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A mostrar mensagens de Maio, 2014

Ética e Europa - por Anselmo Borges

Se fosse vivo, teria feito 100 anos no passado dia 27 de Fevereiro. É um dos maiores filósofos do século XX, que "se tornou filósofo para se não tornar esquizofrénico". Refiro-me a Paul Ricoeur, sendo o que aí fica, evitando tecnicismos, uma homenagem ao grande pensador humanista e cristão, que também influenciou a teologia, com a hermenêutica. 1. Pergunta nuclear da filosofia é: o que é o Homem?, quem sou eu? Ora, não se pode duvidar do facto de que eu sou; mas quem sou, o que é que eu sou: isso é duvidoso. O Homem não é transparente a si próprio. Para chegar a si mesmo, tem de fazer um grande desvio de interpretação, passando pelas obras da cultura: a literatura, as artes, as religiões, as ciências naturais - no quadro das neurociências, em diálogo com J.-P. Changeux, fez questão de acentuar a distinção fundamental entre o conhecimento científico e a experiência vivida: o sujeito não é redutível a dados empíricos -, as ciências humanas... É mediante esse percurso que o Ho…

Diferentes: certo e errado; bem e mal - por Ramiro Marques

O certo, o errado, o bem e o mal não têm o mesmo significado nem a mesma fundamentação na ética da virtude e na ética deontológica. Para a primeira, esses conceitos têm que ver directamente com as leis humanas e os costumes. Para a segunda, estão no cerne da ética e dependem da forma como o sujeito usa a razão universal para descobrir os grandes princípios éticos. Enquanto que para a ética grega o certo e o errado dependem dos contextos culturais e são, portanto realidades variáveis, para a ética deontológica são conceitos que ultrapassam as limitações contextuais e circunstanciais. Para se perceber melhor o significado destes conceitos, convém perguntar: quem são os criadores das leis? A resposta da ética grega é que as leis são criadas pelos legisladores, aqueles que, em determinado momento do processo histórico, outorgam uma Constituição aos cidadãos. Para a ética cristã, a resposta é Deus. É a lei divina que estabelece os fundamentos e os critérios das leis humanas. As leis humana…

Liberdade e Justiça

A justiça é um conceito comparativo, na medida em que confronta uma situação real (facto) com uma situação ideal (valor). Este confronto ocorre no contexto de que cada indivíduo vive inserido numa determinada sociedade. A justiça é por isso uma avaliação comparativa que diz respeito às interacções entre indivíduos, isto é, factos resultantes de acções individuais versus valores individuais (que podem ser partilhados ou não). Se alguém nasce homem e gostava de ser mulher, não se pode dizer que lá por ele ser homem que isso é uma injustiça. Falta a acção causal de outra parte; ou mesmo do próprio, na medida em que a sua natureza não depende dele. A natureza da justiça está por isso intimamente ligada com a natureza dos valores. Aqueles que acham que os valores são intrínsecos e revelados/descobertos, tenderão a ter a mesma abordagem perante a justiça, achando-a absoluta. Os que acham que são subjectivos, tenderão a ver a justiça numa óptica puramente relativa. Isto dando de barato que …

Convergência numa ética comum : os direitos do homem - por Bento Domingues

“Haver injustiça é como haver morte. / Eu nunca daria um passo para alterar / Aquilo a que chamam injustiça do mundo. / Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda / E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.” A ronha destes versos de F. Pessoa, o fingidor, é uma peça essencial para o debate em torno da fundamentação da ética, isto é, da experiência intrínseca - do sentido que insiste e persiste em proposições como esta : “Auschwitz, nunca mais !” Os pós-modernos consideram infrutíferas e obsoletas todas as tentativas de fundamentar a ética. Além de ser impossível, foi o empenho da superada modernidade. Os cientistas continuam a pensar que a ética - ao contrário da ciência, que é racional e intersubjectiva - vem sempre marcada de subjectividade. No sentido forte da palavra, também o movimento comunitário americano procura não fundamentar a ética. Visa apenas reconstruir a sua racionalidade, afirmando, face aos liberais, que é impossível levar a cabo essa tarefa …

Ciência: a "tecnologia da verdade"

Tente desenhar uma linha recta, ou um círculo, «à mão». A não ser que tenha um talento artístico considerável, o resultado não será grande coisa. Mas com uma régua e um compasso, por outro lado, poderá eliminar praticamente as fontes da instabilidade humana e obter um resultado satisfatório, limpo e objectivo, sempre igual. É a linha realmente recta? Quão recta? Em resposta a estas questões desenvolvemos testes cada vez mais precisos, seguidos de testes da precisão desses testes, e assim por diante, consolidando o nosso progresso em direcção a uma cada vez maior precisão e objectividade. Os cientistas são tão vulneráveis ao raciocínio caprichoso, tão passíveis de serem tentados por motivos baixos, tão subornáveis, crédulos e desleixados como o resto da humanidade. Os cientistas não se consideram santos; nem sequer fingem ser sacerdotes (de quem, de acordo com a tradição, se espera melhores resultados do que os obtidos por todos nós na luta contra a tentação e a fraqueza moral). Os ci…

Depois das eleições - por Gonçalo M. Tavares,

Depois de uma campanha eleitoral animada, a grande vantagem de qualquer eleição democrática é a de o povo sair, finalmente, da sala de estar dos políticos. É uma sensação de alívio que alguns eleitos descrevem como semelhante ao momento em que uma dor intensa, por qualquer razão obscura, termina.  (...) Depois de qualquer eleição a sensação dos políticos - quer tenham perdido quer tenham ganho - é a de que o povo mais profundo acaba de entrar todo num comboio, dirigindo-se, compactamente, para uma terra distante. Esse povo voltará apenas, no mesmo comboio, nas semanas que antecedem a eleição seguinte.  Esse intervalo temporal é indispensável para que o político tenha tempo para transformar, delicadamente, o ódio ou a indiferença em nova paixão genuína.  Gonçalo M. Tavares, in 'O Senhor Kraus'

Política, eleições e desejo - por Joaquim Aguiar

"No dia 25 de Maio cada português e cada portuguesa tem na sua mão e numa caneta a possibilidade de concretizar o seu desejo." António José Seguro, discurso de encerramento da oitava conferência "Novo Rumo para Portugal - um Novo Rumo para a Europa", Lisboa, 15 de Março de 2014.
A democracia precisa de competência política dos que exercem o poder para que estes saibam identificar o que é o seu campo de possibilidades e de informação adequada dos eleitores para que estes saibam avaliar o exercício do poder quando usam a mão e a caneta para afastar do poder aqueles que não mostraram ter competência política. Sem estas duas condições, a democracia transforma-se em demagogia (quando o que prometem é fiado, ou seja, é financiado a crédito) e em infantilismo (quando os eleitores acreditam que basta desejarem para terem, mesmo que o seu voto seja financiado a crédito). Os eleitores que se deixam prender no mito de Aladino, começam por ser recompensados com a satisfação de …

Cântico negro - José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue ve…

O problema da demarcação (K. Popper)

Popper chama a isto o "problema da demarcação" — qual é a diferença entre a ciência e outras formas de crença? A sua resposta é que a ciência, ao contrário da superstição, pelo menos é falsificável, mesmo que não possa ser provada. As teorias científicas estão formuladas em termos precisos, e por isso conduzem a previsões definidas. As leis de Newton, por exemplo, dizem-nos exactamente onde certos planetas aparecerão em certos momentos. E isto significa que, se tais previsões fracassarem, poderemos ter a certeza de que a teoria que está por detrás delas é falsa.  Pelo contrário, os sistemas de crenças como a astrologia são irremediavelmente vagos, de tal maneira que se torna impossível mostrar que estão claramente errados. A astrologia pode prever que os escorpiões irão prosperar nas suas relações pessoais à quinta-feira, mas, quando são confrontados com um escorpião cuja mulher o abandonou numa quinta-feira, é natural que os defensores da astrologia respondam que, consider…

Estou cansado da inteligência - por Álvaro de Campos

Estou cansado da inteligência.
Pensar faz mal às emoções. Uma grande reacção aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára, meu coração!
Sossega, minha esperança factícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui...
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer! Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!
Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam internas
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.


18-6-1930 - Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa

Portugal tem futuro? - Tertúlia com Adriano Moreira

Pensamento crítico - por Ludwig Krippahl

Para muitos é ofensivo criticar as pessoas, duvidar delas ou contradizê-las nas suas crenças. Isto está enraizado na nossa cultura. Talvez até nos nossos genes. Mas é um mal-entendido. Normalmente, o que se critica são afirmações e não pessoas. O pensamento crítico não é um ataque pessoal. Mas compreende-se que muitos o julguem ser. Durante milhares de gerações a melhor forma de julgar a credibilidade de uma afirmação foi julgando a pessoa que a proferia. Se o ancião da tribo dizia que comer figos ao sol dava dores de barriga não se ia organizar um teste controlado com grupos de voluntários seleccionados aleatoriamente. Não só por limitações práticas como pela falta dos conceitos necessários para perceber a necessidade da experiência, organizá-la e interpretar os resultados. A única possibilidade era decidir se se confiava no ancião. Por isso a confiança nas hipóteses esteve muito tempo associada à confiança nas pessoas. Hoje em dia é diferente. Não vivemos em tribos pequenas cujo co…

O pensamento crítico

O pensamento crítico nem sempre foi útil. Na verdade, durante a maior parte da história da humanidade, o pensamento crítico até podia ser uma desvantagem. As decisões mais importantes dos nossos antepassados eram quase sempre urgentes e tomadas com pouca informação. Na pré-história, os que ficaram a analisar cuidadosamente se aquele ruído era mesmo um leão ou se aqueles estranhos com lanças em riste tinham más intenções não viveram o suficiente para transmitir às gerações seguintes a sua abordagem metódica e atenta. Durante muito tempo, o pensamento crítico serviu de pouco e até podia ser perigoso para a saúde. Só lentamente é que esta situação foi mudando. Na Grécia antiga surgiram os primeiros filósofos ocidentais, que se tornaram famosos por pensar acerca de como pensar. Eram pessoas excepcionais numa sociedade excepcional onde apenas alguns, muito poucos, se podiam dedicar ao pensamento e à contemplação, enquanto os outros trabalhavam. E poucos séculos mais tarde, nas sociedades q…

Falta-me um sentido, um tacto - Álvaro de Campos (F.Pessoa)

Não sei. Falta-me um sentido, um tacto
Para a vida, para o amor, para a glória...
Para que serve qualquer história,
Ou qualquer facto?


Estou só, só como ninguém ainda esteve,
Oco dentro de mim, sem depois nem antes.
Parece que passam sem ver-me os instantes,
Mas passam sem que o seu passo seja leve.


Começo a ler, mas cansa-me o que inda não li.
Quero pensar, mas dói-me o que irei concluir.
O sonho pesa-me antes de o ter. Sentir
É tudo uma coisa como qualquer coisa que já vi.


Não ser nada, ser uma figura de romance,
Sem vida, sem morte material, uma ideia,
Qualquer coisa que nada tornasse útil ou feia,
Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe.
1-3-1917 Álvaro de Campos

A via do "Decrescimento" por Serge Latouche

Ao escutar as palavras iniciais do economista e filósofo francês, que começou por citar Hegel numa das suas obras sobre o percurso da Razão na história, que dizia “os tempos felizes são tempos em que os manuais terão páginas em branco” e, hoje, ao contrário desses tempos, vivemos num período de incertezas e o que falta é tempo para pensar, para deixarmos as fórmulas e os discursos ideológicos que são não-pensamento e procurarmos um verdadeiro pensamento que ilumine a acção, claramente percebemos que o centro da sua comunicação se centraria na questão e problema do regime democrático contemporâneo e onde ele nos conduziu e quais as vias ou caminhos para um futuro melhor, neste caso, o decrescimento como via opcional a ter em conta e credível. É verdade que hoje vivemos numa sociedade do crescimento sem crescimento, isto é, a economia que se diz e que promete crescimento ilimitado é uma economia que acabou por se “alimentar” da própria sociedade, e que busca “crescer só por crescer” e …

K. Popper: A lógica científica não é indutiva

Não há indução probabilística. A experiência humana, tanto na vida comum como em ciência, adquire-se fundamentalmente através do mesmo procedimento: a invenção livre, injustificada e injustificável de hipóteses, antecipações ou expectativas, e a sua subsequente testagem. Esses testes não podem tornar a hipótese "provável". Podem apenas corroborá-la - e isto porque o "grau de corroboração" não é mais que uma designação ligada a uma informação ou a uma apreciação da severidade dos testes passados pela hipótese. Mas quase todos os meses se publicam mais teorias da indução. É que há uma considerável força intuitiva na asserção de que a propriedade de uma lei aumenta com o número de casos observados que a verificam. Tentei explicar essa força intuitiva assinalando que não se distinguiu adequadamente grau de corroboração e probabilidade. Quer a minha explicação seja satisfatória quer não, a actual superabundância de teorias da indução insustentáveis deve ser altamente …

A torrente de informação e o jornalismo vazio - por Hassina Mechaï

A profissão do jornalista, na era da Internet, vê perderem-se lentamente as suas regras de base: já não é preciso procurar, verificar, cruzar as informações. Pura e simplesmente, basta recolhê-las e integrá-la nos interfaces. O sistema de produção da informação, com as suas entregas de telegramas pré-formatados, tem cada vez mais o aspecto de uma comida fast food em que não se pede que se cozinhe mas que se montem o mais rapidamente possível os ingredientes, em mil-folhas indigestas.  O problema com certos sites de informações, não é tanto que os jornalistas estejam de cócoras diante dos poderes, mas que estejam simplesmente sentados, fisicamente sentados, sempre sentados. Assistimos assim ao nascimento duma nova profissão que será mais de técnico de informações do que de jornalista. Porque na Internet os sites de informações contentam-se sobretudo em publicar um telegrama, acompanhando-o com um título e uma foto o mais atraente possível. E, se isso não chega para preencher o espaço,…

Mediodía - Antonio Machado

Es mediodía. Un parque.
Invierno. Blancas sendas;
simétricos montículos
y ramas esqueléticas.

Bajo el invernadero,
naranjos en maceta,
y en su tonel, pintado
de verde, la palmera.

Un viejecillo dice,
para su capa vieja:
«¡El sol, esta hermosura
de sol!…» Los niños juegan.

El agua de la fuente
resbala, corre y sueña
lamiendo, casi muda,
la verdinosa piedra.

Antonio Machado, “Sol de invierno” – Obras completas. Ed. Aguilar

20 anos sem Agostinho da Silva – por Carlos Loures

No passado dia 3, completaram-se vinte anos sobre a morte de Agostinho da Silva. Nasceu no Porto em 13 de Fevereiro de 1906 e morreu em Lisboa em 3 de Abril de 1994. Humanista, filósofo, deixou uma notável obra ensaística. Como pedagogo, teve um percurso brilhante em Portugal e, sobretudo, no Brasil. Com o exemplo da sua vida e com o seu espírito criativo e inovador, estabeleceu o princípio de que nada é indiscutível. Agostinho da Silva foi aquilo a que, usando um chavão, se pode chamar «uma figura incontornável»; e, neste caso, o chavão faz sentido, pois deve ser considerado como um dos principais intelectuais portugueses do século XX. Em todo o caso, não apreciava elogios excessivos. Numa entrevista televisiva (Conversas Vadias), Cáceres Monteiro citou-lhe umas linhas de John Le Carré que, em A Casa da Rússia (The Russia House), um romance de espionagem que decorre no fim da Guerra Fria, e com uma parte tendo Lisboa como cenário, faz uma famosa a referência ao Jardim do Príncipe Re…

Porque hoje é sábado - Vinicius de Morais

I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas como o mar
Em bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por vias das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo o mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sába…

Portugal tem futuro? - Professor Doutor Adriano Moreira

Portugal tem futuro? A esta questão preocupante, não pelo óbvio da resposta histórica, mas pela incerteza da atualidade virá responder o Professor Doutor Adriano Moreira, conhecido estadista e politólogo, que desempenhou a sua missão política como deputado, além de ser um reconhecido sociólogo e professor. Que desafios são lançados a um país que parece lesar os mais fragilizados e onde a palavra de ordem continua a ser «austeridade e sacrifício» especialmente para as classes média e baixa, deixando aos poderosos uma franja cada vez mais ampla de poder económico? Como falar de futuro a uma nação com um dos índices de natalidade mais baixos da Europa e dos mais elevados na camada envelhecida? Que futuro para um Estado que vive da subsidiodependência deixando afundar cada vez mais o conceito de trabalho e dignidade? Que Igreja esperar e que conceito testemunhal de contracorrente promover? Haverá, num universo de incertezas económicas e sociais, lugar para a certeza última da fé? Estas e…

Canção tão simples - Manuel Alegre

Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?

Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?


Manuel Alegre

Os limites à liberdade de expressão nos discursos de incitamento ao ódio - por Miguel Salgueiro Meira

Enquanto direito fundamental constitucionalmente consagrado (artº. 37º da CRP), a liberdade de expressão não é um direito absoluto.  Muito embora a Constituição da República Portuguesa não contenha uma cláusula de restrição da liberdade de expressão e refira expressamente que tal direito deve ser exercido sem impedimentos nem discriminações, o certo é que do próprio corpo do seu artº. 37º se extrai que tal liberdade não é ilimitada.  Esses limites hão-de ser encontrados em situações de conflito, através de uma adequada ponderação da liberdade de expressão com outros bens e valores constitucionalmente protegidos, bens esses que podem ser pessoais, comunitários ou estaduais.  O princípio da dignidade da pessoa humana, enquanto princípio fundamental e estruturante da Constituição da República Portuguesa, dá unidade de sentido aos preceitos de direitos fundamentais; é ele que deve servir de regulador nas situações de conflito entre dois direitos fundamentais, impedindo que o exercício de…

Ciência e pseudociência

Há um grande cepticismo sobre a possibilidade de efectivamente distinguir a ciência da não-ciência. A ideia de que não podemos ter um critério de demarcação satisfatório é motivada pelas tentativas falhadas de prover tal critério no passado, e pela observação da diversidade cada vez maior de métodos e finalidades das disciplinas que somos inclinados a considerar como científicas. Como podemos esperar oferecer uma explicação unificada do que faz da investigação uma investigação científica em disciplinas tão diferentes como a física, a geologia e a economia? Ainda que a tarefa de delimitar a ciência possa parecer infrutífera, há muito boas razões para continuar a insistir. É importante saber em que especialistas se deve confiar, que projectos de investigação financiar, que teorias ensinar nas escolas. E as decisões sobre estas questões não podem ser tomadas apenas com base na consistência teórica ou na aparente adequação da teoria aos dados empíricos. Precisamos de uma explicação do qu…

3ª aula aberta de Filosofia - Os valores na Política - com Manuel Monteiro

Na próxima quinta-feira, dia 8 de maio, pelas 16:45, no anfiteatro A15, irá decorrer a terceira aula aberta, mais uma vez subordinada à temática das ideologias políticas, contando com a participação do Professor Doutor Manuel Monteiro. Serão abordadas, sensivelmente, as mesmas questões que presidiram à aula anterior, com o Professor Doutor Garcia Pereira, só que, desta feita, iremos escutar e debater a resposta da Democracia Cristã (área do centro-direita): o aparente esvaziamento ideológico que acaba por resultar num desinteresse geral pela politica, será fruto da falência dos sistemas clássicos de esquerda e direita? Será esse esvaziamento de valores responsável pela sensação de crescente domínio da estrutura económica sobre o sistema político? Que valores traçam a matriz da direita e em particular os da Democracia Cristã? No cumprimento do plano de aulas abertas da nossa disciplina, conto com a presença e participação activa de todos os alunos dos décimo e décimo primeiros anos de …