações que estabelece com os alunos e com o conteú…

Crónica da madrugada

Estou rodeado de noite e de silêncio. Uma ou outra luz, no prédio da frente. Sei que no apartamento da direita mora um contabilista. Homem consumido e fatigado, conheço-o de vista, arredonda a conta ao fim do mês com trabalhos esparsos. A noite, agora, foi rasgada pelo silvo de uma ambulância. Aproximo-me da janela, movido sei lá bem porquê?, e observo a caminhada de um retardatário. De onde vem? Do trabalho ou da noitada? Começo a adivinhar-lhe a vida e o destino. Faço estas aproximações desde que me conheço. Ainda não há muitos anos procurava calcular em que se ocupavam os transeuntes pelo som dos passos, construir as suas vidas, conjecturar das suas histórias; fabular, enfim. Mas as coisas e as pessoas alteraram-se. Eu próprio me modifiquei e ao modo de avaliar os outros. Volto à secretária, batuco nas teclas, acabei de escrever acerca de Jorge Amado, vou ser avô pela segunda vez, e dentro de poucos dias. Estou contente e atento. Não digo que estou feliz porque tudo o que me rodeia…

Os nossos sentimentos.

Se estas poderosas imagens de uma criança síria morta dada à costa não mudarem a atitude da Europa para com os refugiados, o que será preciso?" A pergunta é do jornal britânico The Independent, ontem. A foto é a do menino de T-shirt encarnada e calções escuros, de borco na praia. Olhos fechados, tranquilo como se dormisse: assim são, horrivelmente tranquilas, as fotos de que se encheu o Facebook nos últimos dias, à mistura com tiradas sobre "os políticos" e "a Europa" e "nós", raiva, lágrimas, juras, poemas, emoticons ou o silêncio de quem não encontra o que dizer. Crianças que flutuam num mar de verão, para sempre alheadas de todas as urgências, pavores, fomes, guerras, ódios, fronteiras. O menino-símbolo tem direito a nome nos jornais: Aylan, 3 anos, sírio, a rir numa foto com o irmão Ghalib, de 5. Também Ghalib, informam--nos, como a mãe dos dois, morreu. Ainda no The Independent, um político trabalhista diz-nos: "Ninguém pode deixar de ser …

O António é esquisitíssimo...

Brincar à privacidadezinha

A decisão de ontem do Tribunal Constitucional, chumbando, pela violação do direito à privacidade, o acesso direto das secretas aos dados de tráfego telefónico (assim como fiscais e bancários) é boa e justa e aplaude-se. Mas é o que se chama em inglês feel good: algo que faz sentir bem mas pouco mais, ou mais nada. Não só por se suspeitar de que o ora inviabilizado já será (ilegalmente) feito e continuará a sê-lo, mas também porque o decidido evidencia várias ironias. Uma delas foi vincada pelo juiz presidente, Sousa Ribeiro: o próprio armazenamento dos dados telefónicos a que as secretas acederiam a seu bel-prazer está provavelmente ferido de inconstitucionalidade. É o que indicia a decisão de abril de 2014 do Tribunal Europeu de Justiça, a qual anulou, por "grave ingerência na vida privada", a diretiva de 2008 que estabelecia a obrigação de as operadoras guardarem os dados de tráfego (de toda a gente, sublinhe-se) até dois anos. Ora a lei portuguesa que obriga à preservaçã…

Défice de solidariedade

"Ouvimos aqueles tipos a falar e parece que vivem noutro mundo. Parece que vivem numa espécie de realidade virtual", dizia-me o Rui esta semana, sereno mas insatisfeito com a desfaçatez. "Eles" são os políticos. "Realidade virtual" são as estatísticas e os números com que nos asseguram, dia sim, dia sim, que o país está melhor e que a crise se foi com a troika. Para ilustrar o raciocínio, apontou-me o exemplo de um utente que há dias lhe entrou pelo consultório médico. Um homem na casa dos 70 anos que, depois de muitos anos de trabalho, não merecia outra coisa do que um resto de vida tranquilo, mas cujas poupanças e pensão de reforma se transformaram na tábua de salvação de filhos e netos. Um filho mais novo, que já passou os 30 anos, arquiteto, incapaz de arranjar emprego, e que ainda vive com e à custa dos pais. Um filho mais velho, na casa dos 40 anos, engenheiro, desempregado desde que a empresa fechou, com quatro filhos, a quem o pai e avô tem agora…