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A mostrar mensagens de Setembro, 2013

A crítica interna da Filosofia

Os filósofos criticam regularmente os trabalhos uns dos outros e o trabalho dos predecessores com cuidado e habilidade. Muita da sua discussão e publicação é, neste sentido, socrática: é uma justaposição de pontos de vista forjada a partir uns dos outros através da confrontação e análise críticas. O crítico que afirmou que os filósofos passavam a vida a lavar a roupa suja uns dos outros era antipático, mas apreendeu algo de essencial sobre o seu empreendimento. De facto, o que apreendeu era o que os filósofos nos seus seminários faziam: forjavam as suas próprias posições através da confrontação analítica com, no caso vertente, o passado. Penso que em nenhum outro campo desempenha a crítica um papel tão central. Por vezes os cientistas corrigem partes do trabalho dos outros, mas quem fizer uma carreira de crítica gradual é ostracizado pela profissão. Também os historiadores sugerem correcções algumas vezes e também, ocasionalmente, dirigem diatribes contra escolas concorrentes, cuja …

A Filosofia e a Crítica - por Bertrand Russell

A característica essencial da filosofia, que a torna um estudo diferente da ciência, é a crítica. A filosofia examina criticamente os princípios usados na ciência e na vida quotidiana; procura inconsistências que possam existir nestes princípios, e só os aceita quando, em resultado de um inquérito crítico, não surgiu qualquer razão para os rejeitar. [...]
Contudo, quando falamos da filosofia como uma crítica do conhecimento, é necessário impor uma certa limitação. Se adoptamos a atitude do céptico completo, colocando-nos completamente fora de todo o conhecimento, e pedindo, desta posição exterior, para sermos obrigados a regressar ao interior do círculo do conhecimento, estamos a exigir o impossível, e o nosso cepticismo nunca poderá ser refutado. Pois toda a refutação tem de começar com algum pedaço de conhecimento que os contendores partilham; nenhum argumento pode começar da dúvida nua. Logo, para que algum resultado se alcance, a crítica do conhecimento que a filosofia usa não po…

Filosofia - objecto e método

«Ainda não há muito tempo, todas as matérias científicas eram consideradas parte da filosofia. A filosofia da natureza [philosophy of matter] compreendia o que agora chamamos química e física; a filosofia do espírito [philosophy of mind] cobria as matérias da psicologia e áreas adjacentes. Em suma, a filosofia era concebida de forma tão lata que cobria qualquer campo da investigação teórica. Qualquer assunto em relação a cujo conteúdo fosse possível apresentar uma teoria explicativa tornar-se-ia um ramo da filosofia. Contudo, quando uma certa área de investigação atingia um ponto em que uma teoria principal dominava e, por conseguinte, se desenvolviam métodos uniformizados de crítica e confirmação, essa área era separada da árvore mãe da filosofia e tornava-se independente. Por exemplo, os filósofos avançaram em tempos uma série de teorias para explicar a natureza da matéria. Um deles afirmou que todas as coisas eram constituídas por água; outro, de alguma maneira mais próximo das co…

Síntese de matéria

1. A atitude filosófica não é uma atitude natural. Qualquer indivíduo de forma imediata face à realidade não começa a examiná-la de forma especulativa. Pelo contrário, o que é natural é que se centre na resolução problemas práticos, que se guie pelo senso comum, tendo em vista resolver certas necessidades imediatas ou interesses concretos (atitude natural). Ninguém pode viver sem se adaptar constantemente às condições do seu mundo. Estas exigências de sobrevivência tendem, naturalmente a sobrepor-se a todas as outras preocupações. 2. Embora o homem seja inseparável das suas circunstâncias, não pode todavia ser reduzido a uma mero produto das mesmas. Ele está permanentemente a ser confrontado com novos problemas que o colocam perante novas situações imprevisíveis, e que o obrigam a alargar os seus horizontes de compreensão da realidade. Cada mudança pode representar, assim, uma nova possibilidade para ampliar o conhecimento. Trata-se de uma possibilidade, não algo que necessariamente t…

A Filosofia não serve para nada...

A filosofia, diz-se (...), não serve para nada. [...] Mas será verdade que a filosofia não serve para nada? Claro que não. A filosofia, como a ciência, como a arte e como a religião, serve para alargar a nossa compreensão do mundo. Em particular, a filosofia oferece-nos uma compreensão da nossa estrutura conceptual mais básica, oferece-nos uma compreensão daqueles instrumentos que estamos habituados a usar para fazer ciência, para fazer religião e para fazer arte, assim como na nossa vida quotidiana. A filosofia é difícil porque se ocupa de problemas tão básicos que poucos instrumentos restam para nos ajudarem no nosso estudo. Os matemáticos fazem maravilhas com os números; mas são incapazes de determinar a natureza última dos próprios números -- têm de se limitar a usá-los, apesar de não saberem bem o que são. Todos nós sabemos pensar em termos de deveres, no dia a dia; mas a filosofia procura saber qual é a natureza desse pensamento ético que nos acompanha sem nós darmos muitas vez…

O que é a Filosofia? (resposta de D. Chalmers)

" Em Filosofia pergunta-se porque é que? Porque é que o mundo tem de ser como é? Como é que o mundo pode ser como é? O que significa o mundo ser como é? Que significa o mundo ser, para ele próprio, a questão? Assim que colocamos algumas destas questões, chegamos às questões profundas, fundadoras: E a Filosofia é, justamente, o que está no fundamento de tudo." David Chalmers, University of Califirnia, Santa Cruz.

O que é a Filosofia? (resposta de Karl Popper)

"Todos os homens são filósofos. Mesmo quando não têm consciência de terem problemas filosóficos, têm, em todo o caso, preconceitos filosóficos. A maior parte destes preconceitos são as teorias que aceitam como evidentes: receberam-nas do seu meio intelectual ou por via da tradição.
Dado que só tomamos consciência de algumas dessas teorias, elas constituem preconceitos no sentido de que são defendidas sem qualquer verificação crítica, ainda que sejam de extrema importância para a acção prática e para a vida do homem.
Uma justificação para a existência da filosofia profissional ou académica é a necessidade de analisar e de testar criticamente estas teorias muito divulgadas e influentes.
Tais teorias constituem o ponto de partida de toda a ciência e de toda a filosofia. São pontos de partida precários. Toda a filosofia deve partir das opiniões incertas e muitas vezes perniciosas do senso comum acrítico. O objectivo é um senso comum esclarecido e critico, a prossecução de uma perspe…

O que é a Filosofia? (resposta de Lacroix)

"A filosofia não é criadora; é reflexão sobre a totalidade da experiência vivida. Aceitava de boa vontade a fórmula de Brunschvicg, a história é o laboratório do filósofo, com a condição de entender por isso tanto a história individual (todo o indivíduo é uma história) como a história geral. Pretender filosofar todo o tempo é típico do intelectual que se evade. Façam os homens o que fizerem, eles pensam para agir e enquanto agem. O filósofo é um homem como os outros, que pensa primeiro participando nos trabalhos e na dor dos homens. E filosofar será voltar seguidamente sobre este pensamento imediato e espontâneo, reflectir sobre ele para lhe descobrir ou lhe dar um sentido. A filosofia é transformação pelo espírito do acontecimento em experiência, entendendo por acontecimento o dado bruto, a sensação, a situação histórica, o esforço para viver e pensar, tudo o que nos acontece interior e exteriormente, e por experiência a mesma coisa, mas reflectida pelo espírito que por essa ope…

O que é a Filosofia? (resposta de Antero de Quental)

"A Filosofia alimenta-se das suas próprias dúvidas: Duvidar não é só uma maneira de propor os grandes problemas: é já um começo de resolução deles, porque é a dúvida que lhes circunscreve o terreno e que os define: ora, um problema circunscrito e definido é já uma certa verdade adquirida e uma preciosa indicação para muitas outras verdades possíveis. É pela dúvida que a filosofia concebe, é a dúvida que a torna fecunda e a sua relatividade é, afinal, toda a sua razão de ser." Antero de Quental, Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX

Procurando definições de lógica (uma selecção)

Lógica, do grego clássico λογική (logikê), significa palavra, pensamento, ideia, argumento, discurso, ou princípio ...
"(...) Contentamo-nos, pois, de momento, com uma definição aproximada e provisória, dizendo que a lógica é o estudo dos raciocínios ou inferências, considerados sob o ponto de vista da sua validade. É preciso não confundir a validade de um raciocínio com a verdade das proposições que o compõem. (...) Evidencia-se muitas vezes esta distinção, opondo à verdade material uma verdade formal. O raciocínio válido é o que é verdadeiro pela sua forma, independentemente da verdade da sua matéria, ou seja do seu conteúdo. (...) Na lógica contemporânea, as locuções que aqui escrevemos em linguagem natural são substituídas por símbolos próprios. Sendo formal como a lógica clássica, a lógica contemporânea é, cada vez mais, sistematicamente simbólica." 

R. Blanché, Int. à la Logique contemporaine 
"(...) A lógica promove a verdade. Contudo, podemos embrenhar-nos nela se…

A Filosofia e a crítica

"A característica essencial da filosofia, que a torna um estudo diferente da ciência, é a crítica. A filosofia examina criticamente os princípios usados na ciência e na vida quotidiana; procura inconsistências que possam existir nestes princípios, e só os aceita quando, em resultado de um inquérito crítico, não surgiu qualquer razão para os rejeitar. [...]
Contudo, quando falamos da filosofia como uma crítica do conhecimento, é necessário impor uma certa limitação. Se adoptamos a atitude do céptico completo, colocando-nos completamente fora de todo o conhecimento, e pedindo, desta posição exterior, para sermos obrigados a regressar ao interior do círculo do conhecimento, estamos a exigir o impossível, e o nosso cepticismo nunca poderá ser refutado. Pois toda a refutação tem de começar com algum pedaço de conhecimento que os contendores partilham; nenhum argumento pode começar da dúvida nua. Logo, para que algum resultado se alcance, a crítica do conhecimento que a filosofia usa n…

Os três princípios lógicos (lógica bivalente)

Na linguagem natural, e em particular na poesia, não se reduz a realidade a uma lógica de dois valores; trata-se de uma lógica polivalente (vários valores). O poeta pode afirmar que uma coisa é e não é ao mesmo tempo (“amor, é ferida que dói e não se sente”), para transmitir uma determinada sensação. Isto não faz sentido à luz da lógica que estamos a estudar. Vamos pois falar de um lógica bivalente (admite apenas dois valores), em que algo que se afirma, ou é verdadeiro ou falso. O Princípio da Identidade, enuncia que uma coisa é o que é: o que é, é; o que não é, não é. O Princípio da Não Contradição enuncia que uma coisa não pode ser e não ser. Algo não pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo. (chamo a atenção para o operador de linguagem “e”; trata-se de somar, coexistir. O Princípio do Terceiro Excluído enuncia que uma coisa ou é ou não é, não havendo uma terceira hipótese. Assim sendo, uma proposição ou é verdadeira ou falsa, não há uma terceira hipótese a contemplar. Chamo a…

Das Causas e dos Princípios - Aristóteles

Visto que esta ciência (a filosofia) é o objecto das nossas indagações, examinemos de que causas e de que princípios se ocupa a filosofia como ciência; questão que se tomará muito mais clara se examinarmos as diversas ideias que formamos do filósofo. Em primeiro lugar, concebemos o filósofo principalmente como conhecedor do conjunto das coisas, enquanto é possível, sem contudo possuir a ciência de cada uma delas em particular. Em seguida, àquele que pode alcançar o conhecimento de coisas difíceis, aquelas a que só se chega vencendo graves dificuldades, não lhe chamaremos filósofo? De facto, conhecer pelos sentidos é uma faculdade comum a todos, e um conhecimento que se adquire sem esforço em nada tem de filosófico. Finalmente, o que tem as mais rigorosas noções das causas, e que melhor ensina estas noções, é mais filósofo do que todos os outros em todas as ciências. E, entre as ciências, aquela que se procura por si mesma, só pelo anseio do saber, é mais filosófica do que a que se est…

Ninguém tem pena das pessoas felizes - por M.E.C.

Ninguém tem pena das pessoas felizes. Os Portugueses adoram ter angústias, inseguranças, dúvidas existenciais dilacerantes, porque é isso que funciona na nossa sociedade. As pessoas com problemas são sempre mais interessantes. Nós, os tontos, não temos interesse nenhum porque somos felizes. Somos felizes, somos tontaços, não podemos ter graça nem salvação. Muitos felizardos (a própria palavra tem um soar repelente, rimador de «javardo») vêem-se obrigados a fingir a dor que deveras não sentem, só para poderem «brincar» com os outros meninos.  É assim. Chega um infeliz ao pé de nós e diz que não sabe se há-de ir beber uma cerveja ou matar-se. E pergunta, depois de ter feito o inventário das tristezas das últimas 24 horas: «E tu? Sempre bem disposto, não?». O que é que se pode responder? Apetece mentir e dizer que nos morreu uma avó, que nos atraiçoou uma namorada, que nos atropelaram a cadelinha ali na estrada de Sines.  E, no entanto, as pessoas felizes também sofrem muito. Sofrem, so…

A visão comum do mundo - por Oswaldo Porchat

Se me disponho a filosofar, é porque busco compreender as coisas e os fatos que me envolvem, a Realidade em que estou imerso. E porque quero saber o que posso saber e como devo ordenar minha visão do Mundo, como situar-me diante do Mundo físico e do Mundo humano e de tudo quanto se oferece à minha experiência. Como entender os discursos dos homens e meu próprio discurso. Como julgar os produtos das artes, das religiões e das ciências. Mas não posso esquecer todos os outros que filosofaram antes de mim. Num certo sentido, é porque eles filosofaram que me sinto estimulado a retomar o seu empreendimento. O legado cultural da espécie põe à minha disposição uma literatura filosófica extremamente rica e diversificada, de que minha reflexão se vai alimentando. Se me disponho a filosofar, tenho também de situar-me em relação às filosofias e a seus discursos, tenho de considerar os problemas que eles formularam e as soluções que para eles propuseram. Nesse contato com as filosofias e no seu e…

A actividade reflexiva

Muito bem. Já disse que a filosofia tem por função, entre outras coisas, reflectir sobre o reflectir. Através do filosofar, podemos saber mais sobre a nossa capacidade reflexiva. Por quê? Porque, em assim o fazendo podemos exercer o poder de reflexão mais amplamente, mais efectivamente e com mais precisão. Mas por que é tão importante exercer a capacidade reflexiva? A resposta é simples, mas essencial. Sem reflectir, não poderíamos ser livres. Agir sem reflectir significa não ser dono das próprias acções, ou ser movido por causas outras que não a nossa própria razão. Essa é a diferença entre nós e os robôs. Eles não possuem poder de reflexão e por isso mesmo eles não podem escolher por si mesmos o curso de acção que irão adoptar. Do mesmo modo, quando adoptamos um certo curso de acção ‘sem reflectir’, mecanicamente, a gente se assemelha a um autómato, ou a um robô nas mãos do primeiro que passa. É neste momento que fica claro o porquê do filosofar. A ponte entre a filosofia e as outra…

A repulsa do Poder pelo "homem de letras"

A repulsa dos poderes constituídos pelo homem de letras e pelo homem de pensamento (pois tanto a expressão racionalista do filósofo e do sociólogo como a apreensão intuitiva do real a que procede o ficcionista surgem como ameaça aos sistemas de imposição de ideias ou de coerciva persuasão), esse afastamento do intelectual inconformista, transformado assim, com raras excepções (que nalguns casos já beiram o limite da assimilação) em outsider, representa uma destruição de valores culturais, que se traduz não poucas vezes em atraso de gerações.  Evidentemente, tal relegamento do escritor para zonas de sombra acicata-o por vezes, levando-o a produções vertebradas, que são autênticos gritos da inteligência rebelde e onde não raro se derrama o melhor da capacidade imaginativa, tensa e exasperada, de períodos em que se obscurece a comunicação normal entre os homens e em que a acção do livro, reduzida embora em extensão, ganha uma acutilante qualidade crítica e concentra a dignidade de minori…

Da Justiça

Quero que me ensinem também o valor sagrado da justiça — da justiça que apenas tem em vista o bem dos outros, e para si mesma nada reclama senão o direito de ser posta em prática. A justiça nada tem a ver com a ambição ou a cobiça da fama, apenas pretende merecer aos seus próprios olhos. Acima de tudo, cada um de nós deve convencer-se de que temos de ser justos sem buscar recompensa. Mais ainda: cada um de nós deve convencer-se de que por esta inestimável virtude devemos estar prontos a arriscar a vida, abstendo-nos o mais possível de quaisquer considerações de comodidade pessoal. Não há que pensar qual virá a ser o prémio de um acto justo; o maior prémio está no facto de ele ser praticado. Mete também na tua ideia aquilo que há pouco te dizia: não interessa para nada saber quantas pessoas estão a par do teu espírito de justiça. Fazer publicidade da nossa virtude significa que nos preocupamos com a fama, e não com a virtude em si. Não queres ser justo sem gozares da fama de o ser ? P…

Cidadania democrática radical - por Chantal Mouffe

Se entendemos a cidadania como uma identidade política, criada através da identificação com a res publica, torna-se possível uma nova concepção de cidadão. Primeiro, estamos agora a lidar com um tipo de identidade política, uma forma de identificação, e não simplesmente com um estatuto legal. O cidadão não é, como sucede no liberalismo, um recipiente passivo de direitos específicos que goza da protecção da lei. Não é que esses elementos se tomem irrelevantes, mas a definição de cidadão altera-se porque agora a ênfase é colocada na identificação com a res publica. É uma identidade política comum de pessoas, que podem estar empenhadas em muitos empreendimentos com finalidades diferentes e com diversas concepções de bem, mas que, na procura da sua satisfação e na execução das suas acções, aceitam submeter-se às regras prescritas pela res publica. O que as liga é o reconhecimento de um conjunto de valores ético-políticos. Neste caso, a cidadania não é apenas uma identidade entre outras, c…

Um pensador subversivo - por João Rodrigues

“O mundo não é uma mercadoria.” Este slogan político contemporâneo resume toda uma atitude crítica em relação à hegemonia neoliberal, que tem na mercadorização sem fim à escala global um dos seus pilares e no esvaziamento das democracias e na crise generalizada dois dos seus resultados mais salientes e recorrentes. A obra de Karl Polanyi (1886-1964), em especial o seu principal livro – A Grande Transformação –, escrito em 1944 e só agora disponível em edição portuguesa, ajuda-nos decisivamente, como procurarei argumentar, a dar conteúdo e densidade a este slogan e a compreender a importância de se (re)conhecer a “realidade da sociedade”, que é bem mais do que um somatório de indivíduos mais ou menos egoístas interagindo em mercados mais ou menos idealizados. Fá-lo, entre outras razões, porque não se insere confortavelmente em nenhuma das disciplinas que tantas vezes espartilham o conhecimento das sociedades e porque nos oferece importantes pistas de economia política e de economia mor…

Facebook - documentário para reflexão

A Escola tem futuro - por João Ruivo

O futuro da Escola está para lá das pequenas mediocridades e dos tiques de arrogância que algumas circunstâncias sustentam.
Todos sabemos que tem! Onde está o futuro da Escola? Está nos jovens, nas crianças e nos pais que todos os dias a procuram; na população adulta que quer saber mais; nos desajustados que desejam ser reconvertidos; nos arrependidos que cobiçam reiniciar um novo ciclo da sua vida; nos que não tiveram oportunidade (porque a vida também sabe ser madrasta) e agora buscam o alimento do sucesso; na sociedade e no Estado que já não sabem (e não podem...) viver sem ela e, sobretudo, pressente-se nos professores e educadores que são a alma, o sal e o sangue de que se faz todos os dias essa grande construção colectiva. A Escola é uma organização muito complexa... É paixão e movimento perpétuo. É atração e remorso. É liberdade e prisão de sentimentos contraditórios. É mescla de angústias e espontâneas euforias. É confluência e rejeição. É orgulho e acanhamento. É todos e ning…

Do real ao digital... e nem demos conta

O tempo vale muito mais do que o dinheiro - por MEC

Perder tempo não é como gastar dinheiro. Se o tempo fosse dinheiro, o dinheiro seria tempo.
Não é. O tempo vale muito mais do que o dinheiro. Quando morremos, acaba-se o tempo que tivemos. Quando morremos, o que mais subsiste e insiste é a quantidade de coisas que continuam a existir, apesar de nós.
O nosso tempo de vida é a nossa única fortuna. Temos o tempo que temos. Depois de ter acabado o nosso tempo, não conseguimos comprar mais. Quando morreu o meu pai, foi-se com ele todo o tempo que ele tinha para passar connosco. As coisas dele ficaram para trás. Sobreviveram. Eram objectos. Alguns tinham valor por fazer lembrar o tempo que passaram com ele - a régua de arquitecto naval, os relógios - quando ele tinha tempo.
As pessoas dizem «time is money» para apressar quem trabalha. A única maneira de comprar tempo é de precisar de menos dinheiro para viver, para poder passar menos tempo a ganhá-lo. E ficar com mais tempo para trabalhar no que dá mais gosto e para ter o luxo indispens…

Ver claro é não agir - por Fernando Pessoa

O governo do mundo começa em nós mesmos. Não são os sinceros que governam o mundo, mas também não são os insinceros. São os que fabricam em si uma sinceridade real por meios artificiais e automáticos; essa sinceridade constitui a sua força, e é ela que irradia para a sinceridade menos falsa dos outros. Saber iludir-se bem é a primeira qualidade do estadista. Só aos poetas e aos filósofos compete a visão prática do mundo, porque só a esses é dado não ter ilusões. Ver claro é não agir. Fernando Pessoa, in "Livro do Desassossego"

O Homem Corrige Deus - por Teixeira de Pascoaes

Nós encontramos o soldado em várias espécies inferiores. A formiga tem exércitos e creio que polícia civil. Qualquer obscuro passarinho é um autêntico Bleriot. Não há industrial alemão que se aproxime da abelha. O canto do galo e os versos da Ilíada. João de Deus e o rouxinol, o castor e o arquitecto, a sub-marinha e os tubarões, representam cousas e criaturas que se confundem...
Mas o Filósofo revela-se apenas no homem. A Filosofia é o sinal luminoso que o destaca da mesquinha escuridade ambiente... Só o homem é susceptível de magicar, de refazer a Criação à sua imagem... O homem corrige Deus. Teixeira de Pascoaes, in "A Saudade e o Saudosismo"