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Mensagens

A mostrar mensagens de Agosto, 2010

Bom ano lectivo 2010/2011

No passado ano lectivo, trabalhei com as turmas do 11º ano. Este ano de 2010/2011 coube-me o 10.º ano. Se a exposição continua a ser um dos métodos mais eficientes para atingir os objectivos da nossa disciplina, creio que neste começo de aprendizagem devemos apostar mais na motivação do que na erudição. Motivar passa por pôr a filosofia em prática, trabalhando textos e problemas que sejam ao mesmo tempo acessíveis, apelativos, ricos e rigorosos; problemas que interpelem cada um de nós, que vão ao encontro dos interesses e temas familiares : liberdade e livre arbítrio; definição do bem e do mal; justiça; fundamentação do poder e da autoridade, etc. Os textos podem servir-nos de duas maneiras: como pontos de partida para o contacto com problemas — textos "psicadélicos", quer dizer, que abram a mente — e como teorias de referência acerca desses problemas, que constituem respostas histórica e filosoficamente relevantes e que, neste caso, devem ser incluídos em conjuntos de teo…

Entre a poeira das políticas - Fernando Pessoa

Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica. Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo própria. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, …

Não inquiro do anónimo futuro - Ricardo Reis

Não inquiro do anónimo futuro
Que serei, pois que tenho,
Qualquer que seja, que vivê-lo. Tiro
Os olhos do vindouro.
Odeio o que não vejo. Se pudera,
Vê-lo, grato o não vira.
Se mo mostrarem num quadro, ou o virarem
Não tenho o que não tenho.
O que o Destino manda, saiba-o ele.
A ignorância me basta.

Ricardo Reis -  Fernando Pessoa

Vive sem horas - Ricardo Reis

Vive sem horas. Quanto mede pesa,
E quanto pensas mede.
Num fluido incerto nexo, como o rio
Cujas ondas são ele,
Assim teus dias vê, e se te vires
Passar, como a outrem, cala.

8-9-1932 - Ricardo Reis (Fernando Pessoa) 

Vive - Fernando Pessoa

Vive, dizes, no presente, Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

Poemas inconjuntos - Alberto Caeiro - 19-7-1920