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Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2012

Argumentação - Técnicas gerais

"(...) A argumentação não se confunde com a demonstração: enquanto esta não exige um auditório para ser concretizada ou construída, aquela depende dele para se concretizar plenamente. A argumentação é, por definição, diálogo de ideias entre dois sujeitos; a demonstração é, pelo contrário, um exercício racional monologado ou impessoal. No primeiro caso, prevalece uma relação entre um Eu e o Outro a quem se tenta influenciar de algum modo; no segundo caso, subsiste a relação de um Eu com as leis da lógica, sendo o próprio sujeito o primeiro a ter de ser convencido das teses a demonstrar (só em circunstâncias especiais a demonstração exige um auditório, como na defesa de uma tese académica, por exemplo). Naturalmente, existem situações monodramáticas que não pressupõem a existência física de um destinatário da argumentação, conquanto um sujeito pode argumentar para si próprio, em qualquer processo de autognose. (A díade Eu/Outro não deixa, pelo menos em termos psicanalíticos, de se …

Valores e Liberdade

O Indeterminismo absoluto não permite a existência da liberdade concreta. A liberdade humana é uma liberdade concreta, portanto, limitada e condicionada, é uma liberdade contextualizada. As determinações, condicionantes e os limites impostos à liberdade não anulam necessariamente liberdade. Pelo contrário, podem tornar-se as premissas para a sua existência. Quando falamos de liberdade, não devemos falar em termos gerais e abstractos, temos de explicitar a que liberdade nos referimos: liberdade para quem, liberdade em relação a quê ou em relação a quem, liberdade para fazer o quê? Há factores biológicos,sociais e culturais que condicionam a nossa acção. Será possível, apesar disso, provar que certas decisões são radicalmente livres ou, sequer, que há uma parte absolutamente livre em algumas delas? Ou seremos apenas robôs manipulados pelas leis da Natureza e da sociologia? Segundo os filósofos que defendem o determinismo qualquer acontecimento é o resultado de causas que o antecederam; ap…

Moçambique: a maldição da abundância? - Por Boaventura sousa Santos

 
A “maldição da abundância” é uma expressão usada para caracterizar os riscos que correm os países pobres onde se descobrem recursos naturais objeto de cobiça internacional. A promessa de abundância decorrente do imenso valor comercial dos recursos e dos investimentos necessários para o concretizar é tão convincente que passa a condicionar o padrão de desenvolvimento económico, social, político e cultural.
Os riscos desse condicionamento são, entre outros: crescimento do PIB em vez de desenvolvimento social; corrupção generalizada da classe política que, para defender os seus interesses privados, se torna crescentemente autoritária para se poder manter no poder, agora visto como fonte de acumulação primitiva de capital; aumento em vez de redução da pobreza; polarização crescente entre uma pequena minoria super-rica e uma imensa maioria de indigentes; destruição ambiental e sacrifícios incontáveis às populações onde se encontram os recursos em nome de um “progresso” que estas nunca c…

"Contra Ideias Feitas"

"Argumentar contra ideias feitas não é fácil. Não porque este seja mais ou menos difícil de desmontar, mas porque o interlocutor terá menos predisposição a aceitar argumentação contrária à ideia feita que pretende defender. A argumentação em sentido contrário será interpretada sistematicamente tendo por base a ideia feita que pretende rebater, embatendo numa muralha de preconceitos difícil de deitar abaixo.
Primeiro, discute-se a ideia feita com base na argumentação que a sustentaria. Esta argumentação poderá cair pela base, ou poderá não ter em conta uma série de factores relevantes. Mas apontar essas falhas não será suficiente. No momento em que se encontre uma contradição, ou se esgote, de alguma forma, a linha argumentativa em prol da ideia feita, entram em cena novas tácticas.
Uma táctica conhecida é o apelo à autoridade. O apelo à autoridade não é um argumento válido, mas o culto da autoridade leva a que seja usado como tal. Este apelo pode ser usado para pura e simplesmente …

Debater ainda é possível

Acaba por ser um lugar-comum chegar-se à conclusão de que falta espírito crítico aos portugueses; de que é difícil debater ideias em Portugal; de que há uma linha de pensamento único, que raramente é posta em causa; e que não há maneira de inverter esta situação. No entanto, e podendo o diagnóstico ser válido, a verdade é que é possível tentar que algo mude em Portugal, através da existência de um lugar onde se possa discutir de maneira honesta e informada as ideias, onde pessoas possam conhecer e dar a conhecer argumentos diferentes, possam criar hábitos de pensamento e crítica construtiva. Esse lugar, para os alunos da Universidade Nova de Lisboa, é o Nova Debate Club. O Nova Debate Club é um projecto de alunos para alunos da UNL. Foi fundado há um ano por um grupo de estudantes da NovaSBE, mas está aberto às inscrições de toda a comunidade escolar da UNL, independentemente do curso ou da faculdade. O nosso propósito é simples: debater ideias. Tendo sido notado que existe …

Podemos Crer-nos Livres - Ricardo Reis (F.Pessoa)

Aqui, Neera, longe
De homens e de cidades,
Por ninguém nos tolher
O passo, nem vedarem
A nossa vista as casas,
Podemos crer-nos livres.

Bem sei, é flava, que inda
Nos tolhe a vida o corpo,
E não temos a mão
Onde temos a alma;
Bem sei que mesmo aqui
Se nos gasta esta carne
Que os deuses concederam
Ao estado antes de Averno.

Mas aqui não nos prendem
Mais coisas do que a vida,
Mãos alheias não tomam
Do nosso braço, ou passos
Humanos se atravessam
Pelo nosso caminho.

Não nos sentimos presos
Senão com pensarmos nisso,
Por isso não pensemos
E deixemo-nos crer
Na inteira liberdade
Que é a ilusão que agora
Nos torna iguais dos deuses.

Ricardo Reis, in "Odes"

A "dificuldade" da liberdade - Kant

É impossível compreender a produção de um ser dotado de liberdade por uma operação física. Não se pode nem mesmo compreender como é possível Deus criar seres livres; de facto, parece que todas as suas acções futuras deveriam ser predeterminadas por esse primeiro acto e compreendidas na cadeia da necessidade natural e, consequentemente, elas não seriam livres. Emmanuel Kant, in 'Metafísica dos Costumes'

O texto satírico - MANIFESTO ANTI-DANTAS (1915)

"O "Manifesto Anti-Dantas e por Extenso", escrito por Almada em 1915, foi uma pedrada no charco da vida literária e social da época. Hoje, à distância de décadas, o choque entre ambos assume novos contornos e permite outras leituras.
O primeiro acto que chamou as atenções do público para José Almada Negreiros, um jovem em começo de carreira no ano de 1915, não foi de natureza cultural, mas social, não teve intenções criativas, mas destrutivas. Tratou-se do lançamento de um manifesto de várias páginas e vários insultos dirigido contra o, então, expoente máximo das letras portuguesas: Júlio Dantas. Com irreverências nunca vistas, Almada achincalha-o (e ao que ele representa) gravemente, abrindo espaço para si e para a sua geração, a do "Orpheu", que Dantas apelidara de "paranóica". Fulminado de espanto, por indignação uma parte, por regozijo outra, o país divide-se, radicaliza-se. Almada passa a ter nome. E pressa. Decide jogar cada vez mais fo…

Pensamento - Indira Gandhi

"O meu avô disse-me uma vez que havia dois tipos de pessoas: as que fazem o trabalho e as que ficam com os louvores. Ele disse-me para tentar ficar no primeiro grupo, pois há menos concorrência"
Indira Gandhi - 1917-1984

Liberdade Intelectual

A novidade introduzida pelos gregos da antiguidade clássica não foi a tentativa de explicar os fenómenos do mundo sem recorrer a deuses — pois muitos filósofos e cientistas eram religiosos, e recorriam a explicações de carácter semi-religioso. A novidade foi esta: os filósofos da Grécia antiga expunham as suas ideias e desafiavam os interlocutores a discuti-las livremente. Isto gerou uma novidade absoluta na história da humanidade: a cultura da liberdade intelectual. Esta liberdade está na base da universidade e da escola moderna, apesar de a realidade académica e escolar ficar demasiadas vezes aquém do ideal fundador. A liberdade intelectual permite ter uma atitude crítica, opondo-se à atitude subserviente própria da natureza humana, sempre ciente das autoridades e hierarquias. Os gregos antigos introduziram uma atitude que dificilmente floresce em sociedades fechadas: o controlo do pensamento é a primeira coisa que todo o ditador, religioso ou político, procura impor. Ao longo de vi…

Liberdade e prosperidade - por João César das Neves

"A prosperidade e a liberdade aumentaram a ambição. Hoje é opressão não ver a telenovela ou perder o subsídio. Agora considera-se pobreza estar privado da Internet ou do rastreio de doenças profissionais. Assim, vivendo melhor do que podiam imaginar os antigos, sentimo-nos mais triste que eles. Descobriu-se que a opressão é relativa: ter menos que os próximos, mesmo na abundância, é indigência." João César das Neves in Diário de Notícias

Mega-agrupamentos" fragilizam" autonomia das escolas

Os agrupamentos escolares de grandes dimensões, que têm vindo a ser criados, “constituem, até ao momento, um caminho de reforço do controlo e não da autonomia das escolas”. O alerta é feito pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), um órgão consultivo da Assembleia da República, numa recomendação sobre a autonomia das escolas, aprovada no mês passado. No documento, a que o PÚBLICO teve acesso, e que aguarda ainda publicação em Diário da República, o CNE constata que a recente criação dos chamados mega-agrupamentos “tem vindo a criar problemas novos onde eles não existiam”. São exemplo o “reforço da centralização burocrática dentro dos agrupamentos, o aumento do fosso entre quem decide e os problemas concretos a reclamar decisão” ou a “sobrevalorização da gestão administrativa face à gestão autónoma das vertentes pedagógicas”. Segundo o CNE, esta situação “fragiliza ainda mais a já frágil autonomia das escolas e deixa pela frente o reforço do cenário único e salvador do caos: a recentraliz…

Portugal - Portugueses

Já se disse muito sobre o povo português; como qualquer outro, temos as nossas qualidades e defeitos.
Somos assim e assado. Conseguimos ser os melhores do mundo e ao nosso lado, na mesma equipa, os piores. Temos orgulho e vergonha, muitas vezes da mesma coisa. Somos complicados, somos simples. Portugal é um paradoxo. Não há dois portugueses iguais. Não há ‘’o português normal’’. Ninguém, aqui na ponta da Europa, aceita ser só mais um. Ao mesmo tempo, somos os primeiros a acomodar-nos ao estado em que nos encontramos. Não somos a Grécia. Todos os dias vemos a nossa liberdade a cair um bocado mais. Cada dia que passa, as dificuldades aumentam. Cada dia que passa, há sempre um ‘’mas’’. Por exemplo, os impostos aumentam mas ainda dá para ir para a praia; perdi o emprego mas não gostava muito dele. Há, neste sebastianismo alegre, um sentimento de que as coisas podiam ser sempre piores, portanto, vamos com calma.
Acho que já chega. Basta de tolerar o que não merece. Basta de ter medo. Bast…