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Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2016

Nada nos faz acreditar mais do que o medo

Nada nos faz acreditar mais do que o medo, a certeza de estarmos ameaçados. Quando nos sentimos vítimas, todas as nossas acções e crenças são legitimadas, por mais questionáveis que sejam. Os nossos opositores, ou simplesmente os nossos vizinhos, deixam de estar ao nosso nível e transformam-se em inimigos. Deixamos de ser agressores para nos convertermos em defensores. A inveja, a cobiça ou o ressentimento que nos movem ficam santificados, porque pensamos que agimos em defesa própria. O mal, a ameaça, está sempre no outro. O primeiro passo para acreditar apaixonadamente é o medo. O medo de perdermos a nossa identidade, a nossa vida, a nossa condição ou as nossas crenças. O medo é a pólvora e o ódio o rastilho. O dogma, em última instância, é apenas um fósforo aceso.  Carlos Ruiz Zafón, in 'O Jogo do Anjo'

Ao lado do ofício de mandar deve andar o de sugerir

Ninguém pode mandar só, se houver de mandar como convém. Ao lado do ofício de mandar, deve andar sempre o ofício de sugerir, ou como companheiro, ou como instrumento inseparável. A obrigação e exercício deste segundo e tão importante ofício, é o que significa a mesma palavra sugerir; que vem a ser, lembrar, advertir, inspirar, aconselhar, conferir, persuadir, despertar, instar. Os talentos que para o mesmo ofício se requerem, são maiores e mais relevantes: grande entendimento, grande compreensão, grande juízo, grande conselho, grande zelo, grande fidelidade, grande vigilância, grande cuidado, grande valor. As disposições e os meios com que se exercita, ainda são de mais altas e mais interiores prerrogativas: suma comunicação, suma confiança, íntima amizade, íntima familiaridade, íntimo amor; e não só perfeita união, senão ainda unidade. De sorte que os dous sujeitos em que concorrerem estes dous ofícios, de tal maneira hão-de ser dous, que verdadeiramente sejam um: de tal maneira hão-…

O Homem não é Sempre Igual

Um dos preconceitos mais conhecidos e mais espalhados consiste em crer que cada homem possui como sua propriedade certas qualidades definidas, que há homens bons ou maus, inteligentes ou estúpidos, enérgicos ou apáticos, e assim por diante. Os homens não são feitos assim. Podemos dizer que determinado homem se mostra mais frequentemente bom do que mau, mais frequentemente inteligente do que estúpido, mais frequentemente enérgico do que apático, ou inversamente; mas seria falso afirmar de um homem que é bom ou inteligente, e de outro que é mau ou estúpido. No entanto, é assim que os julgamos. Pois isso é falso. Os homens parecem-se com os rios: todos são feitos dos mesmos elementos, mas ora são estreitos, ora rápidos, ora largos, ora plácidos, claros ou frios, turvos ou tépidos.  Leon Tolstoi, in "Ressurreição"

A Função do Escritor

Que o mundo «está infestado com a escória do género humano» é perfeitamente verdade. A natureza humana é imperfeita. Mas pensar que a tarefa da literatura é separar o trigo do joio é rejeitar a própria literatura. A literatura artística é assim chamada porque descreve a vida como realmente é. O seu objectivo é a verdade - incondicional e honestamente. O escritor não é um confeiteiro, um negociante de cosméticos, alguém que entretém; é um homem constrangido pela realização do seu dever e a sua consciência. Para um químico, nada na terra é puro. Um escritor tem de ser tão objectivo como um químico.  Parece-me que o escritor não deveria tentar resolver questões como a existência de Deus, pessimismo, etc. A sua função é descrever aqueles que falam, ou pensam, acerca de Deus e do pessimismo, como e em que circunstâncias. O artista não deveria ser juiz dos seus personagens e das suas conversas, mas apenas um observador imparcial.  Têm razão em exigir que um artista deva ter uma atitude int…

Os sonhos dos miúdos não estão à venda

Não tenho uma opinião muito clara e inflexível sobre a quantidade e cadência certa de exames, testes e demais avaliações aos nossos alunos – sinto, apenas, que essa não pode ser a prioridade ou obsessão central de um bom sistema de ensino. Mas tenho uma opinião bastante definida sobre o triste slogan da Porto Editora numa campanha recente a manuais de apoio ao estudo para exames. Reza assim: "Não és tu que vais a exame, são os teus sonhos". Está tudo errado. Ensaiemos umas pequenas variações da mesma ideia: "Se por alguma razão não tiveres uma boa nota no exame, esquece lá os teus sonhos..."; "Estás nervoso com o dia do exame? Fazes bem, os teus sonhos dependem disso!"; "Se não estudares muito nem vale a pena sonhares...". Teriam a lata de espetar estas frases à frente dos alunos que vão a avaliação? Provavelmente, sim. Esse "tudo errado" talvez não seja propriamente aplicável à editora ou à sua agência de publicidade. Talvez seja o m…

O orgulho nacional num mundo ainda aldeão

Sempre que há um cataclismo, acidente ou ataque terrorista, a primeira pergunta dos telejornais é: algum português morreu, ou ficou ferido com gravidade? Não interessa quantos morreram, o que interessa é se há portugueses. A segunda pergunta é: seria provável algum português ter ficado ferido com gravidade? Quer dizer: poderia facilmente acontecer a um português? O tempo de cobertura da notícia dependerá da resposta a estas duas perguntas. Vou exemplificar. Um ataque suicida no Paquistão matou mais de 70 pessoas, e feriu mais de 300, neste fim-de-semana. Pergunta 1: algum português morreu, ou ficou ferido com gravidade? Não. Pergunta 2: seria provável algum português ter ficado ferido com gravidade? Não, é longe de mais para isso. Conclusão: 5 minutos de cobertura televisiva. Um ataque terrorista na Bélgica matou mais de 30 pessoas, e feriu cerca de 200, na semana passada. Pergunta 1: algum português morreu, ou ficou ferido com gravidade? Não. Pergunta 2: seria provável algum portugu…

Fuga ao pensamento

A marca mais profunda do homem contemporâneo consiste na fuga diante do pensamento. Dominado pela massa gigantesca da informação, encandeado pelo imperativo da investigação e condenado pelo ritmo da história à acção incessante, não lhe resta nem disponibilidade nem tempo para contemplar, no sentido forte desta palavra. Por isso, nunca o homem conheceu tanto de si mesmo, mas, talvez, nunca o homem se ignorou mais a si mesmo. Reimão , Cassiano in  publico.pt

Entrevista - AGIR

Debaixo minha vontade

(Sextina)
Ontem pôs-se o sol, e a noute
cobriu de sombra esta terra.
Agora é já outro dia,
tudo torna, torna o sol;
só foi a minha vontade
para não tornar co tempo!

Todalas cousas, per tempo,
passam como dia e noute.
Uma só, minha vontade,
não, que a dor comigo a aterra;
nela cuido enquanto há sol,
nela em quanto não há dia.

Mal quero per um só dia
a todo o outro dia e tempo,
que a mim pôs-se-me o sol
onde eu só temia a noute;
tenho a mim sobre a terra,
debaixo minha vontade.

Dentro da minha vontade
não há momento do dia
que não seja tudo terra;
ora ponho a culpa ao tempo,
ora a torno a pôr à noute.
No melhor pôs-se-me o sol!

Primeiro não haverá sol
que eu descanse na vontade.
Pôs-se-me uma escura noute
sobre a lembrança de um dia,
inda mal, porque houve tempo
e porque tudo foi terra.

Haver de ser tudo terra
quanto há debaixo do sol,
me descança, porque o tempo
me vingará da vontade,
se não que antes deste dia
há-de passar tanta noute!

Bernardim Ribeiro, in 'Menina e Moça'

Identidade

A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.
A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.
A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.

Pedro Mexia, in "Duplo Império"

Nas estantes os livros ficam (até se dispersarem ou desfazerem)
enquanto tudo
passa. O pó acumula-se
e depois de limpo
torna a acumular-se
no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja
(obras, carros, poeiras)
o pó é mais negro e por vezes
espesso. Os livros ficam,
valem mais que tudo,
mas apesar do amor
(amor das coisas mudas
que sussurram)
e do cuidado doméstico
fica sempre, em baixo,
do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra
do pó nas páginas.
A marca faz parte dos livros.
Estão marcados. Nós também.

Pedro Mexia, in "Duplo Império"

Aprender de cor quem Amamos

Comportamo-nos como se as pessoas de quem gostamos fossem durar para sempre. Em vida não fazemos nunca o esforço consciente de olhar para elas como quem se prepara para lembrá-las. Quando elas desaparecem, não temos delas a memória que nos chegue. Para as lembrar, que é como quem diz, prolongá-las. A memória é o sopro com que os mortos vivem através de nós. Devemos cuidar dela como da vida.  Devemos tentar aprender de cor quem amamos. Tentar fixar. Armazená-las para o dia em que nos fizerem falta. São pobres as maneiras que temos para o fazer, é tão fraca a memória, que todo o esforço é pouco. Guardá-las é tão difícil. Eu tenho um pequeno truque. Quando estou com quem amo, quando tenho a sorte de estar à frente de quem adivinho a saudade de nunca mais a ver, faço de conta que ela morreu, mas voltou mais um único dia, para me dar uma última oportunidade de a rever, olhar de cima a baixo, fazer as perguntas que faltou fazer, reparar em tudo o que não vi; uma última oportunidade de a res…

Os Amigos nunca são para as ocasiões

Os amigos nunca são para as ocasiões. São para sempre. A ideia utilitária da amizade, como entreajuda, pronto-socorro mútuo, troca de favores, depósito de confiança, sociedade de desabafos, mete nojo. A amizade é puro prazer. Não se pode contaminar com favores e ajudas, leia-se dívidas. Pede-se, dá-se, recebe-se, esquece-se e não se fala mais nisso.  A decadência da amizade entre nós deve-se à instrumentalização que tem vindo a sofrer. Transformou-se numa espécie de maçonaria, uma central de cunhas, palavrinhas, cumplicidades e compadrios. É por isso que as amizades se fazem e desfazem como se fossem laços políticos ou comerciais. Se alguém «falta» ou «não corresponde», se não cumpre as obrigações contratuais, é logo condenado como «mau» amigo e sumariamente proscrito. Está tudo doido. Só uma miséria destas obriga a dizer o óbvio: os amigos são as pessoas de que nós gostamos e com quem estamos de vez em quando. Podemos nem sequer darmo-nos muito, ou bem, com elas. Ou gostar mais dela…

A Ciência é uma boa política?

Rosa Lobato de Faria - Um dia virá

(por José-António Moreira)

O "Feio", o Belo e o encanto - Montesquieu

Por vezes existe nas pessoas ou nas coisas um charme invisível, uma graça natural que não pôde ser definida, a que somos obrigados a chamar o «não sei o quê». Parece-me que é um efeito que deriva principalmente da surpresa. Sensibiliza-nos o facto de uma pessoa nos agradar mais do que deveria inicialmente e somos agradavelmente surpreendidos porque superou os defeitos que os nossos olhos nos mostravam e que o coração já não acredita. Esta é a razão porque as mulheres feias possuem muitas vezes encantos que raramente as mulheres belas possuem, porque uma bela pessoa geralmente faz o contrário daquilo que esperávamos; começa a parecer-nos menos estimável. Depois de nos ter surpreendido positivamente, surpreende-nos negativamente; mas a boa impressão é antiga e a do mal, recente: assim, as pessoas belas raramente despertam grandes paixões, quase sempre restringidas às que possuem encantos, ou seja, dons que não esperaríamos de modo nenhum e que não tinhamos motivos para esperar.  Os enc…

Vasco Gato - Falo de um homem que possuía livros de poemas

 (por José-António Moreira)

Quando o Homem Quer

Sim, o homem é o seu próprio fim. E é o seu único fim. Se quer ser qualquer coisa, tem de ser nesta vida. Agora sei, aliás, que embora conquistadores falem algumas vezes de vencer e de exceder, o que eles querem sempre dizer é «excederem-se». Suponho que sabem o que isto quer dizer. Em certos momentos, todos os homens se sentem iguais a um deus. É assim, pelo menos, que se diz. Mas isto vem do facto de eles terem sentido, num instante, a espantosa grandeza do espírito humano. Os conquistadores são somente aqueles homens que sentem a sua força, o bastante para terem a certeza de viver constantemente nessas alturas e na plena consciência dessa grandeza. É uma questão de aritmética, de mais ou de menos. Os conquistadores são os que podem mais. Mas não podem mais do que o próprio homem quando ele o quer. É por isso que eles nunca deixam o crisol humano, mergulhando no mais ardente da alma das revoluções. 
Albert Camus, in "O Mito de Sísifo"

Viver o Hoje

Nunca a vida foi tão actual como hoje: por um triz é o futuro. Tempo para mim significa a desagregação da matéria. O apodrecimento do que é orgânico como se o tempo tivesse como um verme dentro de um fruto e fosse roubando a este fruto toda a sua polpa. O tempo não existe. O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em si não existe. Ou existe imutável e nele nos transladamos. O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto. Quero me multiplicar para poder abranger até áreas desérticas que dão a idéia de imobilidade eterna. Na eternidade não existe o tempo. Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide. De agora em diante o tempo vai ser sempre atu…

Nas estantes os livros ficam  (até se dispersarem ou desfazerem)  enquanto tudo  passa. O pó acumula-se  e depois de limpo  torna a acumular-se  no cimo das lombadas.  Quando a cidade está suja  (obras, carros, poeiras)  o pó é mais negro e por vezes  espesso. Os livros ficam,  valem mais que tudo,  mas apesar do amor  (amor das coisas mudas  que sussurram)  e do cuidado doméstico  fica sempre, em baixo,  do lado oposto à lombada,  uma pequena marca negra  do pó nas páginas.  A marca faz parte dos livros.  Estão marcados. Nós também. 
Pedro Mexia, in Duplo Império

A propósito da leitura do "Papalagui" - por Adália Almeida

SER ... Durante a realização do corpo do trabalho tive oportunidade de sentir querer muita coisa. Uma delas foi estar com Tuiavii ou para descobrir um pouco mais sobre o seu pensamento, ou para o “acariciar” bruscamente por tudo o que ele me fez passar.  Durante a leitura do livro entrei várias vezes em conflito de pensamento com Tuiavii: “Qual é o mal de agirmos assim?” “Qual é o problema de nos vestirmos com muitas roupas?” “O que é que tem vivermos dentro de pedras grandes?” E muitas outras surgiram.  Quando passei à fase de escolher excertos, ideias e desenvolver não o consegui imediatamente. Algum tempo mais tarde descobri porquê.  Uma hipótese (a minha, em concreto):  “ Vivo numa casa com garagem, rés do chão e primeiro andar. Comigo vivem mais quatro pessoas: o meu pai, a minha mãe, a minha irmã e a minha bisavó. (Restringindo)  Tenho um quarto com uma cama, um guarda-roupas, uma escrivaninha, uma mesinha de cabeceira, três tapetes, uma janela e uma varanda. Nele também existe…

Nietzsche: da recusa do “eu” à criação de si mesmo

O eu como causa do pensamento. Essa é a célebre certeza edificada por Descartes na história da filosofia. Nietzsche interpreta a proposição Eu penso como uma equivocada compreensão do eu. Se para Descartes pensar é o efeito de uma substância que precede a existência de qualquer raciocínio, Nietzsche interpreta este conceito como um grande mal entendido. Crê que através da extração do “eu”, pelo pensamento, se torna possível a apreensão do saber pura das coisas, é uma grande fábula, ou melhor, um dogmatismo que anseia reduzir todo conhecimento à unidade simples da consciência. Essa unidade é incapaz de isoladamente compreender a complexidade que é o eu. O eu é muito mais do que uma substância imutável, o eu também envolve forças, impulsos e instintos que de modo algum devem ser ignorados. Se Nietzsche se insurge contra os desprezadores do corpo não é por acaso. Esses desprezadores delegaram somente à consciência a responsabilidade de gerir a existência, limitando, assim, a interferênc…

Kant e a ONU

Os enunciados filosóficos desenvolvidos por Immanuel Kant, ainda no século XVIII, se demonstram extremamente atuais, proporcionam uma compreensão ampla e precisa do panorama axiológico e deontológico das relações internacionais dos Estados até o contexto hodierno. Não poderia ser diferente, pois a principal instituição internacional contemporânea, a Organização das Nações Unidas (ONU), a qual é composta atualmente por 193 paísesmembros, tem inspirações diretas na filosofia kantiana, desde sua criação como também em seus objetivos precípuos de manutenção da paz e do desenvolvimento político, diplomático e de promoção da justiça em todos os países do mundo por excelência. Como sinaliza Saldanha e Andrade: A Organização das Nações Unidas, por si só, se traduz na ideia de “federação”, instituída por Kant, no segundo artigo definitivo de À Paz Perpétua. Uma federação pacífica é para ele uma associação com o fim de preservar e assegurar a liberdade de cada Estado em si mesmo, juntamente co…

A Mulher e o Pássaro

A mulher olhou para o alto
e viu o sol
abrir sulcos
luminosos
nas savanas
do céu
e de repente
vomitou
um pássaro.
Julio Rodrigues Correia in acroatico.blogspot.pt

Verdades dolorosas

A UE, esperança de várias gerações, já não parece ter conserto possível. Entre 2009 e 2014, a crise europeia concentrou-se na resposta errada, imposta por Berlim, à crise do euro, que, muito embora tivesse raiz imediata no desastre de um sistema bancário deixado em roda livre, foi erradamente denominada como "crise das dívidas soberacnas". Não só a crise do euro continua sem solução (disfarçada, embora, pelos analgésicos monetários do BCE) como a esta se juntaram uma série de outras crises, numa combinação explosiva. Para além do afastamento progressivo da Europa oriental, magnetizada pelo tradicional polo de atração russo (Polónia e Hungria), a Alemanha foi devastada política e moralmente pela crise de refugiados. Ela foi intensificada pela destruição da Líbia (2011) e da Síria (depois de 2012), incentivadas por Paris e Londres, que agora assobiam para o lado. Os refugiados não só colocaram Merkel na defensiva dentro de portas como distraem de um buraco negro financeiro, c…

Deitem abaixo essas cercas!

A 5 de Março de 1946, no ginásio de uma pequena faculdade do Missuri, Winston Churchill avisou: "De Estetino no Báltico a Trieste no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente". Passados 70 anos desde que Churchill fez aquele discurso, uma nova cortina de ferro está a estender-se na Europa. Feita de arame farpado e de políticas de asilo falhadas. Pode ser vista nos enclaves espanhóis de Ceuta e de Melila no Mediterrâneo e em Idomeni, no Norte da Grécia, onde na semana passada a polícia anti-motim da Macedónia disparou gás lacrimogéneo contra famílias de refugiados desesperados que tentavam passar a fronteira da Grécia. A velha Cortina de Ferro mantinha as pessoas dentro, a nova mantém as pessoas fora. Os Estados membros da União Europeia construíram mais de 235 km de cercas nas fronteiras externas da UE: entre a Hungria e a Sérvia, Grécia e Turquia, Bulgária e Turquia, e, na semana passada, entre a Áustria e a Eslovénia. Países vizinhos como a Turquia tornara…

Desigualdade de oportunidades

Li há algum tempo, no Público, que um estudo recente da Direcção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência (DGEEC) diz o seguinte: «Entre os alunos cujas mães têm licenciatura ou bacharelato, a percentagem de ‘percursos de sucesso’ no 3.º ciclo é de 71%, enquanto entre os alunos cujas mães têm habilitação escolar mais baixa, equivalente ao 4.º ano, a mesma percentagem de ‘percursos de sucesso’ é de apenas 19%.» E acrescenta que a disparidade de resultados «é muito acentuada, especialmente tendo em atenção que uma das funções do ensino público é nivelar as oportunidades entre os alunos de diversas origens». Tenho escrito sobre este assunto de forma cansativa. Para não me repetir mais, vou sintetizar o que penso: 1. O conceito horroroso de desigualdade que quase todos criticam como papagaios não é um horror em si; a desigualdade é natural, humana, a igualdade é que não; 2. o que é horroroso é a existência de desigualdade de partida, à nascença; 3. devia existir igualdade de oportunid…

Marketing por Jorge Alas

Marketing. Um termo ininteligível para uns, claro para outros, turvo para muitos. É, ainda hoje, um termo capaz de gerar desconfiança entre algumas pessoas e de levá-las a assumir o errado como certo. Na verdade, o marketing é muito mais do que aparenta ser. Nestas parcas linhas não pretendo esgotar o assunto, longe disso. Desejo apenas torná-lo mais compreensível explanando, de forma breve, o que é e para que serve, afinal, o marketing. Encaremos o marketing como um instrumento e técnica de gestão empresarial necessário para conhecer o mercado, melhorar a comunicação interna e externa, estimular a criatividade, potenciar a procura, promover relações e transações, fomentar o rendimento e satisfazer continuadamente os consumidores, sendo indispensável para o crescimento de uma organização. Que outro departamento pode substituir plenamente todos estes desígnios do marketing? Nenhum. Grande parte da sociedade ainda não se apercebeu da profundidade e da aplicabilidade do marketing, tenden…

O patriotismo na educação - Bertrand Russel

Todo o homem tem um certo número de objectivos e de desejos, uns puramente pessoais, outros do tipo que pode ser partilhado com muitos outros. A maioria dos homens deseja dinheiro, por exemplo, e a maioria dos meios de enriquecer implica certo grau de cooperação com um grupo. De que grupo se trata depende do meio particular de enriquecer que se considere. Duas firmas diferentes do mesmo ramo de negócio são rivais entre si na maioria das coisas, mas quando se trata de obter uma tarifa aduaneira proteccionista cooperam uma com a outra. O dinheiro, é claro, não é a única coisa que leva as pessoas a constituírem-se em grupos de tipo político. Os homens organizam-se também em igrejas, irmandades, academias eruditas, maçonarias, e muitas outras coisas. Os motivos que levam os homens a cooperar são muitos: um deles é a identidade de interesses; outro é a identidade de opinião; laços de sangue são ainda um terceiro. A família Rothschild coopera devido a laços de sangue; não precisaram estabe…